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Joaquim Alberto Lopes Simões nasceu em Riachos, no concelho de Torres Novas, em 1938, e atualmente vive nos arredores de Paris. O presente volume, “Crescem flores onde estiveres”, publicado em 2018 conjuntamente pela Cooperativa O Riachense e pela editora Âmago da Questão, contém, como indicado no subtítulo, o relato da vida de Joaquim Alberto Lopes Simões pelas suas próprias palavras. Organizado e apresentado por Carlos Simões Nuno e Carlos Tomé, o livro tem 9 capítulos que acompanham cronologicamente o itinerário movimentado de Joaquim Alberto e um riquíssimo anexo documental de 40 páginas.

“Nascem flores onde quiseres / Nascem flores na tua mão / Crescem flores onde estiveres / Nascem flores também no chão”: estes são os primeiros versos da canção “Nascem flores”, de Pedro Lobo Antunes, em epígrafe, que servem como um lema às andanças de Joaquim Alberto Lopes Simões, desde os tempos de sua formação no Seminário dos Olivais, a deserção, o exílio em Paris e a luta antifascista com a LUAR e, após o 25 de Abril, as continuadas tentativas de contribuir para uma sociedade mais justa e participada.

“Este livro – afirmam os autores do prefácio – nasce da vontade de agarrar uma memória. A memória dos lugares por onde Joaquim Alberto Lopes Simões andou e das situações que viveu, mas vai muito para lá de uma memória individual, tornando-se memória de muitos. O que aqui está resultou de muitas horas de conversa e de entrevistas. No trabalho de fixação do texto uma das principais preocupações foi manter a oralidade original”.

Como podemos constatar neste trecho em que Joaquim Alberto Simões evoca a sua passagem pela Renault, que era “uma coisa mítica”: “Como eu nessa altura até já era bate-chapas e tudo, fui para a Renault, em Billancourt. Nessa altura trabalhavam aí mais de oito mil pessoas, só aí. Havia muitos Portugueses, claro, de todas as qualidades e feitios, desde aqueles maoístas mais maoístas que podia haver, até… pronto, aquilo tudo. Os gajos vinham logo a correr muito, qual é a tua cor, e tal, e eu eh pá, é a que te der jeito, eu sei muito bem qual é a tua, portanto se tu quiseres que eu minta… ou fico já chateado contigo ou ficas muito contente comigo…”

Apesar de ter vivido situações difíceis, por vezes temerárias, não falta no relato de Joaquim Alberto Lopes Simões uma boa dose de humor, como nesta passagem em que ele evoca o papel dos passadores: “Agora, nos que passavam a fronteira a pé, e eram milhares de pessoas a fazer isso, nessa altura, havia muitos passadores. Nunca houve, se calhar, nenhuma organização tão boa em Portugal como a dos passadores, que nem tinham nada a ver uns com os outros, eram todos independentes…”

Num outro capítulo, o entrevistado explica como começou a adquirir uma consciência política, já em Paris: “Isto foi em 1966, eu fui mandado embora do Seminário em julho de 1966 e em setembro estava nos arredores de Paris a viver em casa de uns padres operários. Havia muitos Portugueses que souberam que estava lá um gajo que tinha ido lá para estudar Sociologia, mas que passava o tempo a ir tratar dos papéis dos Portugueses que não sabiam ler. E com isso tudo, um gajo começa a ver os problemas”.

Entre as inúmeras iniciativas e responsabilidades que assumiu, profundamente ligado ao movimento cooperativo e associativo, tanto em Portugal, como em Moçambique ou em França, Joaquim Alberto Simões foi dirigente da cooperativa agrícola de Árgea (Torres Novas). Assim, ao evocar o insucesso das cooperativas, afirma: “Enquanto durou, a cooperativa fez muito boa coisa, fez sonhar muita gente, despertou muita gente para o trabalho em conjunto, para a vida em comunidade. Agora claro que falhou, porque o 25 de Abril foi vencido pelo 25 de Novembro”.

“Crescem flores onde estiveres” é sem dúvida um documento de grande interesse para a história da resistência à ditadura, a história da emigração portuguesa e da sociedade portuguesa nos anos pós-25 de Abril.

 

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