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Ronaldo Wrobel (1968), escritor e advogado carioca, acaba de ver lançado pela Editions Metailié o seu terceiro romance “Les deux vies de Sofia” – publicado no Brasil como “O romance inacabado de Sofia Stern”. A editora francesa já havia publicado, em 2013, “Traduire Hannah”, um romance que, tal como em “Les deux vies de Sofia”, serve igualmente para protestar contra o antissemitismo, uma peste ideológica que, em pleno 2019, vai, a par de outros tipos de racismo e xenofobia, corroendo a nossa sociedade cada vez mais intolerante.

Numa linguagem limpa e aberta, algo cinematográfica e sem os jogos poéticos (para crítico literário ver) que se vão repetindo ad infinitum nos romances que por estes dias se escrevem em português, Ronaldo Wrobel concentra-se na história, no enredo. E que bela história nos conta este livro. Num misto de policial e romance histórico, ela leva-nos aos anos 30 e ao delírio nazi.

Numa atualidade pré-Bolsonoriana (o livro foi publicado no Brasil em 2013), em pleno Rio de Janeiro, um advogado (e narrador que usa o nome do autor) atende um estranho telefonema de Hamburgo, na Alemanha. Ele então recebe uma notícia que o alerta sobre uma caixa de joias desaparecida desde os anos 30 e que pertence, por herança, à sua avó, Sofia Stern, a quem a demência começa a atingir. Uma noite, a velha e inocente avó desaparece de sua casa em Copabana para ser descoberta no bairro boémio a cantar canções americanas dos anos 30. O neto percebe então que a egrégia pacatez da avó se alicerça em segredos que ele tem de desvendar.

Juntamente com essas joias vindas da Alemanha, surge o Diário onde Sofia e a sua melhor amiga, Klara, iam relatando os acontecimentos da sua juventude durante a ascensão nazi.

Sofia, ainda adolescente, torna-se corista de cabaré, participa no tráfico de drogas e envolve-se amorosamente com um opositor ao regime nazi. Já Klara torna-se numa modista bastante requisitada pela elite nazi.

Wrobel, ao intercalar trechos do Diário com a narração da investigação do neto sobre a vida que a avó levava na sua juventude, criou um romance de suspense poderoso e alicerçado, tal como admitiu o autor, numa intensa pesquisa bibliográfica: “a trama foi se definindo durante leituras de obras como “A Chegado do III Reich” do historiador inglês Richard Evans, e de “LTI, a linguagem do III Reich” do professor alemão Victor Klemperer, que enfrentou o nazismo” e “procurei explorar facetas menos óbvias do período pré-guerra na Alemanha nazi”.

À medida que a leitura avança, o leitor vai acumulando perguntas e deixa-se levar pelo autor que, graças às pistas que vai largando, num puzzle perfeito, o conduz ao desfecho final. Um romance complexo na estrutura, mas viciante e muito bem escrito.

A não perder.

 

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