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Christian Gernigon, escritor, Grand Prix de la Littérature Policière com o seu romance intitulado «La queue du scorpion», testemunhou, numa entrevista ao LusoJornal, sobre o seu sogro, Jean Nunes, mineiro, Resistente, deportado na Alemanha durante a II Guerra mundial.

João Nunes era filho de António Nunes e Maria Rodrigues. António Nunes nasceu em Águas Belas (Sabugal) aldeia cujo auge populacional teve lugar em 1950 com 1.044 habitantes, no último recenseamento foram contados unicamente… 175 pessoas.

António Nunes nasceu em 1893. Das pesquisas efetuadas, encontramos um António Nunes nascido em Águas Belas, que participou na I Guerra mundial, contudo a certeza de ser o pai de João não está confirmada.

António Nunes e Maria Rodrigues tiveram 5 filhos: António, João, José, Abel e Carmelinda.

Toda a família emigrou para França, desconhecendo-se a data exata, foi contudo depois de 1925, dado que Carmelinda foi a última a nascer na família, nascimento que teve lugar em Águas Belas.

Perto de Águas Belas existiam minas de volfrâmio. Será este fato que terá contribuído para que toda a família tivesse emigrado para Divion, região de minas no Pas de Calais? Uma coisa é certa, António e a família terão vindo para França na sequência da necessidade de mão de obra para a reconstrução da França no seguimento da I Guerra Mundial.

João Nunes terá sido o último dos filhos a vir juntar-se à família em França. Numa primeira fase terá ficado em Águas Belas até à idade de 14 anos com a missão de se ocupar de um dos avôs, cego.

Toda a família adquiriu a nacionalidade francesa por Decreto de 13 de dezembro de 1936. O nome de João foi afrancesado para Jean. Como o pai, e talvez outros irmãos, foi trabalhar como mineiro nas minas de Clarence.

Em 1939, Jean Nunes foi mobilizado na 55ª companhia Chasseurs Africana.

Desmobilizado, regressa ao Pas de Calais, contudo em maio de 1942 entra em Residência no grupo FTPF (1) de Divion, cuja sede estava situada no café de Ludovik Arsène. Jean Nunes participou da distribuição de panfletos e jornais contra o ocupante alemão, também participou na sabotagem das linhas telefónicas na região de Tincques.

Em 1943 é-lhe exigido que entre nos STO (2), mas Jean Nunes vai-se subtrair a este serviço. No início de maio de 1943, deixa a aldeia de Divion acompanhado por Marcel Sevin (30.454) e Robert Thirionet (20.496). O objetivo destes três companheiros era atravessarem a fronteira espanhola para ingressarem na FFL no Norte da África.

Mas a 5 de maio, os três homens são presos pela Feldgendarmerie em Oloron Sainte Marie, nos Baixos-Pirinéus. Num primeiro tempo os três camaradas vão ser encarcerados no Fort du Hâ, em Bordeaux. Depois, foram enviados a 20 de junho de 1943 para o Campo de agrupamento de Compiègne, departamento do Oise. Em Compiègne, Jean Nunes foi registado com o número 15.923. Aqui foi separado dos dois camaradas, que mais tarde voltaria a encontrar em Dora.

Jean Nunes foi deportado a 25 de junho de 1943, no primeiro comboio que partiu de França com destino ao Campo de Buchenwald. A lista de partida original confirma o motivo de sua prisão: Grenzübertritt (3). O comboio transportou cerca de 1.000 prisioneiros, que chegaram a 27 de junho à estação de Weimar. Jean Nunes passa aqui a ter o número 14.093.

O prisioneiro franco-português vai ser um dos primeiros franceses a entrar nos túneis de Dora. A 2 de setembro de 1943, juntamente com 1.222 outros prisioneiros foi selecionado para trabalhar em Buchenwald. Apesar das condições desumanas infligidas aos detidos durante o período do “Inferno de Dora”, Jean Nunes sobreviveu até ao início da produção de foguetes e até os detidos serem retirados dos túneis.

Jean Nunes permaneceu em Dora até a evacuação do campo.

Pelo campo de concentração de Dora terão passado 60 mil prisioneiros, metade dos quais (29.350) teriam ali falecido (4).

A vida nos Campos de concentração, por vezes, estava presa por um fio. Christian Gernigon, fez referência durante a entrevista ao LusoJornal a alguns casos que Jean Nunes lhe tinha contado: os prisioneiros de Dora, mesmo no cativeiro, continuavam a sabotar, nomeadamente as peças que fabricavam para os V1 e V2. Os alemães quando se apercebiam – ou mesmo sem se aperceberem – matavam prisioneiros por enforcamento. Os corpos ficavam expostos durante 24 horas. Os guardas obrigavam os prisioneiros a desfilarem na frente dos corpos. Jean, ao passar em frente de um dos corpos, tirou o seu boné, imediatamente recebeu uma coronhada na face.

Um dos exercícios que os alemães faziam aos prisioneiros para os selecionarem para certos trabalhos de “especialistas” era o de os colocarem em frente de uma máquina afiadora. O exercício consistia em afiar uma lâmina. Os camaradas que passaram à sua frente foram todos recusados, Jean, ao começar a afiar a lâmina apercebeu-se que havia uma peça mal fixada, desaparafusou a peça, aparafusou-a corretamente e conseguiu afiar a lâmina… a vida e a morte dependia de bem pouco!

Jean Nunes contou a Christian Gernigon que uma das outras razões de ter conseguido resistir no Campo de concentração deve-se também ao facto da sua experiência de infância, habituado que foi em Águas Belas, à pobreza e às privações alimentares.

A 5 de abril de 1945, Jean Nunes embarcou num comboio no qual estavam reunidos os “especialistas” da fábrica de Mittelwerk. Após nove dias de deambulação e de uma “marcha da morte” de 40 km, Jean Nunes chegou a 14 de abril ao Campo de Ravensbrück, perto de Berlim. Registado na lista de chegada, recebeu um novo número: 14.027. A 26 de abril, retomou a caminhada para uma nova evacuação.

Foi libertado pelos Russos a 2 de maio de 1945 e repatriado para a França no dia 17, tendo sido acolhido num primeiro momento no Centro de acolhimento de Lille (Norte).

Por mais estranho que pareça, Jean Nunes correu o principal risco de morrer aquando da libertação. Liberado pelos Russos, estes teriam lhe dado alimentos ricos para que ganhasse forças. Jean pesava na altura 35 quilos, alimentar-se corretamente provocou-lhe dores horríveis, somente aliviadas pela intervenção de um médico russo.

Em 1945, Jean Nunes retomou o trabalho como mineiro de superfície em Divion. Aí passou a conduzir uma ambulância, a saúde não lhe permitindo descer ao fundo da mina.

A 15 de fevereiro de 1947 casou com Janine Pawlak na Mairie de Houdain (Pas-de-Calais). O casal teve 2 filhos: Nadine, esposa de Christian Gernigon, e Dominque, falecido em 2016.

Jean Nunes morreu em 2003, antes tinha sido condecorado, nos anos 70, com o grau de “Chevalier de la Légion d’Honneur”.

 

Notas:

(1) Francs-Tireurs Partisans Français.

(2) O Service Travail Obligatoire (STO) foi criado durante a ocupação da França pela Alemanha nazista. O STO consistiu na requisição e transferência para a Alemanha de centenas de milhares de trabalhadores franceses contra sua vontade, a fim de participarem do esforço de guerra alemão que os reveses militares obrigavam a crescer sem cessar.

(3) Tentativa de atravessar a fronteira.

(4) Fontes: BULA9 / 5 (listas de Buchenwald); Arquivo Lhermitte (La Coupole); Arquivo DAVCC Caen 21p606095; Mi5; Registro Compiègne; LTDo-Ra14 / 4/45 (Arolsen / AN) e livro «Les 9.000 déportés de France de Mittelbau-Dora (Camp de concentration et d’extermination par le travail)» sous la direction de Laurent Thiéry.

 

Ver a entrevista AQUI.

 

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