Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.
Donativos LusoJornal

A editora Le Poisson Volant acaba de publicar em França a tradução de um dos grandes clássicos da historiografia brasileira. Quando a historiadora Laura de Mello e Souza publicou, em 1983, “Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII” foi um momento de rutura na narrativa sobre a opulência da capitania portuguesa de Minas Gerais.

É verdade que a febre do ouro setecentista ajudou a construir muitas das grandes fortunas coloniais, financiou projetos de construção faraónicos na metrópole portuguesa e, claro, indiretamente, ironia da História, financiou a revolução industrial inglesa. Se é verdade que, até 1983, a historiografia brasileira havia tratado à saciedade essa abastança mineira da elite colonial, composta de homens brancos europeus ou de origem europeia, é ainda mais verdade que Laura de Mello e Souza veio agitar as águas com este seu ensaio (a tese de mestrado), colocando a ênfase na análise da pobreza e nos tais “desclassificados do ouro”: os escravos, os pobres, os vagabundos, os mendigos…

Laura de Mello e Souza, que sonhou ser médica e é filha de dois grandes intelectuais brasileiros, é uma historiadora que acredita na transdisciplinaridade da História – “adoro antropologia, sobretudo as monografias clássicas, que são narrativas. Gosto muito de história da arte e de literatura”, disse, há uns anos, em entrevista – e que levou para os seus estudos essa abertura a outras disciplinas, rompendo assim com o predomínio da historiografia estrutural tão em voga até aos anos 1990.

Estudante universitária durante a ditadura militar de extrema-direita que esmagava o Brasil, Laura de Mello e Souza, influenciada pelo contexto de resistência, resolveu alavancar este seu trabalho inicial, agora publicado em francês, na História Social, abordando a questão das desigualdades e enquadrando-a naquilo a que ela chama “História Total”, isto é a História do Brasil enquadrada mundialmente, em relação contextual com a História dos outros países.

Dividido em quatro capítulos – “O falso fausto”, “Da utilidade dos vadios”, “Nas redes do Poder” e “Protagonistas da Miséria” – este “Desclassificados do ouro” vai além da tradicional dicotomia colonial portuguesa de “senhores e escravos” e mergulha na diversidade de estratos sociais compostos por homens e mulheres livres mas miseráveis.

Trata-se então de uma obra historiográfica de enorme qualidade, que consegue, graças à sua linguagem e estrutura, ser uma leitura abordável para o grande público. Um livro que responde a várias questões importantes e que analisa problemáticas ainda tão atuais e pertinentes.

Como pode uma tão grande riqueza como aquela que os colonos portugueses arrancaram às terras de Minas Gerais – uma colossal quantidade de ouro e diamantes – ter gerado tanta pobreza, miséria e sofrimento? Como é possível existir tanta pobreza em países tão ricos? Que mecanismos conduzem, dentro do mesmo país, a um tão pornográfico fosso entre super-ricos e super-pobres?

Eis um livro que prova que a História é a mais relevante das disciplinas para a análise da contemporaneidade.

 

Cultura
X