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Joana Ferreira tem 26 anos, estuda na Escola Superior de Belas Artes de Bourges (18) e acaba de realizar a curta metragem «O Vestido Amarelo», um filme onde conta a sua própria história e onde presta homenagem aos avós portugueses.

A jovem realizadora chegou a França em 2002, mas trouxe na bagagem uma incrível história de vida. «Em Portugal vivia em condições difíceis. Vivia com os meus avós. A minha mãe abandonou-nos, a mim e aos meus irmãos, o meu pai era desconhecido, então foram os meus avós que nos educaram e a situação estava dificil para eles», explica ao LusoJornal. «Acabamos por vir morar para casa da minha tia e do meu tio, que viviam aqui em França».

«O Vestido Amarelo» é uma homenagem àqueles que «sempre foram os meus heróis», conta.

«Tive a ideia do filme quando o meu avô morreu, em janeiro do ano passado. A minha avó tinha morrido pouco tempo antes, a minha mãe também e não conheço o meu pai, então tentei pegar neste episódio triste e fazer dele uma força para escrever este filme que relata a minha vida e a vida dos meus avós, mas acho que toda a gente pode identificar-se porque toda a gente já perdeu alguém» diz Joana Ferreira ao LusoJornal.

«Em pequena, prometi várias vezes aos meus avós que, se um dia eles morressem, eu ía com eles. Era uma promessa infantil, sim, mas cheia de sinceridade. Uma promessa repetida várias vezes» conta no filme.

Mas o filme também faz referência à história recente de Portugal, durante o Estado Novo. «Porque há um episódio curto na vida dos meus avós que se passa durante o regime de Salazar e aproveitei para fazer esta ponte entre a minha vida e a vida dos meus avós».

Durante o filme, Joana Ferreira conta que «ambos os meus avós eram pessoas muito discretas. Sobretudo a minha avó. Era uma mulher de poucas palavras e muita ação. Era muito raro ter a oportunidade de ouvir histórias do passado, mas era algo que me divertia imenso». Enquanto conta esta história, a realizadora, que também é a atriz do filme, vai cantando a «Grândola, Vila Morena».

«Durante o regime de Salazar, o meu avô e a minha avó viviam em Lisboa, num terreno de barracas, e tinham um vizinho que era membro da Pide, ou era um Bufo, não sei exatamente. Num caso, como no outro, era uma daquelas pessoas que tinham contactos e não hesitavam em denunciar a torto e a direito. O meu avó e ele tiveram uma discussão sobre o tamanho respetivo do terreno que eles possuiam. Não concordaram e o meu avô levou um tiro na perna. A ambulância levou-o» conta Joana Ferreira.

«Quando a minha avó foi à procura dele no hospital referente ao bairro onde eles moravam, disseram-lhe na receção que não tinham nenhuma informação sobre ele e que ele não estava ali. Alguns dias passaram durante os quais a minha avó procurou pelo meu avô em todos os hospitais e sítios que podiam potencialmente o recolher. Em vão. Cansada e certa que ele estava no primeiro hospital que tinha visitado, mas que pelo facto do oponente ser da Pide tinha impedido de ter a certeza, lá voltou. Entrou pelo hospital a dentro percorrendo todos os serviços do hospital, todos os quartos e acabou por encontrá-lo, no serviço de necrologia, à porta da morgue. A perna dele já estava a apodrecer. Estavam à espera que ele morresse. Os primeiros cuidados feitos naquela perna, foram feitos pela minha avó e assim ele sobreviveu».

Esteticamente, Joana Ferreira concebeu uma caixa negra, com uma banheira no centro, e circula em patins a cantar a Grândola. «Fiz o filme na escola porque temos material e temos pessoas que nos ajudam a fazer tecnicamente o filme, mas a ideia, o guião, tudo foi feito por mim, fui eu que realizei e montei» conta ao LusoJornal.

Mas Joana Ferreira já partiu para novos projetos. Está neste momento a terminar um novo filme, chamado «Orange». «É a historia de uma rapariga que se chama Orange, e conta a relação dela com a cama, porque é uma metáfora para falar da depressão que ela tem e que não assume».

Se «O Vestido Amarelo» é um filme em língua portuguesa, «Orange» vai ser em coreano. «Porque tenho uma vontade de não parar numa língua. Falo português, francês e outras línguas e acho que os sentimentos são universais. O que eu vivo aqui em França, uma pessoa que vive nos Estados Unidos, em Marrocos, no Japão, pode identificar-se também. Os sentimentos são universais. Não quero só falar para os Portugueses ou só para os Franceses, e utilizar várias línguas é um modo de falar para várias pessoas» diz ao LusoJornal.

Joana Ferreira gostava de ser realizadora. E por enquanto… começa bem!

 

 

 

 

 

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