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Sabemos que a realidade toma, muitas vezes, conta da ficção e que a ficção se torna, outras tantas vezes, espelho da realidade. Hoje, vou falar-vos de um filme que tomou conta desta crónica – que é suposto ser uma crónica de factos objetivos, selecionados de modo a ajudar, cada semana, as vossas escolhas culturais. E tomou conta desta crónica porque surgiu em espelho com a história familiar do cronista, como se ele pudesse ter sido o realizador desse filme e a história que nesse filme se conta pudesse ser uma ficção feita em torno da história real da família do cronista e até da sua própria história pessoal.

Mosquito, obra de João Nuno Pinto, fez parte do lote de filmes que reabriu as salas de cinema em França no passado dia 22 e mantém-se ainda em exibição, hoje e amanhã, no Ciné Cité Les Halles e no Gaumont Parnasse.

O cineasta, partilhando com o autor desta crónica o nome próprio, nasceu em Moçambique em 1969, na mesma cidade, uma década depois daquela em que o autor desta crónica nasceu e chegou a Lisboa com cinco anos, a mesma idade com que autor desta crónica também ali chegou.

Até aqui nada de especial, colonos de nome João, nascidos na então Lourenço Marques, chegados a Lisboa com cinco anos de idade, nas circunstâncias excecionais da descolonização ou por razões mais banais como a minha, deve haver dezenas. Mas o filme não fala de João Nuno Pinto e sim de um seu antepassado que, em 1918, foi mobilizado para combater no Norte de Moçambique. Esse antepassado, seu avô, sofreu as consequências da fulgurante ofensiva alemã, vinda do então Tanganica, e, isolado da sua companhia, realizou uma longa e difícil travessia iniciática pelas terras dos Macuas, poderosa tribo local.

É essa viagem que nos é mostrada com abundância de recursos cenográficos, sonoros e visuais.

Talvez ao facto desse seu avô, se ter fixado em Moçambique uma vez acabada a guerra, deva João Nuno Pinto o acaso de lá ter nascido. E é aqui que se reúne de novo o meu passado e destino ao desta história. Foi por o meu tio-avô, Amândio Pinharanda, ter sido mobilizado para Moçambique e lá se ter fixado como funcionário dos Correios após o fim da guerra, que pôde chamar, na década de trinta, para junto de si, alguns dos seus irmãos e irmãs (naquele tempo a colonização não era ainda facilitada e era necessária a “carta de chamada” de um familiar) emigração de que, décadas depois nasci.

E foi o facto de ter, inesperadamente, descoberto, neste filme, uma história de família em espelho com a minha história de família, que me levou a alterar os critérios de objetividade e distanciamento biográfico que vos devo e que me leva, aqui, a agradecer pessoalmente ao seu autor o ter-ma revelado fazendo-me imaginar para o meu tio um destino romanesco e, para mim, uma qualquer ascendência poética.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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