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Cultura

 

“Júlia Florista” é o primeiro romance publicado pela lusodescendente Alexandra Vieira, editado em língua francesa, em maio de 2021, pelas Editions Plumes de Marmotte.

Resumidamente, o romance conta a história de Christine, uma professora, casada com Gilbert, com desejos de ser mãe, e que acaba por encontrar Ruben, um jovem estudante e assistente no mesmo colégio, mas também guitarrista de fado, que a leva a descobrir o mundo fadista de Paris, e em particular o desaparecido café cultural “Lusofolie’s” criado por João Heitor.

São mundos que Alexandra Vieira conhece bem. Primeiro porque foi ela própria professora de francês no colégio, durante uma dezena de anos, e depois, porque também ela é apaixonada por fado ao ponto de também cantar. O marido toca viola de fado.

“O fado é uma grande história de paixão” conta ao LusoJornal. “Quando era pequenina, o meu pai gostava de ouvir uns fados de Amália Rodrigues, eu também gostava de ouvir, mas não sentia uma emoção muito forte, como se sente quando somos adultos, quando conhecemos as histórias do fado e as histórias que o fado conta. Mais tarde, conheci o meu marido, que é viola de fado, depois comecei a interessar-me pelos poemas e aí é que foi mesmo uma revelação, porque senti que o fado não é só a saudade, a tristeza, o lamento, também é isso, mas não é só isso. O fado trata das emoções e dos sentimentos todos da vida. A partir dali comecei a ouvir mesmo a sério, a ir a concertos, tanto aqui em Paris como em Lisboa – eu ia de propósito a Lisboa para ouvir o Marco Rodrigues, por exemplo”.

Nada melhor do que saber do que se fala para melhor transmitir paixões.

O leitor parisiense, apaixonado por fado, identifica facilmente os lugares e algumas das personagens, sobretudo pela descrição da autora.

Já as histórias de amor, são, segundo a própria Alexandra Vieira, obra da ficção: a rotina no casamento de Christine com Gilbert, o colega Antoine e o D. Juan, Ruben, cujo envolvimento marca o final do livro,… que não pode ser aqui desvendado, claro!

“A ideia nasceu há muitos anos. Eu comecei a pensar nesta história de um amor proibido há muito tempo, só que é um tema muito clássico, tanto no cinema como na literatura, achei que faltava qualquer coisa” explica a autora ao LusoJornal. “Muitos anos depois, pensei: por que não dar a conhecer o fado através desta história? Pelo menos em França, em francês, não conheço nenhuma história que nos mostre o que é o fado e a ligação entre a música e as emoções transmitidas pelo fado”.

A paixão de Alexandra Vieira pelo fado levou-a a frequentar a Academia do Fado de Paris, em Vincennes, e onde o marido também frequentou aulas de viola. Levou-a também a apresentar programas sobre Portugal na rádio Aligre, em Paris, e a apresentar sessões de Fado Vadio, como foi o caso, ainda antes das férias, em Groslay (95).

Mas, mais do que contar uma história e de a situar no meio fadista de Paris e até de Lisboa, Alexandra Vieira também quis fazer descobrir ao leitor, as letras de alguns fados, como “Júlia Florista” de Leonel Vilar, claro, mas também “Loucura” de Fernando Farinha, “Ai se os meus olhos falassem” de Nóbrega e Sousa, “Amor de mel, amor de fel” de Amália Rodrigues, “Corpo interdito” de Fernando Campos de Castro, “Deste-me tudo o que tinhas” de João Monge, “Escrevi teu nome” de Raúl Ferrão, “Caso arrumado” de Manuela de Freitas, “Eu já não sei” de Domingos Gonçalves Costa, “Saudades trago comigo” de António Calem, “Só nós dois” de Joaquim Pimentel e “Valeu a pena” de Mário Moniz Pereira. Cada capítulo do livro podia ser resumido por um destes fados que entram “como uma luva” no enredo do romance.

Esta escolha dos poemas transcritos mostra que Alexandra Vieira – que já nasceu em Paris há 42 anos, filha de pais portugueses – conhece bem o fado e assume, descomplexadamente, a sua dupla pertença cultural.

A família vem de Monção, no Minho, e transmitiu-lhe uma “forte ligação” a Portugal ao ponto de ter ido estudar um ano em Coimbra, no quadro do programa Erasmus. “Claro que a França e Portugal são dois países latinos, com uma cultura semelhante, mas há diferenças e eu senti que a minha cultura era tanto francesa, porque, claro, fui criada cá, como portuguesa, porque os meus pais trataram de nos dar – a mim e à minha irmã – uma ligação à literatura portuguesa e às tradições, tanto populares como académicas” explica a Alexandra Vieira.

Desde pequenina que sonhava editar livros. Quando acabou “Júlia Florista”, começou uma outra aventura: a de encontrar uma editora. Em 2020, a Diretora da “Plumes de Marmotte” contactou-a mostrando disponibilidade para editar a obra.

“A minha língua mais natural é o francês, porque estudei em francês, porque quando era professora ensinava o francês e tenho uma ligação muito forte ao francês, gosto da língua, das suas dificuldades, mas claro que gostava que um dia houvesse uma tradução em português” confessa Alexandra Vieira. Porque se o livro explica aos franceses o que é o fado, “também poderia explicar aos portugueses de Portugal das dificuldades que nós temos aqui no acesso à cultura portuguesa. Não é fácil transmitir esta herança aos nossos filhos. Os meus filhos, por exemplo, nasceram de pais portugueses, mas também franceses, e a nossa língua natural não é o português. O português já é a língua natural da bisavó deles”.

Mas enquanto não surge uma edição em português de “Júlia Florista”, Alexandra Vieira prepara-se para editar um segundo livro, que vai continuar no universo da música, mas será, provavelmente, sobre jazz.

 

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