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Tal como a autora deste romance, Marta gosta de Paris, cidade onde fez estudos de Artes plásticas, gosta de ver obras de arte, sobretudo pinturas nas exposições dos diferentes museus, gosta de perder-se nas ruas do Quartier Latin ou de passear pelas margens do Sena. Marta, agente da Polícia Federal Brasileira (Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente e Patrimônio Histórico) é a protagonista de “Na rota de traficantes de obras de arte” (Editora Penalux, 2019).

A história começa com a chegada da agente brasileira em Paris, antes de seguir para Lyon, sede da Interpol (organização internacional de polícia criminal), onde ela se junta ao comando das operações, com o objetivo de desmantelar uma quadrilha especializada em roubo de obras de arte usando a rota entre Paraguai, Brasil e França, e fazendo passar seus negócios pelo porto de Marseille. Um comércio ilegal que ajuda corruptos e traficantes de drogas a lavarem o dinheiro sujo.

Em capítulos breves e densos, num ritmo acelerado e com economia de palavras de conexão, Mazé Torquato Chotil nos propõe uma viagem palpitante através de um enredo repleto de informações e elementos reais, mesclando jornalismo, turismo cultural e suspense policial.

Logo no início do livro a narradora nos leva para a beira do rio Sena, “onde as péniches estão amarradas, nas imediações da Île Saint-Germain, onde o rio dá uma de suas voltas, entre Paris e as cidades vizinhas de Boulogne-Billancourt e Issy-les-Moulineaux. Ilha próxima de uma outra ilha menor, Île Seguin, que, por muitos anos e até um passado recente, abrigou a indústria de carros Renault”. É aí que os traficantes em questão vão negociar os quadros roubados.

Os capítulos que relatam as investigações policiais alternam com os capítulos mais pessoais. Também como a autora do romance, Marta é originária do Mato Grosso do Sul, estado fronteiriço com o Paraguai e a Bolívia, onde “lidava com quadrilhas de tráfico de drogas, cigarros, remédios, armas e munições, animais, roubo de carros e fraudes contra o fisco”. Em Paris, a agente federal tem saudades de sua terra natal, e se não fosse a distância, ela estaria “cantando com os pássaros, lendo seu poeta favorito, Manoel de Barros, deitada na rede, em baixo da mangueira”.

Entre os comentários da narradora e as ocupações de Marta, o leitor descobre uma série de reflexões e de apreciações que vão desde os pitorescos bairros de Paris ou a culinária francesa até à ecologia (as cidades que sufocam), o urbanismo (a ganância das empresas construtoras) ou à política (ausência do poder público). Voltando ao mundo das artes e ao mercado paralelo, a agente nos informa que as telas de pintores brasileiros começam a ter grande aceitação no mercado exterior, Portinari, Di Cavalcanti ou Lasar Sagall estando entre os mais cotados. Marta descobre que umas 100 galerias de Paris (num total de mais de 1000) tiveram problemas com a justiça. Mazé Torquato Chotil também sublinha a implicação dos angolanos no tráfico de quadros e evoca o escândalo conhecido como “Angolagate”, nos anos 90, a guerra civil, finda em 2002, o crescimento do PIB, as riquezas concentradas, a corrupção…

Entretanto, a equipe de Lyon, sob o comando de Marta, continua a investigação. Um policial infiltrado numa empresa de mudança dá informações sobre o itinerário da mercadoria, desde sua chegada em Marseille até Meudon e a péniche. Os agentes tiram fotos e recolhem elementos para análise de DNA e seguem os transportadores pela autoestrada até Paris. Os traficantes são imobilizados na péniche e interpelados, e as obras seguem para o Office Central des Biens Culturels, antes de serem devolvidas aos seus proprietários.

Mazé Torquato Chotil vive em Paris desde 1985. É jornalista e autora de uma tese de pós-doutorado defendida na École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), intitulada “Trabalhadores exilados: a saga de brasileiros forçados a partir (1964-1985)”, editada igualmente em francês. É também autora de “Ouvrières chez Bidermann: une histoire, des vies” (2010) e “José Ibrahim, o líder da grande greve que afrontou a ditadura” (2018).

Nascida em Glória de Dourados (Mato Grosso do Sul), de pais originários do Ceará que haviam emigrado para o Mato Grosso nos anos 50, Mazé Torquato Chotil efetuou uma formação em Jornalismo e começou a trabalhar na imprensa operária, em Osasco, no arredores de São Paulo. Em Paris, nos primeiros anos, foi correspondente do jornal Folha de São Paulo, completou seus estudos universitários e começou uma família. Também publicou vários livros com caráter autobiográfico e recentemente o esboço biográfico “Maria d’Apparecida – negroluminosa voz”.

 

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