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Cultura

 

No início deste mês, a Éditions Métailié publicou mais um romance do escritor moçambicano Mia Couto (Beira, 1955). “Le Cartographe des absences” – já nomeado para o Prix André Malraux e o Prix Femina étranger – é a tradução francesa, trabalho apurado da tradutora Elisabeth Monteiro Rodrigues, de o “Mapeador de Ausências”, publicado em Portugal pela Caminho (2020) e no Brasil pela Companhia das Letras (2021).

Biólogo e professor de Ecologia, considerado por muitos um dos grandes escritores africanos da atualidade, Mia Couto, vencedor do Prémio Camões em 2013, apresenta-nos em “Le Cartographe des absences”, recorrendo à prosa poética que o tornou célebre, uma história inspirada no seu pai – Couto é filho de colonos portugueses que foram para a então colónia nos anos 1950 – e no grande ciclone que abalou Moçambique em 2019.

A personagem principal, Diogo, segue os passos de seu pai, Adriano. Nas vésperas do grande ciclone chegar a terra, ele marca presença na Beira para uma celebração universitária. “Seja bem-vindo à sua cidade, poeta Diogo Santiago”, anuncia um grande cartaz. Ele é logo acolhido pela bela Liana Campos, a mestra de cerimónias. Porém, Diogo Santiago não está na Beira apenas para receber homenagens, ele está lá para perseguir o seu passado, o da infância e juventude, a de menino branco usufruindo do colonialismo que oprimia então o povo moçambicano em plena luta pela libertação de um jugo colonial de 500 anos.

É uma viagem à memória que tem do seu pai, jornalista e poeta, da sua mãe, mulher pragmática, e dos amigos que deixou para trás, seja o seu antigo “criado” Benedito (comunista protegido pela família de Diogo), que se tornou, depois, um homem forte da FRELIMO, seja Jerónimo, irmão do anterior, que morreu de um tiro nos braços do seu grande amor, sem esquecer, claro, os opressores, tal como Óscar Campos, o cruel inspetor da PIDE.

Será Liana que colocará Adriano, este duplo de Mia Couto, no encalço do seu passado, entregando-lhe, enquanto o tenta seduzir, documentos que evidenciam o passado do seu pai, homem engajado junto dos comunistas que lutam pela independência e a emancipação de Moçambique. São esses documentos – cartas de delação, dossiês policiais, o diário de seu pai… – que o fazem visitar, ignorando o apocalipse em forma de vento e chuva que se aproxima da província, os locais onde as tropas coloniais, por ordem do regime fascista português, cometeram algumas das maiores atrocidades da guerra.

São duas linhas narrativas – 1973 e 2019 – que se vão enchendo de personagens coloridas, carregadas de dilemas, e que se vão preenchendo uma à outra através de ora episódios trágicos como o suicídio de dois jovens amantes, vítimas do racismo que se metastizava através da sociedade colonial portuguesa, ora passagens carregadas de simbolismo, como o do vaivém da máquina de escrever de Adriano entre o posto da PIDE e a casa da família, símbolo da opressão que o fascismo exercia sobre os intelectuais.

Um romance sobre a tirania colonial que, como toda a grande literatura, nos alerta para os perigos, bem reais nos nossos dias, do racismo e da violência política, venenos aos quais a liberdade dificilmente resiste.

 

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