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“GrandMèreDixNeuf et le secret du Soviétique”: um livro de Ondjaki sobre a Luanda dos anos 80

Métailié / Daniel Mordzinzski
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Escritor angolano a viver no Brasil, Ondjaki (1977) vê o seu livro juvenil “Avôdezanove e o segredo do Soviético” – publicado em português em 2008 e vencedor do Prémio Jabuti em 2010 – chegar às livrarias francesas esta semana pelas mãos da Éditions Métailié.

“GrandMèreDixNeuf et le secret du Soviétique”, graças à tradução de Danielle Schramm, mantém a mesma musicalidade e linguagem lírica do original que conta as aventuras de um grupo de crianças que tudo faz para salvar o seu bairro, que corre perigo de destruição.

Em plenos anos 80, em Luanda, onde os ecos da guerra civil ainda se fazem escutar, o governo tem a ideia de construir um mausoléu para glorificar o falecido Presidente Agostinho Neto, o Herói da Revolução. O bairro, muito bem situado à beira-mar, a Praia do Bispo, será “requalificado”, que é como quem diz “destruído”, sem que os governantes levem em consideração as opiniões dos seus consternados habitantes. É então que duas crianças, incluindo o narrador-menino, decidem resistir e impedir por todos os meios o desmantelamento do bairro onde vivem.

Essas crianças são protegidas pela avó dezanove, que é amiga do oficial soviético responsável pela edificação do mausoléu. Não esqueçamos que a guerra civil angolana, que se seguiu à guerra colonial, foi um dos mais tristes palcos onde decorreu a “guerra por procuração” entre o bloco soviético e o bloco estadunidense no contexto da Guerra Fria. Assim, ao lado do MPLA alinharam-se a União Soviética e Cuba (uma das personagens, Espuma do Mar, só fala espanhol cubano) enquanto ao lado da UNITA se alinharam os EUA e a África do Sul dos tempos do Apartheid. Este romance juvenil de Ondjaki transpira toda essa conjuntura.

É graças à amizade mantida com o oficial soviético que a avó dezanove, a quem falta um dedo do pé, consegue, por exemplo, ter eletricidade em casa – o apaixonado soviético, a quem o calor angolano vai esgotando as energias, fazendo sentir falta dos rigorosos invernos russos, lá lhe faz uma ligação ilegal – um luxo naquele bairro de um país em colapso económico.

É através da perspetiva infantil, mas não infantilizada, do narrador e dos seus pequenos companheiros que o leitor acompanha o desenrolar da missão impossível de fazer explodir o mausoléu em construção, a solução radical que as crianças encontram para salvar o seu bairro e a sua praia. O desenrolar dessa missão explosiva corre paralelamente à construção da relação entre meninos e adultos, entre o narrador e a avó Nhete (mais tarde dezanove), uma troca de experiências e lembranças nostálgicas.

Terá sido o mausoléu destruído? Terão as crianças salvado o bairro? As respostas a essas perguntas estão algures no meio da prosa cromática, plena de magia e humor, deste livro que inspirou o recente filme, com o mesmo título, do realizador moçambicano João Ribeiro.

 

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