Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

Hugo Costa: estilista português na Paris Fashion Week Menswear

Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera Ugo Camera

Hugo Costa participou pela sexta vez consecutiva na Paris Fashion Week Menswear, na capital francesa, que se terminou no domingo 20 de janeiro. É o primeiro designer português a integrar um calendário oficial da semana masculina de Paris.

Num registo criativo que junta a inspiração concetual do criador a uma instalação artística e potencia o contato direto com a coleção, Hugo Costa reflete sobre a “dificuldade de aceitarmos as diferenças e as barreiras que se criam para dividir as pessoas”.

A coleção “Maybe we’ll be together again”, uma frase escrita no Muro de Berlim, é o nome da coleção que questiona a falta de liberdade, as divisões, as barreiras impostas, os reencontros e as ligações emocionais.

Em conversa com o LusoJornal, Hugo Costa explicou o que representa estar presente pela sexta vez em Paris, falou do lado mais ativista da sua coleção, e abordou as características desta coleção outono/inverno 2019/2020.

 

É já a sexta presença em Paris?

Acho que a continuidade é o maior reconhecimento que nós podemos ter do nosso trabalho. O facto de nós continuarmos no calendário oficial é o reconhecimento também do empenho e da qualidade do trabalho que temos feito até agora. Para nós acaba por ser mais um degrau a subir. Tudo tem uma ordem e tem que ser feito com calma, mas estar presente pela sexta vez, seis semanas da moda, só me pode deixar satisfeito pelo trabalho que fomos fazendo até aqui.

 

Há mais pressão hoje?

A pressão existe sempre. Eu tenho um pressuposto de vida que é ‘todos os dias tentar acrescentar alguma coisa melhor’. Ano após ano as coisas têm que evoluir. Se não for para melhorar, se não for para ficar melhor, mais vale não fazer e ficar quietinho, ficando na nossa terrinha. Não há mais pressão, existe a pressão de sempre de fazer melhor todos os dias e de melhorar o que estamos a fazer.

 

Qual foi a inspiração desta coleção?

O ponto de partida foi o muro de Berlim, a queda do muro, e o que significou para as pessoas que viveram esse momento na Europa e além fronteiras europeias. O muro caiu em 1989 e eu acho que o mundo esqueceu que o muro caiu, e já se fala em construir outro. Há aqui um caráter de ativista, de uma certa forma, um alerta para que as pessoas se lembrem do que perderam, do que a humanidade perdeu durante esse período, e que não constroem muros, que não criem distâncias entre as pessoas, não só físicas, porque todos os comportamentos radicais levam ao isolamento. Tem a ver com isso, seja da direita, seja da esquerda, não é solução. Quisemos passar isto com esta coleção, que bebe influência da época, que tem um ambiente romântico-depressivo daquela época, a dualidade entre Ocidente e Leste. Acho que tudo funciona muito bem. Depois, as paredes onde se realizou o desfile têm mensagens que foram ou são inspiradas pelo muro. Todas têm o mesmo sentimento de libertação, de igualdade, da liberdade, e isso é fundamental para as pessoas aceitarem-nas. Queremos acrescentar alguma coisa às pessoas, não só acrescentar algo pelo vestuário.

 

A moda tem que transmitir uma mensagem, uma ideia política?

Eu diria uma ideia de igualdade. A moda tem essa capacidade, tem essa função e isso é fundamental. Tudo o que é expressão plástica, e podemos ver a minha apresentação como expressão plástica, tem essa função e fala por si. Tem essa obrigação, de passar uma mensagem, de acrescentar algo mais ao mundo, algo mais positivo. Tem uma obrigação de alertar o mundo. E neste caso é para a igualdade e para não se criar distâncias entre as pessoas com ideologias, por estupidez, por extremismo, ou por medo. Medo pode construir muros, medo pode destruir a humanidade.

 

Como foi realizada esta coleção?

A parte estética é fundamental, mas também temos de nos aproximar de elementos específicos. Há a presença do vestuário clássico, do jeanswear, mas há uma preocupação de trabalhar a matéria prima mais tradicional, que também caracteriza a época. O tema fez-nos utilizar o nosso imaginário, com influências dos anos 70-80 e as matérias foram ligadas diretamente a isso. Por exemplo flanelas com lã, sarjas pesadas com algodão e há pouca presença de matérias tecnológicas. Há muitas fibras naturais, texturas naturais. Foi uma necessidade do tema, um aproximar à época.

 

O que podemos dizer da apresentação estática?

O formato de apresentação é mais estático. Faz com que as pessoas se aproximem mais da marca, criando conteúdos próximos da marca, podendo interagir com a marca e propagando mais a imagem da marca. O tema foi discutido e chegamos a esta apresentação.

 

Tem a noção do que representa a sua marca em termos financeiros?

Temos um showroom em Paris que trabalha com o mercado global e não apenas com o francês. No final da apresentação, a coleção foi para o showroom e com isto entregamos conteúdos aos ‘buyers’, para convencer os compradores. Isto ajuda muito para os resultados financeiros, mas isso é entregue à equipa de vendas.

 

O que podemos dizer de uma forma geral do futuro da moda?

Eu não sei, não me oriento por tendências. Estamos todos inseridos num ambiente cultural, social que nos influencia, mas eu evito ao máximo seguir tendências. Vejo coleções depois do meu desfile, mas não me preocupo em analisar tendências de marcas, tendências do mercado. Eu desenvolvo coleções de forma muito específica para clientes muitos específicos. Não sei dizer qual é a tendência maior, mas claro que se nota com os desfiles, uma consciência do passado, ou ainda o streetwear. mas não me quero meter por esse caminho. Eu até vou ver outros desfiles porque sou formador e faz parte do meu trabalho, se não, não ia ver.

 

Tem também um papel de formador?

Dou formação de design-moda em Portugal. Acho que temos boas escolas, acho que temos boas condições, e a partir daí, só a qualidade do ensino é que pode melhorar. Temos boas instituições com boas condições, que estão a querer fazer coisas boas. O facto de haver uma cena de moda a emergir em Portugal – ainda há pouco tempo o ‘Le Monde’ escreveu sobre isso – é sinónimo que a formação em Portugal de designers de moda está a melhorar.

 

Gostou deste artigo? Vote, participe!
Votação do Leitor 2 Votos
9.0
X