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Afonso Reis Cabral regressa com “Pão de Açúcar” após ter vencido, com apenas 24 anos, o Prémio Leya, em 2014, com o romance “O meu irmão”.

“Pão de Açúcar” é um romance que se alicerça em factos verídicos: em 2006, na cidade do Porto, Gisberta, transexual brasileira de 45 anos, acabou morta, afogada, no fundo de um poço depois de ter sido violada e torturada por um grupo de catorze adolescentes durante vários dias. Um crime de ódio que ainda hoje preenche o imaginário dos portuenses, tanto pela violência do crime, como pelo facto de a maioria dos menores, onze deles, estarem sob tutela da Oficina de São José, uma instituição católica de acolhimento.

Gisberta, que vivia no tal “Pão de Açúcar”, um edifício inacabado, era prostituta, sem-abrigo, toxicodependente e estava doente com sida, doença à qual se acrescentava um cocktail de muitas outras como a tuberculose, a anorexia ou a anemia.

Triste ironia do destino, Gisberta saíra do Brasil, quase trinta anos antes, para fugir a uma onda de assassinatos em São Paulo e que vitimava travestis. Passou pela França e acabou no Porto.

Afonso Reis Cabral explora então o meio cultural destes rapazes que se foram aproximando de Gisberta lentamente, de maneira amigável, ganhando a confiança da mulher, até que um deles decidiu usá-la como saco de pancada. Os outros treze acharam por bem segui-lo por esse caminho de tortura e de violência sexual.

 

Afonso, este teu livro é muito diferente de “O meu irmão”. O tema do primeiro é-te próximo, este é-te muito distante. A linguagem é também bastante diferente. Foi-te difícil levar a cabo esta transformação?

O meu primeiro romance, de certa maneira, foi-me dado. Ou seja, como eu conhecia aquela realidade de perto, a realidade de alguém com síndroma de Down, mais cedo ou mais tarde, quer fosse num primeiro livro ou num último livro, eu teria de escrever um romance sobre isso. Teria de pegar naquela realidade e transformá-la. Ora, no segundo romance acontece exatamente o contrário. O livro não me foi dado de maneira nenhuma porque eu não conhecia aquela realidade. Eram temáticas que, enfim, aqui e ali, eu ia acompanhando, embora não de perto, na comunicação social. A própria condição de alguém transexual, os próprios rapazes, enfim… O desafio era então justamente conseguir pôr-me na pele de outras pessoas. Quis pôr-me na pele de pessoas com outro tipo de vida. De certa maneira, a Literatura é isto, é conseguir tornar-nos um Outro. E no caso do “Pão de Açúcar” esse Outro era para mim muito estrangeiro. Esse desafio parte de um certo desassossego ao relembrar o caso Gisberta e perceber que, para além de toda a violência, haveria ali um começo de amizade entre ela e três rapazes. Isto sim é que causa um estranhamento muito grande. Como é que três rapazes a ajudam e vão ficando amigos e depois tudo se altera e termina no extremo oposto? Foi então esse desassossego que me fez escrever o livro.

 

Disseste que este livro, para ti, foi “uma conquista como escritor”…

Sim, eu disse isso. E tirado do contexto pode parecer arrogante.

 

Não me soou nada arrogante…

E não é. Eu não quis passar essa imagem. Justamente pelo que eu dizia há bocado, é uma conquista neste sentido: o primeiro foi-me dado, eu conhecia, não precisei de o conquistar; enquanto o segundo foi uma conquista, ou seja, eu precisei de o conquistar. Precisei de lutar por ele. Isso implicou, por exemplo, ter um certo trabalho de investigação a priori. Não é que o livro seja um livro de reportagem literária, não o é. Para mim é pura ficção, mas parte de um caso real. E por isso, ao partir de um caso real, é preciso conhecê-lo. Conhecer os intervenientes, o sítio, as motivações para a partir daí o transformar em ficção, em literatura.

 

Sim, e nota-se que vai tudo muito além de uma reportagem literária, como disseste, nem que seja simplesmente por causa deste facto: seria muito fácil teres desumanizado os rapazes que cometeram o crime, mas tu, pelo contrário, tiveste a coragem de humanizar todos os personagens e não te perdeste naqueles moralismos… algo bacocos, se quiseres. Por que razão foste pelo caminho mais difícil e optaste por esta estratégia?

Acontece que gosto muito de escrever na primeira pessoa. E essa primeira pessoa no “Pão de Açúcar” é um dos rapazes, é ele que impulsiona a ação.

 

O Rafa?

Sim, exatamente, e sem ele as coisas não aconteceriam como acontecem no livro. E ao estar na pele dele, necessariamente tinha de ver o mundo com os olhos dele. E apesar de todos os acontecimentos, as coisas nunca são só boas ou só más. Aliás, quanto melhores estão as coisas no livro – e eu faço aqui uma ressalva muito importante: estamos a falar de um livro de ficção, não falo no caso real, não estou a falar de pessoas, falo apenas de personagens -, quanto mais amizade havia, mais terror poderia haver também. Ou seja, é muito mais terrível, na minha perspetiva, uma amizade e um certo amor que se desfazem. O Rafa a tentar, de alguma maneira, encontrar uma mãe na Gisberta e depois vê que isso não é possível. Essa anatomia de uma amizade que se desfaz, de uma procura e de uma certa intimidade que acaba entre os rapazes e a Gisberta, é muito mais terrível do que começar o romance com a transfobia. Não, o que dói mais é a amizade que se desfaz e torna o livro, pelo menos eu tentei, mais duro.

 

Eu não sei que idade tinhas quando o crime aconteceu…

Tinha 16 anos. Tinha a idade do mais velho.

 

Sim, e como sabes, em 2006, os direitos da comunidade LGBT em Portugal estavam ainda por confirmar. Tu consideras que este caso, com toda a violência que envolveu, foi importante para o despertar de uma maior tolerância e abertura da sociedade portuguesa em relação aos direitos da comunidade LGBT? Portugal tem neste momento das legislações mais avançadas do mundo.

O livro não tem qualquer intenção de manifesto ou nada que se pareça. Aliás, eu estou muito fora de tudo isso. Não é uma realidade que eu acompanhe especialmente. No entanto, é evidente que um caso assim tão forte teria de deixar marcas. O caso Gisberta foi uma espécie de pedrada no charco. E toda a gente teve de se definir em relação a isso. Portanto, sim, foi marcante e impulsionou muitas coisas. Mas, lá está, o meu objetivo é simplesmente literário e o meu grande compromisso é com a Literatura, mais nada. Agora, claro que a Literatura dá a ver. Quem lê o livro, espero eu, se o livro ficou bem feito, não fica indiferente, e, portanto, tem de ficar solidário. Tem de respeitar integralmente alguém que teve uma vida como a da Gisberta.

 

E agora vais retomar o tal livro que deixaste a meio para escrever este?

Já o tentei retomar, mas entretanto fiz uma viagem a pé por Portugal de norte a sul através da Estrada Nacional 2, que é a maior da Europa…

 

A Route 66 portuguesa!

Exatamente. E parece que fui o primeiro a fazê-lo a pé. Comecei em Chaves e acabei em Faro. E fui escrevendo uns textos e fui falando sobre essa experiência. As pessoas começaram a aderir, a gostar… então, eu agora vou ter de parar novamente esse tal livro, se é que algum dia vou conseguir fazê-lo, e vou escrever esse livro de não ficção sobre essa viagem.

 

E quanto tempo demoraste?

Vinte e quatro dias.

 

São setecentos e tal quilómetros, não é?

738,5 km, mas ainda fiz mais 8 km para conseguir mergulhar no mar. Tive de contornar a Ria Formosa para chegar ao mar.

 

Já pensei fazer isso de bicicleta, já a pé é preciso ser corajoso…

É preciso ser muito estúpido essencialmente (risos). Mas como comecei, mais valia acabar. Houve momentos em que achei que não ia conseguir porque foi um esforço físico muito grande, e psicológico também. Mas como encontrei pessoas tão extraordinárias na estrada, tão solidárias, tão boas, que fui sentindo, durante a viagem, a obrigação de a acabar. Não por mim, mas por essas pessoas que me ajudaram. Foi uma das melhores experiências da minha vida.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: Clara Domingues, tradutora

Quarta-feira, 26 de junho, 9h30

Domingo, 30 de junho, 14h25

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