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Originário de Cabinda, José Francisco Luemba é doutorado em Ciências da Educação (Nancy 2), além de investigador no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED – Cabinda) e na Universidade 11 de Novembro (Cabinda), tendo lançado há pouco “La Reproduction, l’Histoire Noire d’Afrique” (Edições l’Harmattan), um ensaio que é uma reflexão sobre o impacto psicológico da opressão colonial na mente e nos corpos das pessoas colonizadas e dos seus descendentes.

Autor de outros dois livros de reflexão – “A África é a profecia auto-realizável – a dimensão psicológica da crise do homem negro-africano” (2017) e “L’Afrique face à elle-même – le courage de la vérité” (2010), ambos igualmente publicados pela L’Harmattan – é, todavia, neste último, saído na rentrée, que o pensamento de Luemba não deixa margem para dúvidas.

Esta “História Negra de África” incide sobre a parte subsariana do continente composto de populações, como escreve Luemba, “cuja História é homogénea nomeadamente no que diz respeito à escravatura e à colonização” e pretende encontrar as razões que explicam “os comportamentos irresponsáveis dos dirigentes africanos” não só dos governantes que tomaram o poder após a libertação do jugo colonial europeu mas também das novas gerações e à sua “similar gestão caótica” do poder.

Ora, segundo o autor, este problema não tem que ver com uma incapacidade intrínseca dos dirigentes africanos. A explicação está relacionada com o “ser interior” de todos os negros africanos, uma psicologia forjada por séculos e séculos de colonialismo, escravatura, apartheid e racismo biológico e cultural. “A incapacidade global de África se tomar em mãos e de desenhar para as suas populações outro futuro que não um de pobreza crónica”, escreve Luemba, “é o justo reflexo do discurso do colonizador”. Daí o título desta obra – “Reproduction” -, pois “África reproduz aquilo que lhe disseram ao longo de séculos”.

Temos então perante nós uma análise psicológica dos efeitos devastadores que o discurso colonial europeu teve sobre os povos africanos, atacando-os “na sua dignidade, na sua honra, na sua identidade”. Os problemas que afetam hoje África serão, segundo a tese do autor, “uma invenção do Ocidente”. Esta tese distingue-se de outras – como aquelas que supõe ora uma “recusa do desenvolvimento”, ora uma “ausência de vontade política” ou uma “falha ontológica” do africano – porque aborda os efeitos que as centenárias teorias racistas europeias e os séculos de segregação, tortura, escravatura e violação tiveram e têm na psique coletiva dos negros africanos (ou de origem africana) dos nossos dias. Vítimas de um longo trauma coletivo, os povos africanos, como todos aqueles vitimados por violências contínuas, sofrem ainda as suas consequências e permanecerão ainda longos anos no divã.

 

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