“Le Premier Empire au Portugal (1807-1811). Honneur et déclin” – A História de um triplo fracasso

Se é verdade que, em França, o mundo editorial aproveita, através de incontáveis publicações, a insaciável sede do público francês pelo período napoleónico (época em que a França imperial construía e desfazia reinos a seu bel-prazer um pouco por toda a Europa e a projeção da cultura e da língua francesas tinha um alcance global) é igualmente verdade que as Invasões francesas de Portugal passam para segundo plano, dando os historiadores franceses primazia às grandes movimentações que abalaram a Europa Central e de Leste, nomeadamente a desastrosa invasão das imensidões russas.

Ora é esse vazio que Fred Curtaz – que passou três décadas no exército e estudou na École Spéciale Militaire de Saint-Cyr, na École de Guerre de Paris e na Nato Defence College em Roma – preenche com “Le Premier Empire au Portugal (1807-1811). Honneur et déclin”, publicado há pouco pela l’Harmattan.

Radicado em Portugal há vários anos, Fred Curtaz percorreu toda a extensão da área operacional napoleónica em Portugal e oferece ao leitor o benefício da sua experiência como soldado, oficial e antigo professor de ensino superior militar.

Este livro revisita portanto os campos de batalha e as campanhas pouco conhecidas conduzidas pelos exércitos do Primeiro Império em Portugal, seguindo as perceções e os relatos de testemunhas francesas contemporâneas, tendo Fred Curtaz verificado no terreno a validade de certos relatos. O resultado é este ensaio histórico recentrado na perspetiva francesa e cobrindo pela primeira vez numa única obra as três expedições militares a Portugal.

Três vezes o Império se propôs conquistar Portugal e três vezes falhou. Portugal foi ocupado, mas a independência do Império português foi preservado com a partida da corte para o Brasil, caso único na História global esta transferência de poder da metrópole para uma colónia e embrião da independência brasileira quinze anos depois.

O autor salienta que, na verdade, estas três invasões foram precedidas por uma outra, uma espécie de “invasão zero”, que ficou conhecida como Guerra das Laranjas.

Em 1801, Portugal continuava a recusar o bloqueio que Napoleão tentou impor aos britânicos. Procurando romper a aliança comercial que ligava Portugal – oficialmente neutro – à Coroa inglesa, o primeiro Cônsul pressionou a Espanha a invadir Portugal. A Espanha renovou a sua aliança com a França ao assinar o Tratado de San Ildefonso em 1800. As frotas militares foram agrupadas.

Em janeiro de 1801, foi enviado um ultimato a Portugal, exigindo, entre outras coisas, o abandono da antiga aliança com a Inglaterra, a cessão de certos territórios portugueses e o pagamento de reparações para compensar as despesas da guerra contra os ingleses.

O ultimato foi rejeitado pelos portugueses em 20 de maio de 1801 e Godoy, o Primeiro-Ministro espanhol, marchou sobre Portugal com um corpo militar de quinze mil homens. A França enviou o corpo do exército do General Leclerc para ajudar os espanhóis. Portugal, abandonado pelo seu aliado inglês, assinou a paz e cedeu a Espanha vários territórios localizados a leste do Guadiana, incluindo Olivença… até hoje.

A história seguiu o seu curso e, apesar dos esforços extraordinários dos soldados napoleónicos para contrariar o seu fatal destino português, as forças francesas demonstraram em Portugal todas as fraquezas que acabariam por condenar a Grande Armée.

LusoJornal