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Aleilton Fonseca é autor do romance “O Pêndulo de Euclides”, publicado no Brasil em 2009 e publicado em francês, em 2017, com o título “La Guerre de Canudos: une tragédie ao coeur du Sertao” com a excelente tradução de Dominique Stoenesco.

Misturando realidade e ficção, o autor regressa ao campo de batalha de Canudos, no interior do Estado da Bahia, onde recolhe testemunhos dos descendentes dos sertanejos que fizeram a guerra, recuperando assim a memória do lugar.

A batalha de Canudos, um dos momentos militares mais marcantes da História do Brasil independente, ocorreu em 1897 e opôs os exércitos da jovem república brasileira, laica, aos seguidores de António Conselheiro, um carismático chefe espiritual que sempre lutou contra a política anticlerical da república. O conflito resultou na morte de António Conselheiro e no massacre dos seus seguidores num bombardeamento, abrindo uma ferida da qual a sociedade brasileira ainda não se recompôs inteiramente.

 

A figura de António Conselheiro está repleta de sombras. Afinal, quem foi ele? Um líder carismático que ajudou milhares de camponeses a libertarem-se do jugo cruel da elite latifundiária ou, pelo contrário, foi um fanático religioso obscurantista que arrastou um povo de ignorantes para um martírio injustificado?

Inicialmente, a história do conflito que houve em Canudos foi feita pela intelligentsia da época, cujos discursos acentuavam a ideia, que ficou na tradição, de que António Conselheiro era um fanático religioso, praticante de uma religião popular, de um cristianismo que pregava o fim do mundo e manipulava aquela pobre gente do campo. Um sebastianismo tardio, no fundo. De tal forma que Euclides da Cunha, no seu livro “Os Sertões”, expõe essa mesma imagem, que foi reproduzida em vários livros e reportagens nos jornais da época. No entanto, com o tempo, e já passaram 120 anos, este episódio vem passando por revisões.

 

Houve então uma transformação da ideia que se tem de António Conselheiro?

Sim. Depois de muitas análises, outras versões vêm surgindo. Não apenas nos estudos historiográficos, sociológicos, mas também, ultimamente, na própria literatura. Hoje, o que nós sabemos é que António Conselheiro não se tratava simplesmente de um fanático. Ele era um homem que teve formação, sabia ler muito bem e escrevia muito bem. É verdade que abraçou a causa pela vertente religiosa, exercendo porém uma liderança social junto a uma população desfavorecida. Uma população sertaneja que vivia tempos muito difíceis, não só com a seca constante, mas também por causa da discriminação social e política promovida pelos fazendeiros contra os sertanejos.

 

Colocando em perspetiva o contexto da época. A Lei Áurea, que aboliu alguns anos antes, em 1888, a escravatura em território brasileiro, teve um impacto no cenário que o Aleilton descreve, levando à revolta de Canudos?

É um facto. A Lei Áurea era muito recente e no Sertão ainda não havia uma consciência libertadora por parte dos senhores da terra. Então, aqueles pobres saídos da escravidão e mesmo os homens pobres livres viviam praticamente numa situação de semiescravidão. Eram explorados, abandonados à própria sorte, de tal maneira que se criou ali uma situação de miséria, de pobreza absoluta.

 

Então, Aleilton, o que está a dizer é que a componente religiosa foi um pretexto para levar a cabo uma espécie de guerra da Vendéia que opôs camponeses pobres, ultracatólicos e realistas contra uma república anticlerical?

Essa população não tinha uma vida política, nem sequer podia votar. Só quem soubesse ler e tivesse mais de 6.000 contos de reis tinha direito a voto. A jovem República era, na verdade, uma República dos ricos. Ora, os camponeses pobres e analfabetos não podiam participar na vida política. Então, na minha opinião, a religião era o elemento congregador que ocupava o lugar da política.

 

No fundo, estamos então a falar de massas despolitizadas que usavam a religião como válvula de escape para lutar por direitos sociais, económicos e políticos?

Sim, essa foi a forma encontrada por António Conselheiro para unir esse povo e resistir sobretudo contra o latifúndio e a pobreza. E essa revolução, portanto, partia da ideia de que juntos, livres do latifúndio, poderiam cultivar eles próprios a terra e produzir, saindo da pobreza.

 

E a experiência de Santo António de Belo Monte, em Canudos, estava a resultar antes da guerra?

Resultou. Ao formar essa comunidade, eles começaram a arar a terra, a fazer o que sabiam, e logo começaram a ter bons resultados e a movimentar uma economia na região. Foi isso que chamou a atenção dos latifundiários, dos grandes fazendeiros, que exigiram do governo republicano uma ação militar punitiva contra essa produção coletiva.

 

Foram quatro ações militares punitivas. Nas três primeiras o exército brasileiro saiu derrotado.

Exatamente. Essas derrotas aconteceram porque existia uma organização naquela comunidade, e a vontade de resistir era grande. Aqueles camponeses pobres e oprimidos descobriram o que poderia ser a vida de uma comunidade rural próspera e livre.

 

Aleilton, nós aqui na Europa, principalmente os portugueses, seguimos com grande atenção, e até preocupação, a situação brasileira. Nós poderemos dizer que estes eventos ocorridos em Canudos são o precedente do Movimento dos Sem-Terra?

Provavelmente sim. Nos últimos anos, as análises têm tentado convergir esses factos. Na medida em que devemos considerar que o líder popular António Conselheiro construiu o primeiro assentamento de população sem-terra do Brasil. Ele reuniu aquele grupo numeroso de camponeses pobres, sem-terra, muitos deles perseguidos pelos fazendeiros latifundiários, muitos abandonados à sua sorte, e os guiou por quilómetros, de vila em vila, até que sentiu que havia chegado a hora de assentá-los onde pudessem cultivar a terra, criar animais e viver dignamente.

 

Para terminarmos, sugira-nos um livro que tenha gostado.

Estou a ler “A cidade de Ulisses” de Teolinda Gersão. Um romance muito interessante sobre a cidade de Lisboa.

 

Entrevista realizada no quadro do programa “O livro da semana” na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado:

Richard Zimler, autor de “Les Anagrammes de Varsovie”

Quarta-feira, 28 de fevereiro, 8h30

Domingo, 04 de março, 14h25

 

 

 

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