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Gulbenkian de Paris apresenta exposição de Rui Chafes e Alberto Giacometti

LusoJornal / Carlos Pereira LusoJornal / Carlos Pereira LusoJornal / Carlos Pereira LusoJornal / Carlos Pereira

A Delegação de Paris da Fundação Calouste Gulbenkian inaugura hoje uma exposição intitulada “Gris, vide, cris” com obras de Rui Chafes e de Alberto Giacometti. A exposição integra 11 esculturas e 4 desenhos de Alberto Giacometti – algumas delas nunca tinham sido apresentadas antes e outras apenas foram expostas uma vez – e 7 esculturas de Rui Chafes, seis delas inéditas, feitas propositadamente para esta exposição. A Comissária é Helena de Freitas que comissariou no ano passado a exposição de Amadeu de Sousa Cardoso no Grand Palais, em Paris.

Os dois artistas nunca se cruzaram – “Eu nasci alguns meses depois da morte de Alberto Giacometti” explica Rui Chafes – e Helena de Freitas assume que não se trata de uma confrontação entre as obras dos dois artistas, mas sobretudo de um “encontro”.

“Isto não se trata de um ‘face-a-face’ entre as minhas obras e as de Alberto Giacometti. Isso era impossível e não é o que se pretende” explica Rui Chafes. “O importante é mostrar as peças de Alberto Giacometti como elas nunca foram mostradas antes”.

Alberto Giacometti nasceu em Stampa, na Suíça, em 1901, filho de um pintor impressionista de renome, Giovanni Giacometti. Com 30 anos aderiu ao movimento surrealista de André Breton, do qual se distanciou mais tarde.

Quando os visitantes subirem as escadas que os levam ao primeiro andar da Fundação, – os menos distraídos vão reparar na obra “Lágrima”, de Rui Chafes, pendurada num dos ângulos do muro – são convidados a entrar na primeira sala da exposição, “Au delà des yeux”. Trata-se de uma sala escura onde estão algumas obras de Alberto Giacometti.

“Estas obras são muito frágeis e habitualmente estamos habituados a vê-las dentro de uma redoma de vidro. Não gosto nada disso e o vidro devolve-nos o nosso próprio reflexo” explica Rui Chafes que aqui se transforma num “encenador” que leva o público a descobrir as peças de forma original, através de “frinchas” estreitas ou de painéis furados. “É incómodo, necessita de algum esforço da nossa parte para poder descobrir a obra do artista, mas foi assim que o artista concebeu estas obras, com trabalho também. E desta forma, o público vai descobrir detalhes, vai ficar em silêncio, face à obra de Giacometti”. E resulta.

A escultura “La tête de Diego” nunca foi mostrada antes. Trata-se de uma obra inspirada no irmão e assistente do artista, Diego. E todas as outras são figuras humanas.

Na sala seguinte, “Lumière” está um túnel preto com quatro metros, sempre em metal, porque é a matéria que Rui Chafes utiliza desde sempre, e o público é convidado a entrar, um de cada vez, para ver a obra mais pequena de Alberto Giacometti exposta nesta mostra. “Toute petite figurine” foi realizada entre 1937 e 1939 e tem apenas 4,5 cm de altura. “O chão está inclinado, dá mau jeito entrar no túnel, é de certa forma inconfortável, e ali estamos nós frente a uma estatueta de Giacometti” confessa Rui Chafes. “É uma experiência física para estar só, face à escultura”.

Na sala seguinte estão efetivamente duas obras, uma de cada artista, frente a frente. A de Alberto Guiacometti sempre em cima de um pedestral e a de Rui Chafes pendurada no teto. O primeiro com uma figura filiforme que inspira leveza e o segundo com uma obra que inspira peso. “A minha obra é grande, a dele é fina” explica Rui Chafes, mas repare que não há spots, as obras não são postas em destaque pela luz, pelo contrário, utilizamos luz nos muros e não nas obras” mostra o artista.

Rui Chafes nasceu em Lisboa em 1966, onde vive e trabalha, depois de ter trabalhado dois anos em Dusseldorf. “As suas esculturas, quase sempre em ferro, pintado a negro ou a antracite, procuram o lugar vazio de um não objeto” podemos ler no dossier de imprensa da exposição. É de Rui Chafes a obra de homenagem ao emigrante que está em Champigny, no parque onde em tempos esteve o Bidonville dos Portugueses.

Na sala mais “convencional”, para além de algumas estatuetas e de quatro quadros de Giacometti, estão também duas obras de Rui Chafes. Mas não é uma sala assim tão convencional como parece. Pela primeira vez, Rui Chafes mostra o interior de uma das suas esculturas. Ele que trabalha sempre o aço de forma a escondê-lo, dando-lhe uma forma polida, pintada de preto, confundindo-o por vezes com borracha ou com outra matéria, desta vez deixa ver a forma rugosa do interior de uma das suas obras. “Se reparar bem, as esculturas de Giacometti são obras rugosas, nota-se da soldadura, é composta por uma série de peças que se acumulam na obra, não é fundição, dando-lhe este aspeto que é contrário ao das minhas obras. Desta vez, mostro a minha ‘fraqueza’, deixando o público ver o interior de uma das minhas obras, também com esta rugosidade” diz Rui Chafes.

É preciso chegar à quinta sala, a última da exposição, para descobrir uma obra realizada pelos dois artistas. “Quando estávamos a trabalhar sobre esta exposição, a Fundação Guiacometti enviou-me uma imagem de uma escultura inacabada de Guiacometti e perguntou-me se eu queria dar-lhe uma nova vida. Eu nem queria acreditar, inicialmente pensei tratar-se de uma brincadeira. É uma confiança muito grande” começa por apresentar Rui Chafes.

A obra inacabada de Alberto Giacometti chama-se “Le Nez”, realizada em gesso por volta de 1947. “Para mim, esta obra representa a morte, desta boca sai um grito, é uma obra que Giacometti realizou antes de morrer” diz Rui Chafes, “por isso decidi criar esta obra com esta ponta, onde alguns verão um nariz, mas que, para mim, representa o prolongamento do grito de Giacometti”. Ao lado, ouvem-se passos de quem entra na primeira sala, ruídos de pessoas que circulam pelo túnel metálico, como se se tratassem de sons “do além”!

Curiosamente, a escultura de Alberto Giacometti está suspensa, como costumam estar as obras de Rui Chafes, enquanto a escultura de Rui Chafes está colocada num pedestral, como estão sempre as obras de Giacometti. “Eu tenho efetivamente um problema com a terra, as minhas obras estão sempre suspensas, nunca tocam o solo”. Aqui está a exceção!

Miguel Magalhães, o Diretor da delegação de Paris da Fundação Calouste Gulbenkian anunciou uma “exposição diferente” e tem razão. “Nesta cidade onde há muitas exposições, temos mesmo que mostrar diferença”. E conseguiu.

Também Helena de Freitas, a Comissária da exposição, está de parabéns. Não só pelo título da mostra “Gris, vide, cris” – inspirada num verso de Giacometti, que até custa dizer – mas sobretudo porque conseguiu este “casamento” entre dois artistas de épocas diferentes, que aparentemente tudo podia opor. No início, Rui Chafes leva-nos pela mão à descoberta de Giacometti, para acabar numa obra conjunta, que parece ter sido concebida pelos dois artistas, ao mesmo tempo.

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Até 16 de dezembro

Fundação Calouste Gulbenkian

39 boulevard de la Tour Maubourg

75007 Paris

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Durante da semana, das 9h00 às 18h00

Aos sábados e domingos, das 11h00 às 18h00

Encerra às terças-feiras.

 

 

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