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Sérgio Gave Fraga é o candidato do “Nós, Cidadãos” às eleições legislativas de 6 de outubro deste ano, pelo círculo eleitoral da Europa.

É advogado, vive e trabalha entre Braga e Paris. Defende o voto eletrónico, a criação de uma rede de Balcões do Cidadão nas principais cidades onde residam emigrantes, com apoio social e jurídico aos Portugueses mais carenciados.

Faz uma campanha baseada essencialmente nas redes sociais e diz que se for eleito, vai continuar a exercer a advocacia porque não quer ser “profissional da política”.

Para começar, impõe-se que se apresente o candidato. Qual é o seu percurso de vida?

Sou natural de Arcos de Valdevez, a minha aldeia é Sistelo, uma das 7 Maravilhas de Portugal na categoria de aldeia rural. Pese embora ser natural dali, fui criado em Ponte de Lima derivado a infelicidades de família, porque fui abandonado pela minha mãe e fui criado num orfanato em Ponte de Lima até aos 15 anos. A partir daí quis conhecer a minha família, descobri que a minha mãe estava aqui em França e consegui que ela fosse buscar-me ao orfanato e vim para Paris. Descobri o que é ser emigrante e comecei a trabalhar com 15 anos. Várias peripécias aconteceram na minha vida, as peripécias de quem chega a um país sem conhecer nem a língua nem a cultura, principalmente que, no orfanato, nos anos 70, não tinha qualquer liberdade. Os problemas que eu senti são os mesmos que sentem os jovens que emigram hoje, chegando a um país com uma língua e uma cultura diferente. Com altos e baixos fui-me tornando um homem, trabalhei na restauração durante muitos anos e um dia decidi inverter o destino que me tinha sido traçado e quis ser mais do que aquilo que era. Aos 36 anos decidi recomeçar os estudos e licenciei-me em Direito, com pós-doutoramento em Direito.

Em França ou em Portugal?

Em Portugal. Comecei em França, continuei em Coimbra e depois em Braga. Comecei a perceber a dificuldade que era ser advogado aos quarenta e poucos anos, porque não tinha uma estrutura que me apoiasse para seguir a minha carreira de advogado e foi aí que regressei ao seio da emigração em Paris em 2008. Comecei a reatar relações com emigrantes em França e comecei a criar o meu leque de clientes.

Agora vive e trabalha entre os dois países?

Exatamente. Inscrevi-me na Ordem dos Advogados em Portugal e na Ordem dos Advogados de Paris. Agora tenho um pé em Paris e um pé em Braga, ando cá e lá, também em função das necessidades dos meus clientes.

Como se dá esse passo até ser candidato às eleições Legislativas?

Eu suporto há tantos anos o mal que estão a fazer ao meu país. Tenho visto, durante todos estes anos o que se tem feito ao meu país, que eu amo, e então achei que eu tinha de ter um papel interventivo para inverter este caminho que Portugal tem tido nestas últimas décadas. Evidentemente perguntei-me o que é que eu posso fazer e surgiu-me o convite que muito me honrou do Presidente do movimento “Nós, Cidadãos”, professor Castro Henriques, que me propôs integrar esta lista pelo círculo da Europa. Para mim é um grande motivo de orgulho, sentir que represento, sou o porta voz, das pessoas com quem eu lido já há muitos anos. Eu conheço as suas realidades, as suas necessidades e os seus anseios. Foi então um dever de patriota de socorrer Portugal. Para mim é mesmo isso, socorrer Portugal! Portugal necessita com urgência que lhe demos as mãos e que, todos juntos, devemos contribuir para um Portugal melhor. Todos nós cidadãos devemos contribuir um pouco com a nossa dedicação a Portugal. Portugal merece-nos, Portugal necessita de nós, e foi essencialmente por essa razão que eu decidi arregaçar as mangas e partir para a luta, por Portugal.

Teria sido candidato pelas listas de um outro Partido se o tivessem convidado?

Não. Não há nenhum outro partido pelo qual eu aceitaria. Mesmo se fosse convidado – que não fui – não aceitaria ser candidato de mais nenhum outro qualquer partido. Eu já tenho uma relação com o “Nós, Cidadãos” há alguns anos e já me tinham convidado para integrar a lista do professor Paulo Morais para as eleições Europeias. Não aceitei porque, para ser sincero, para ir à luta, tinha de ser eu o cabeça de lista. Mas aceitei agora este desafio enquanto independente. Revejo-me totalmente nos princípios que defende o “Nós, Cidadãos”. O movimento “Nós, Cidadãos” é por si só um programa político e é isso que me encanta e que me faz mover por este projeto.

Porque diz que é independente?

Primeiro porque não sou afiliado nem ao “Nós, Cidadãos” nem a qualquer outro partido. Sou um português que pensa por si, livre nas suas convicções, nas suas ideias, pese embora me reveja em todos os ideais, em todos eles, do “Nós, Cidadãos”, mas tenho a liberdade, enquanto independente. O “Nós, Cidadãos” dá a liberdade aos seus candidatos de pensarem por si, não estarem presos a princípios que têm décadas, que estão obsoletos, estão caducos e os candidatos têm de sujeitar-se a essas políticas dos Partidos, não é política para o país, é política do partido para o país. Isso não me agrada de todo, por isso sou independente e nunca fiz parte de qualquer força política. Subscrevo na íntegra o programa do “Nós, Cidadãos”, mas tenho o meu programa próprio para este círculo da Europa.

Na sua lista está também a sua filha, Mélanie Fraga. Como constituiu a sua lista?

A minha filha é a primeira suplente. Quis envolvê-la porque entendo que os jovens são o futuro de Portugal. Ela nasceu em França, embora agora resida em Portugal e queria envolvê-la neste projeto embora para ela também lhe diz muito porque toda a família dela está ligada à emigração. O número dois da lista, o Reinaldo Côca é um amigo meu, empresário de sucesso aqui em Paris, foi escolhido por mim. O segundo suplente é um ex-Cônsul honorário de França em Portugal, hoje reformado, Joaquim Policarpo, que reside agora em Nantes. Ele foi-me sugerido pelo partido, aceitei porque é uma pessoa com muita experiência e é uma pessoa que vive precisamente entre Portugal e a França. É pois uma lista com pessoas diferentes, mas todos lutando pelo mesmo objetivo que são os interesses dos Portugueses residentes na Europa.

O Governo alterou recentemente a Lei do recenseamento eleitoral. Antes estavam inscritas apenas as pessoas que se tinham recenseado de livre vontade e agora estão inscritos todos os Portugueses residentes no estrangeiro que têm Cartão do cidadão. Acha que foi uma boa medida?

Esta medida peca por tardia, obviamente. É verdade que votar é um dever, não é uma obrigação, isto é, as pessoas votam se querem. Cabe às pessoas se querem atuar civicamente nas decisões de Portugal. Até agora as pessoas tinham de se inscrever, elas mesmas, nos cadernos eleitorais. Porque não votavam? Não votavam porque estavam completamente desinteressadas dos interesses de Portugal, derivado a tudo o que têm feito estes Governantes sucessivos em Portugal…

Este Governo recenseou-os “à força” – digamos assim -, isso resolve o problema? Os eleitores vão todos votar agora?

Não. Mas facilitou. As pessoas foram recenseadas. Aliás, o recenseamento automático já existia para os Portugueses que residem em Portugal.

Em Portugal o recenseamento é automático e obrigatório, mas para os Portugueses que residem no estrangeiro não é. Por isso, as pessoas podem dizer que não querem estar recenseadas.

Pois é assim, mas não é normal. Um Português residente na Europa tem de ser considerado como um Português como os outros. Porque é que aqui podem optar e em Portugal ficam automaticamente recenseados?

Porque há Portugueses a residir em países, como por exemplo o Brasil, que não aceita a dupla cidadania, e se estiverem recenseados em Portugal perdem direitos no país de residência.

Mas pronto, para mim são uma minoria e são outros interesses… mas o que veio mudar este recenseamento? Não veio mudar nada. As pessoas continuam na mesma a desinteressar-se pelo destino de Portugal. É verdade que agora há este recenseamento automático, mas agora continuamos com o mesmo problema: as pessoas demitiram-se há anos do destino de Portugal.

E a pergunta é: como se muda então esta situação?

É por isso que eu estou aqui. Eu sei que, desde sempre, a percentagem da abstenção nas eleições no círculo eleitoral da Europa tem rondado, ao longo dos anos, os 80%. E eu sei a importância que os governantes têm dado aos emigrantes em geral: nenhuma importância, é um autêntico abandono e desconsideração relativamente aos emigrantes. Eu tenho a consciência disso e eu quero alterar isso. Quero fazer com que os Portugueses, neste caso os emigrantes na Europa, sejam considerados, valorizados e considerados Portugueses como os outros Portugueses.

Muito bem, e como vai conseguir fazer isso?

Sei que é um papel difícil porque não tenho a estrutura de um partido com décadas de anos para chegar ao maior número de potenciais eleitores…

A minha pergunta é: no caso de ser eleito, o que é que vai mudar no seu comportamento que vá levar as pessoas a interessarem-se mais e a serem mais ativas civicamente?

Quero fazer com que as pessoas tenham uma participação ativa e acreditem que esse Deputado vai olhar e defender os seus interesses, unicamente os interesses dos eleitores e não os interesses do partido, nem interesses próprios, nem dos amigos, nem de primos, nem de cunhados,… Dar credibilidade aos políticos e principalmente a um político que não é um político profissional, como é o meu caso. Eu quero mostrar aos eleitores que confiaram em mim, que existem mesmo assim cidadãos que querem o bem comum das pessoas e não o seu próprio bem individual, ou interesses do partido ou de grupos económicos. Os Portugueses devem começar a acreditar nos políticos, que estão descredibilizados a 1000%, ninguém acredita nos políticos, por isso eu levo por tabela porque quando eu digo que sou candidato, as pessoas dizem que é mais um, que quero um tacho, que vou ser como os outros. O que eu quero dizer às pessoas é que não podemos meter todos no mesmo saco. Ainda existem pessoas de bem, que querem o bem comum, em nome de uma comunidade. O primeiro passo é pois as pessoas acreditarem. Eu próprio vou fazer uma declaração de honra aqui mesmo: eu Sérgio Gave Fraga, declaro por minha honra que cumprirei todos os compromissos que irão a sufrágio para que as pessoas votem pela minha lista. Se eu não honrar a minha palavra, os meus compromissos, se alguma vez eu falhar na minha palavra, na minha dedicação, pela qual eu estou a lutar, para defender os interesses dos emigrantes, eu autorizo expressamente os Portugueses que me elegeram a acionar uma ação penal, criminal e civil contra mim. Digo-lhe aqui olhos nos olhos, mas digo-o sobretudo olhos nos olhos aos Portugueses que declaro que honrarei os meus compromissos. Se tivesse aqui uma Bíblia até punha a minha mão em cima da Bíblia. É esta imagem que eu quero transformar da imagem que as pessoas têm dos políticos.

Acha que foi essa a imagem que deram os dois Deputados eleitos até agora por este círculo eleitoral, Carlos Gonçalves e Paulo Pisco?

Eu tenho uma filosofia: eu falo de mim e não falo dos outros. Os eleitores é que vão dizer, nestas eleições, agora que têm uma alternativa, se acham, na sua maioria, que esses dois Deputados cumpriram ou honraram os seus compromissos. Não sou eu que vou dizer se eles cumpriram ou não, são os eleitores. E eu acredito que eles têm uma palavra forte nesta matéria.

Esta é uma questão de ética. Mas na prática, acha que o voto deve continuar a ser por correspondência ou presencial?

Este é o papel que eu vou lutar com unhas e dentes: trazer os Portugueses à atividade cívica e envolvê-los nas decisões para Portugal. Chamar a atenção da importância do voto deles. Quero que eles compreendam que o voto deles é importantíssimo e não podem deixar nas mãos de meia dúzia de eleitores o destino de Portugal. É importante que as pessoas tomem consciência que têm de ter uma participação ativa nas decisões para o futuro de Portugal. Quando compreenderem isso, vêm as dificuldades inerentes às votações. E aí sim, quando convencermos os Portugueses que têm de participar, a partir daí temos de ver como se organizam as eleições para as pessoas poderem votar. O LusoJornal já falou nisso: quando foi possível escolher quem queria votar presencialmente, houve meia dúzia que tomaram essa opção.

E porquê?

Porque as pessoas estão a centenas e centenas de quilómetros e para além de estarem desinteressadas dos destinos de Portugal, não estão dispostos a fazer 300 quilómetros para irem votar.

Em Paris residem muitos Portugueses e está apenas uma pessoa inscrita para votar presencialmente, não é uma questão de quilómetros…

Pois, lá está este desinteresse, porque as pessoas não se revêm nas políticas, nestes políticos e nos Deputados que têm estado à frente dos destinos de Portugal. Isto é o ponto principal que explica porque razão, mesmo em Paris, só um é que decidiu inscrever-se para votar presencialmente. O voto por correspondência tem a vantagem das pessoas receberem o boletim de voto em casa, se alteraram a morada em devido tempo. Recebem o boletim em casa, o envelope já vem pré-pago, basta dobrar o boletim de voto em casa, pôr uma fotocópia do Cartão de Cidadão e levar aos correios. A questão é quantos boletins de voto não vão perder-se em moradas que estão erradas aqui na Europa? Quantos boletins que não vão chegar a tempo? Enfim, também não é a solução. A melhor solução para mim, atualmente, seria a do voto eletrónico, atendendo à segurança que existe já e que já são utilizadas informaticamente, como chaves móveis, como senhas de internet que as pessoas podem usar. Portugal é muito forte em novas tecnologias. Portugal é um dos melhores países na vanguarda das novas tecnologias, já houve uma experiência em Évora e correu bem.

Também já houve uma experiência há 15 anos na Emigração…

Mas a tecnologia evoluiu tanto nestes últimos anos, a nível de segurança eletrónica, com a chave móvel, que é uma segurança 100% garantida, a pessoa, no conforto do seu lar, acede a um portal e vota.

Para si, o voto eletrónico é a solução?

Para mim é a solução atendendo à era digital do século XXI em que vivemos. Nós fazemos transferências de milhões de euros todos os dias, nos quais, para confirmar as nossas identidades temos mecanismos de segurança fortes. Portanto o voto eletrónico é mais seguro do que o voto por correspondência. Isso já iria aumentar muito a participação dos eleitores. A solução é o voto eletrónico, e não sei porque razão Portugal, um país pioneiro nas novas tecnologias, um país fortíssimo, com engenheiros de alta capacidade, com meios comprovados, não tem implementado já o voto eletrónico.

Falamos da rede consular. Os serviços consulares são o prolongamento da administração pública portuguesa junto das Comunidades. Como vê esta rede de serviços consulares?

Tenho muito a dizer sobre isso e tenho ideias concretas. Eu sou conhecedor atendo e direto, até como advogado que sou junto das Comunidades portuguesas, nomeadamente em França e aqui em Paris. Deve calcular as queixas que eu tenho tido nos últimos anos e quantas vezes as pessoas recorrem a mim, já que, como sabe, nós os advogados, podemos exercer em muitos casos o direito notarial. Quantas vezes eu já resolvi situações de emigrantes que precisavam de uma procuração e o Consulado de Paris só lhes marcava para dois ou três meses depois… para fazer uma simples procuração. Fecharam-se muitos Consulados. Claro que sou contra isso. O encerramento obviamente veio piorar a ideia de que a administração deve estar mais próxima dos cidadãos e é isso que eu pretendo. Obviamente que encerrando os Consulados, cortou-se toda essa ligação pouca que os Portugueses emigrantes ainda tinham com a administração portuguesa. A solução é simples: em Portugal temos o Balcão do Cidadão, aqui seria fácil e exequível, ter em todas as localidades onde haja uma forte presença portuguesa – agora é fácil saber quantas pessoas moram em determinada localidade – instalar um Balcão do Cidadão. Não necessitaria de ser um Balcão do Cidadão como os que temos em Lisboa, Porto ou Braga, enormes, podem ser balcões com os serviços mínimos, para fazer face às necessidades dos emigrantes.

Isso já existe: por exemplo em Lille, em Nantes, em Clermont-Ferrand, em Orléans, em Tours, em Ajaccio…

Balcões do Cidadão?

Anexos dos serviços consulares.

Mas privados…

Não, públicos. São anexos dos Consulados, com funcionários dos Consulados. Por exemplo uma funcionária do Consulado Geral de Portugal em Paris está em Lille a fazer Cartões do Cidadão, Passaportes, o que for necessário…

Mas são apenas permanências…

Não. São presenças permanentes, todos os dias com abertura ao público.

Mas aqui na região de Paris, o que temos?

Dependente do Consulado Geral de Portugal em Paris temos anexos consulares em Lille, Nantes, Orléans e Tours. E além disso há as Permanências Consulares, por exemplo em Sens ou em Limoges.

Bom, a minha ideia é precisamente aproximar o poder local dos cidadãos, desenvolver e melhorar. As pessoas poderiam ir a um Balcão do Cidadão – para mim chamar-se-iam assim – para resolver todos os assuntos relacionados com problemas em Portugal: Notário, Cartão do Cidadão, Divórcios, Casamentos,… Quem mora nos arredores de Paris tem de vir a Paris. A minha ideia seria aproveitar a força das associações que estão próximas da população portuguesa – e muitas têm espaços próprios – dando-lhes subvenções e incentivos para poderem disponibilizar duas ou três mesas para que se disponibilizem serviços como por exemplo apoio jurídico. Um Português daqui, que tenha um problema em Portugal, não sabe o que deve fazer.

E tem de ser o Consulado a fazer isso? Não é mais o trabalho de um advogado?

Em Portugal existe o apoio jurídico. É o Estado que fornece esse serviço e nós, os advogados, somos contratados para isso. É um serviço público que deve ser oferecido a todos os cidadãos portugueses, mesmo se residem no estrangeiro. Porque é que em Portugal, todos os Portugueses que verificam certos requisitos de carência económica, podem requerer apoio jurídico, e os Portugueses que residem no estrangeiro e muitos em carência económica extrema, não podem também ir a um Balcão do Cidadão onde haja um funcionário que reúna os documentos necessários para saber se essa pessoa tem direito ao apoio jurídico e depois seja nomeado um advogado. É um dever público estatal.

Essa é uma proposta do “Nós, Cidadãos”?

É uma proposta sim. Que esses Balcões do Cidadão sejam alargados, mais próximos dos cidadãos, em todas as cidades onde haja um x número de Portugueses registados, com um funcionário que vai receber as pessoas que necessitam de um jurista para os aconselhar, para os que necessitam, que têm carência económica. Deve haver também uma assistente social que vai filtrar aqueles casos e são muitos, dos Portugueses que vivem na miséria e não se conseguem safar no estrangeiro. E com base nessa filtragem, fazendo um dossier desses casos, encaminhar essa pessoa para ajudas que venham de Portugal para que a pessoa possa recomeçar na vida.

Porque têm de ter ajuda de Portugal quando a França tem dispositivos de ajuda a pessoas carenciadas?

Se você ester em França há apenas um ano e estiver em extrema dificuldade – e eu conheço casos pessoalmente – as pessoas têm de estar aqui x tempo, ter residência aqui, acho que de dois anos, ter descontado, para eventualmente poderem ter apoios franceses.

Só uma percentagem mínima de Portugueses é que chegou aqui há menos de um ano…

Desengane-se. Há muitos novos emigrantes. Eu conheço, por conhecimento pessoal. Há muitos Portugueses que continuam a chegar e não é com este programa Regressar que os Portugueses vão regressar. Há muitos Portugueses que nos últimos dois anos, que vieram em busca de uma nova vida e não conseguiram vingar, por vários motivos. Muitos deles têm medo, vergonha de regressar ao seu país, e então vivem na miséria. E não têm apoio aqui francês porque não preenchem os requisitos. Eu sei disso.

O Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas disse na semana passada que o Governo multiplicou por três o subsídio à Santa Casa da Misericórdia de Paris, que é uma instituição da sociedade civil, como sabe, que ajuda os mais carenciados. Considera então que o Governo fez bem?

Toda a ação que seja para ajudar quem precisa, é sempre uma boa ação. Mas eu considero que é insuficiente. É pouco. Nunca é tarde para ir ao socorro dos cidadãos que mais necessitam, mas existe em França, no Luxemburgo, noutros países da Europa, pelos estudos que eu fiz, cerca de 30% dos Portugueses a viver no limiar da miséria. Será que a Santa Casa da Misericórdia de Paris -que faz um trabalho meritório – mesmo com a ajuda reforçada do Governo, é suficiente? Eu digo não. Uma das propostas da nossa lista é precisamente combater a pobreza que existe – e muita – na emigração.

A sua proposta é a de criar um agente social nos Consulados. De que outras formas se pode combater essa pobreza de que fala?

Haverá um Assistente social em cada um destes espaços públicos. As pessoas saberão que ali podem obter ajudas. Com que meios? Recuperando as verbas que os banqueiros, os que foram condenados por corrupção, e que o Estado não recuperou. Se o Estado reaver os milhões de euros que foram desviados com base em ações de corrupção ativa ou passiva, se o Estado que tem obrigação de o fazer, recuperar esse dinheiro, já consegue uma verba muito grande para ajudar as pessoas que são honestas, que por uma ou outra razão não conseguem vingar na vida e vêm-se a viver em situações caóticas, ainda por cima num país que nem é o deles e vêm-se abandonados, desprezados pelo seu país e quando ouvem nas notícias que um determinado político, um determinado banqueiro desviou milhões de euros e continua impune a viver à grande e à francesa, enquanto que milhares de Portugueses estão a morrer à fome – digo bem, morrer à fome – há qualquer coisa que não bate certo. O ‘Nós, Cidadãos” é um partido que vai lutar muito contra a corrupção, vamos então conseguir recuperar verbas que enriqueceram muitas pessoas, inclusivamente políticos, em vez de ajudar as pessoas que mais necessitam.

Há dois anos, Portugal mudou o regulamento de apoio às associações portuguesas. Acha que se justifica ainda haver um apoio português às associações portuguesas no estrangeiro?

Eu acho que as associações portuguesas desempenham um papel importante na promoção da cultura portuguesa e fazem falta. Na minha opinião, algumas delas não estão a ter o papel que deveriam ter que seria a divulgação da cultura, da língua e das tradições. Muitas estão mais na divulgação da música popular. Se o objetivo social das associações for social, ajudar os Portugueses que vivem no estrangeiro a quebrar a saudade, a distância que os separa do seu cantinho, sim, devem ser apoiadas.

As associações culturais e desportivas então não devem ser apoiadas?

Sim, claro. Se uma associação cultural tem a função social de promover a cultura portuguesa junto dos Portugueses emigrantes e dos lusodescendentes da segunda ou até terceira geração, obviamente que devem ser ajudadas. As associações desportivas também. Porquê? Porque o desporto é sempre bem-vindo, é saudável, promove a amizade e o convívio. É preferível apoiar estes casos. Os apoios às associações devem ser bem analisados pelo serviço social que estão a prestar. Indiretamente estão a prestar serviço público. Temos de apoiar somente aquelas que estão a apoiar causas nobres, como a cultura, o desporto, a literatura, a língua portuguesa.

Conhece o regulamento de apoio às associações?

Conheço o regulamento, sim.

Outro tema que quero abordar é o do ensino da língua portuguesa. O que tem a dizer sobre isto?

É um dos pilares do nosso programa: a promoção da língua e da cultura portuguesa, junto dos lusodescendentes que tendem a demitir-se de tudo o que é Portugal. É sabido que a maior Comunidade imigrante em França é a portuguesa, no entanto é a que tem menor taxa de ensino da língua portuguesa. Penso que são 50 mil alunos, enquanto que para o castelhano são mais de um milhão, para o italiano são mais de 300 mil alunos. Alguma coisa está mail. Como é que aquela que é a maior Comunidade em França é a que tem menos interesse que se promova a língua portuguesa?

Como alterar esta situação?

Junto da juventude portuguesa, lusodescendente, nomear um embaixador em cada localidade. Terá de haver subsídios para implementar isso. Esses embaixadores vão divulgar junto dos jovens lusodescendentes, a importância da ligação que têm de manter, mesmo não tendo nascido em Portugal, com o seu país de coração.

O que está a dizer-me é que o facto de não haver mais alunos a estudar português em França se deve aos pais que não inscrevem os filhos? Não será porque Portugal não põe cá mais professores?

É tudo isso. Tem de haver mais professores. Há carência de professores e não é por falta de professores, porque estão lá em Portugal no desemprego, sem trabalho. Penso que a língua e a cultura portuguesas merecem que se invista nelas. Não é por nada que é uma das línguas mais faladas no mundo. Temos de continuar a propagar essa riqueza que é a nossa língua. Mais professores, mas principalmente motivar o interesse dos jovens, nomeadamente através dos seus pais, na manutenção da língua portuguesa.

Há muitos pais que inscrevem os filhos e depois não têm cursos de português por falta de professores. Interessa-me saber onde está o problema, em seu entender: no Governo que não põe cá professores ou nos pais que não motivam os filhos?

Diria que é mais no Governo que não investe no ensino do português no estrangeiro. Porque se há um povo que é muito patriota é o português. E basta ver que os lusodescendentes que nem nasceram em Portugal, têm tanto ou mais amor por Portugal do que os jovens que lá nasceram. Tem é que haver incentivos para que eles tenham meios de poder aprender a nossa cultura. O Governo tem de apostar nisso, tem de investir na formação, trazendo mais professores para divulgar a língua e a literatura portuguesa. O maior mal é a carência de professores, pelo menos aqui na Europa.

O Primeiro Ministro agradeceu muito aos emigrantes, esta semana, em Paris, afirmando que os emigrantes ajudaram muito Portugal, contribuindo para as exportações e investindo muito em Portugal. Acha que Portugal faz o necessário para convencer os Portugueses que residem no estrangeiro a investir em Portugal?

O Primeiro Ministro veio agradecer e ficou-se por aqui. Mas não é só este Governo, são todos eles. Nunca valorizaram o impulso que os emigrantes sempre deram. Vir agradecer a Paris não chega. Ele sabe quantos emigrantes por estarem desiludidos com Portugal, com todo o mal que lhes têm feito, o desinteresse e o abandono a que têm estado sujeitos nestas últimas décadas, ele sabe quantos Portugueses venderam os seus bens que tinham em Portugal, desfizeram-se de todos os seus bens, para investir no país que os acolheu e que os valoriza?

Acha então que Portugal poderia ir mais longe. De que forma e com que dispositivos?

Os Portugueses que quisessem manter investimentos ou investir em Portugal, é necessário isentá-los de impostos que ficam caros quando se investe numa casa em Portugal, que é o IMT, o imposto sobre as transações e o IMI. Há Portugueses que tinham muitas casas em Portugal, que foram obrigados a vender porque estavam a pagar fortunas em IMI. Eles tinham rendimentos, claro, mas feitos os cálculos, não valia a pena, por isso preferiram desfazer-se dos bens. Portugal precisa que haja investimento e os Portugueses no estrangeiro têm tido uma força económica, são pessoas trabalhadoras que economizam muito dinheiro e que tiveram uma força económica para investir em Portugal. Podiam investir muito mais se tivessem incentivos. É injusto? Eu acho que não. Então isentam-se outras nacionalidades e os Portugueses, os nossos, que sacrificam uma vida inteira, e ajudaram muito, não devem ser apoiados?

Não teme que haja um sentimento de injustiça para com os Portugueses que residem em Portugal, se houver isenção de impostos para investidores Portugueses do estrangeiro e quem vive lá não tem essas isenções?

Temos de cativar investimento para Portugal. É como os Visa Gold, porque é que eles têm direito e os outros não? Se Portugal necessita de investimento, temos de lhes dar algum benefício. O Português que vive em Portugal não tem meios para investir, portanto temos de cativar quem tenha meios. E quem são os que têm meios? São os estrangeiros e os Portugueses residentes no estrangeiro que lutam arduamente, sacrificam-se toda a vida, então têm de ter um pequeno benefício. Para serem cativados a investir em Portugal têm de ter uma vantagem. Os Portugueses em Portugal não têm meios para investir, nem têm meios para viver, com os salários miseráveis que auferem em Portugal.

Deduzo que considera que o estatuto de Residente Não Habitual é um bom estatuto…

Completamente. E é para manter. Deveria até ser melhorado e divulgado. Como deve calcular, como advogado já fui solicitado por muita gente sobre este estatuto, mas não por Portugueses, só por estrangeiros. Muitos Portugueses emigrantes não sabem que eles podem também, como reformados, beneficiar deste estatuto. Pensam que é só para estrangeiros. Houve aqui várias reportagens na televisão francesa a informar que os reformados franceses podiam beneficiar deste regime interessante e houve muitos Franceses que beneficiaram e eu tenho alguns clientes que beneficiaram. Mas os Portugueses não sabem que também podem beneficiar disso. É um regime muito bom, que deve ser melhorado e divulgado junto da Comunidade portuguesa.

Como vê a mecânica do Governo em relação às Comunidades, através da Secretaria de Estado das Comunidades?

Acho que é um desrespeito pela Comunidade portuguesa no estrangeiro. Era mais correto ter um Ministério das Comunidades, conhecedor da especificidade dos emigrantes para trabalhar em prol dessa comunidade de uma forma justa e conhecedora da realidade efetiva dos emigrantes, o que não acontece com a fórmula atual que temos. Em Portugal temos Ministérios para tudo. É uma demonstração aberrante da desconsideração que têm para com os emigrantes. E a prova é que vêm a Paris dizer obrigado. Não chega. Temos de fazer com que os emigrantes se sintam também eles Portugueses. Hoje já nem nos devem considerar emigrantes. Um Português do Alto Minho que vá morar para Lisboa deve ser a mesma coisa que um Português do mesmo local que venha morar para Paris. Do Porto estou a uma hora de Lisboa e a duas de Paris…

Há Portugueses que moram a mais de 20 horas de avião de Portugal…

Eu estou a falar da Europa que é o círculo eleitoral pelo qual me candidato. Na minha ótica, os Portugueses da Europa não devem ser considerados como emigrantes. Devem ser Portugueses residentes no estrangeiro.

Oficialmente também já não se utiliza a terminologia emigrante e fala-se em Comunidades portuguesas, de forma até a abranger aqueles que sendo portugueses, já nasceram no estrangeiro, e por isso não emigraram…

Claro. Quantos nasceram cá, mas têm a honra de serem portugueses.

Qual é a sua meta em relação a esta eleição? Suponho que é ser eleito…

Se eu dissesse o contrário, não valia a pena estar a lutar. Estou consciente das dificuldades. Consciente que só são eleitos dois Deputados num leque de mais de um milhão de eleitores e consciente também da diferença da máquina partidária dos partidos que estão envolvidos nas eleições. O “Nós, Cidadãos” é um partido recente, embora já tivesse concorrido nas últimas legislativas. Aqui na Europa ficou num honroso terceiro lugar e fora da Europa esteve quase a eleger um Deputado. Eu não quero ficar em quarto lugar, quero ser eleito. Agora eu tenho a plena consciência que tanto o candidato do PSD como o do PS já estão cá há muitos anos. Mas isso não me assusta. O meu papel é trazer uma mensagem de esperança de um Portugal melhor aos Portugueses que residem na Europa. Uma esperança que ainda vamos a tempo, mas temos de agir agora, daí a importância dos Portugueses se unirem e exercerem o seu direito de voto. Apelo os Portugueses para que votem. Podem não votar no “Nós, Cidadãos”, mas votem. Claro que apelo ao voto no “Nós, Cidadãos” porque somos o único partido que advém de um movimento de cidadãos que quer o bem comum de todos os cidadãos. Eu quero transmitir uma mensagem de esperança, de positivismo, de que é possível começarmos a construir um Portugal melhor e que os Portugueses residentes na Europa têm um papel crucial, fundamental, vital, a desempenhar para Portugal. Não é suficiente queixarem-se, lamentarem-se, estar atrás de um computador a dizer que está tudo mal em Portugal, que é sempre a mesma coisa, que não vale a pena votar porque nada muda. É não votando que nada mudará. Eu quero que os Portugueses que moram na Europa tomem consciência do perigo que Portugal está sujeito se não votarem. Não votar, vai permitir que continuamos na mesma. Estas eleições revestem-se de uma importância vital para Portugal, não apenas no que se refere ao círculo da Europa, mas a todos os círculos eleitorais. É importantíssimo que os Portugueses em geral se mobilizem. Os grandes partidos, ditos do arco da governação, ganham porque as pessoas não votam, ganham porque as pessoas demitem-se de participar civicamente nos destinos de Portugal. Se os 60% da abstenção a nível nacional fossem votar, estes dois partidos não ganhariam. O problema é que as pessoas hoje não votando, pensam que estão a resolver o problema.

Como articula a sua campanha? Como vai ao encontro das pessoas.

Cheguei esta semana a Paris, onde vou instalar o meu quartel general e daqui vou desenvolver uma estratégia eleitoral para chegar às pessoas. O partido não tem meios financeiros e eu também não vou investir do meu, porque já invisto muito de mim. Eu gostava de me deslocar a todas as grandes cidades da Europa para estar junto dos Portugueses, mas é impossível. Nós temos de ser modernos e usar os meios que temos e o meu melhor meio são as redes sociais. Sou bastante ativo nas redes sociais e vou usar e abusar dessa ferramenta porque consigo chegar a casa das pessoas que nunca chegaria pessoalmente, presencialmente.

Uma última pergunta muito pessoal: se for eleito, vai deixar de ser advogado?

Não. Porque eu não quero ser um político profissional. Eu não sou, nem serei um político profissional. Ser um político profissional não é defender os interesses das pessoas, mas defender os seus interesses e os interesses do partido pelo qual formos eleitos. Eu nem sei, nem quero saber, nem me interessa quanto ganha um Deputado. Eu tenho de viver da minha profissão, e é com essa que eu tenho de contar. Ser Deputado será uma dedicação ao bem comum dos cidadãos portugueses, nunca com a intenção de enriquecer e de ganhar um salário. Deduzo que um Deputado ganhe mais do que os 600 euros de salário mínimo em Portugal, que a maioria dos Portugueses auferem. Eu vou continuar a ser advogado também porque eu lutei muito para ser advogado, investi muito. Para ser advogado, recomecei a estudar com 36 anos, trabalhava de dia e estudava à noite, abdiquei de muitas horas para estar com a minha família, não é agora por causa deste posto que vou abdicar de uma profissão pela qual eu lutei, investi e sacrifiquei muito. Os Portugueses vão precisar de mim no Parlamento e eu estarei lá, mas os meus clientes também vão necessitar de mim cá, e eu cá estarei para eles.

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