Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

Isabelle Simões Marques é professora na Universidade Aberta, mas é também investigadora e tem estudado o discurso dos lusodescendentes nas redes sociais. Começou por estudar o discurso da dupla de humoristas Ro & Cut e do seu impacto nas redes sociais, depois estudou as reações, em França e em Portugal, ao filme “A Gaiola Dourada” de Ruben Alves, e agora continua a analizar outros humoristas de origem portuguesa por esse mundo fora.

Nasceu em Paris, filha de emigrantes portugueses e foi em Paris que estudou até obter um doutoramento em estudos portugueses na Universidade de Paris 8. Entretanto mora em Portugal desde 2004 e dá aulas na Universidade Aberta.

“A Universidade Aberta é a única universidade pública em Portugal que dá aulas essencialmente e exclusivamente online. Temos licenciaturas, mestrados e é ótimo para quem trabalha e vive no estrangeiro” explicou numa entrevista “live” ao LusoJornal.

Há 10 anos que Isabelle Simões Marques trabalha sobre o humor nas redes sociais. “Naquela altura o humor feito pelos lusodescendentes era uma novidade, porque até ali, o humor feito em França sobre a Comunidade portuguesa, era feito por Franceses, por exemplo pelo Michel Leeb” diz ao LusoJornal.

O vídeo sobre a marca de reparação de parabrisas Carglouss” foi o primeiro que Isabelle Simões Marques começou a analisar. Interessou-se sobretudo à interação com os internautas.

 

Ro & Cut foram percursores

Trata-se da própria Comunidade a brincar com ela própria, e mais do que isso, era brincar com a primeira geração, o que por vezes podia criar “desentendimentos” e “confusões verbais”. Para a investigadora, havia “confrontos”, tal como aconteceu depois com o filme “A Gaiola Dourada”. “Uns falavam de clichés e outros falavam de realidade” explica.

Não se comenta da mesma forma em Portugal e em França. Por exemplo, no duo Ro & Cut, o personagem António é uma caricatura de um português da primeira geração, “um bocadinho grosseira, porca na linguagem, porca na roupa, mas é isso que faz a graça do personagem, é isso que atrai também os jovens” diz Isabelle Simões Marques. “Quem mora em França percebe os jogos de humor, a linguagem, esse brincar com as palavras em português e em francês, a mistura de linguagem, coisas que em Portugal são muito mal vistas, ainda hoje”.

“Hoje, em Portugal, ainda se continua a chamar os Portugueses residentes no estrangeiro de Avecs… é uma palavra velha, com mais de 50 anos, no entanto continua ainda hoje, em 2020, a ser utilizada. Encontramos isso na internet, nas discussões entre as pessoas”.

A “violência” nas redes sociais não é nada de novo para a investigadora lusodescendente. “É transversal a qualquer sociedade, em qualquer país” diz.

“A violência já existia. As redes sociais só vieram intensificar. Já havia violência no futebol, na rua, quando conduzimos um carro, só que nas redes sociais é mais fácil, qualquer pessoa pode fazer um comentário no YouTube, no Facebook, no Instagram,… é de acesso simples e direto”.

Isabel Simões Marques destaca as fortes relações dos lusodescendentes com Portugal. “Há lusodescendentes que são filhos de emigrantes, que nasceram em França e por isso não são propriamente emigrantes, têm a nacionalidade francesa, mas, nos seus comentários, dizem ‘eu sou português’, ‘Portugal é a minha terra, ‘é o meu país’. Há sempre uma grande identificação com Portugal e com as raízes portuguesas, mesmo se falam pouco português”.

 

“A Gaiola Dourada” vista nos dois países

Isabel Simões Marques estudou com o realizador Ruben Alves, por isso, foi muito naturalmente que se interessou pelo filme “A Gaiola Dourada” e pelos comentários que foram escritos nas páginas oficiais do filme, em França ou em Portugal. “A minha mãe também era porteira e eu vivia em Paris 8, convivia com a classe burguesa francesa, por isso identifiquei-me completamente com a história do filme” confessou.

Os comentários da página oficial do filme em França foram feitos, essencialmente, por Portugueses. “80% dos espetadores em França deviam ser portugueses. Todos diziam ‘obrigado Ruben, obrigado por falar de nós, por retratar a nossa história, faz-nos bem sermos reconhecidos’. Eram comentários muito positivos”.

Mas em Portugal era diferente. “Em Portugal havia muito mais comentários negativos, porque não foram só emigrantes que foram ver o filme, foram também os Portugueses que nunca emigraram, que não percebem, que não conhecem a realidade migratória em França, em Paris, e daí já não gostaram tanto, diziam que o filme retrata a emigração dos anos 60 e 70, diziam que a emigração de hoje, em França, não é bem assim, que as pessoas já não são porteiras” conta Isabelle Simões Marques ao LusoJornal.

A investigadora considera que em Portugal há a ideia, nomeadamente na comunicação social, “que a nova emigração é uma emigração de licenciados, que a nova vaga de emigrantes tem qualificações, mas a verdade é que a grande vaga da emigração para França são pessoas ainda com pouca qualificação, não são médicos, nem enfermeiros, continua a haver pedreiros, porteiros, isso continua”.

Os humoristas que Isabelle Simões Marques tem acompanhado agora estão noutros países, noutras latitudes e por isso o campo da investigadora também aumentou. Na prática, interessa saber se há diferenças de fazer humor em função do país e como se comentam, nas redes sociais, estes mesmos humoristas.

 

 

Comunidade
X