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Cultura

 

Um dos grandes especialistas franceses da História de Portugal, Yves Léonard volta a mergulhar no poço profundo que é a construção histórica da faixa ocidental da península ibérica, cujas vicissitudes e circunstâncias ao longo dos séculos criaram uma “nação” que, à partida, nada previa que se diferenciasse de modo tão radical das outras “nações” ibéricas.

E é sobre esse termo tão complexo – “nação” – capaz de despertar paixões e ódios ou de desencadear guerras e paixões, não fosse ele a raiz de um subproduto tão pestilento como “nacionalismo”, que Yves Léonard foca a sua atenção neste “Histoire de la nation portugaise”, publicado este verão pela Tallandier, que tem aqui mais um volume dedicado à sua coleção “Histoire d’une nation”.

Autor de “Salazarisme et fascisme” ou “Histoire du Portugal Contemporain”, ambas as obras publicadas pela Editora Chandeigne – a editora que mais promove a cultura e a história portuguesas em França -, Yves Léonard abre este livro com uma citação de Fernando Pessoa – “As nações são todas mistérios. Cada uma é todo o mundo a sós” – que nos atira imediatamente para as milenares complexidades geopolíticas que inserem este termo, não poucas vezes, ontem como hoje, instrumentalizado para levar a cabo as piores das chacinas.

Logo à partida, o historiador francês salienta a precocidade da “nação” portuguesa, “considerada uma das mais antigas da Europa”. Uma precocidade tanto na construção de um território praticamente imutável desde o século XIII (Tratado de Alcanizes, 1297) – que cedo se identificou com uma língua que garantiu a coesão do povo que o habitava (a questão da língua galega como origem da língua portuguesa merece cada vez mais um debate sério), como na criação de um Estado forte e centralizado que permitiu aos portugueses serem pioneiros na expansão geográfica para fora da Europa, iniciando o período comummente denominado “Descobrimentos”.

Uma “nação” aparentemente estável, quando comparada com as constantes transformações bélicas que abalaram o centro e leste do continente, mas que foi construída pela violência: a longa cruzada a que os portugueses chamam “Reconquista”, as guerras, nem sempre defensivas, contra o grande vizinho castelhano, os pogroms e a expulsão dos judeus e, por fim, o peso do imperialismo e da evangelização forçada, sem esquecer a escravatura, que os portugueses impuseram sobre os vários povos africanos, asiáticos e ameríndios até ao fim do decadente império em 1974. Uma violência que não bate certo com o principal estereótipo atribuído aos portugueses, aquele que salienta “os brandos costumes”.

E Yves Léonard salienta também essa imagem que os portugueses têm da sua nação – nómada, universalista, valente, mas mansa – que, após um império pluricontinental de quase 600 anos, que nasceu da guerra, viveu da opressão e morreu na guerra, sente ainda dificuldades em integrar-se como nação meramente europeia e sedentária (as dezenas de milhares de portugueses que saem todos os anos de Portugal são a evidência dessas dificuldades).

Uma pequena nação periférica que os imponderáveis da História tornaram em potência global e que se encontra novamente diminuída a uma pequenez difícil de aceitar.

Um livro que é uma longa viagem e que permitirá a um leitor português, graças ao talento e conhecimento de um grande historiador, desenvolver uma das suas atividades preferidas: compreender como Portugal, neste caso a sua História, é visto por um autor estrangeiro. Já para um leitor francês, esta obra é um excelente modo de o apresentar à História de Portugal.

 

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