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Alexandre Staut nasceu no Estado de São Paulo em 1973 e é escritor, jornalista e editor. Publicou, em 2010, “Jazz band na sala da gente” e “Um lugar para se perder” em 2012. E lançou, no ano passado, “O Incêndio”. É igualmente Diretor editorial da revista digital “São Paulo Review”.

Em 2016, publicou o livro “Paris-Brest”, obra vencedora do Gourmand World Cookbook Awards e também finalista do Prémio Jabuti na categoria de Gastronomia. Não sendo uma obra autobiográfica, “Paris-Brest” relata, por entre entre ficção e realidade, a experiência de Alexandre ao longo dos quase quatro anos que trabalhou como cozinheiro em França, numa pequena cidade, não muito longe de Brest. Mas o livro é também um diário de viagem, um livro de receitas (ao todo são 58!) e um manual de História que nos oferece um estudo sobre os hábitos alimentares da França Medieval.

“Paris-Brest” reflete ainda sobre o futuro da humanidade. No conto que encerra a obra, Alexandre Staut projeta-nos para o Brasil do ano 2551 e explora a temática da falta de alimentos devido ao esgotamento dos recursos do planeta.

 

Vamos começar por esta inquietação que deixas no final do teu livro. A humanidade construiu uma sociedade de consumo desenfreado, nomeadamente ao nível da alimentação industrializada, onde nós comemos cada vez mais e cada vez pior e onde um alimento tem de atravessar meio mundo para chegar aos nossos pratos… Encontraste dificuldades desse tipo aqui em França?

O “Paris-Brest” é basicamente um livro sobre gastronomia e viagem, mas também é um livro sobre a fome. Falo da dificuldade em encontrar alimentos, inclusive as dificuldades que os imigrantes encontram para comer bem, não só na França, mas na Europa de uma forma geral.

 

Falemos então dessa tua experiência francesa. Em que moldes consideras que a gastronomia francesa nos pode ajudar a comer melhor?

O interessante da gastronomia francesa é que você come um pouco de tudo. As pessoas aí diziam “tudo que se mexe a gente come”. No futuro será um pouco assim. A gente vai ter de encontrar comida alternativa. No Brasil, por exemplo, se estuda a alimentação através de proteínas de formigas. Então, na França, eu aprendi muito sobre isso. Algumas verduras que eu não conhecia, ervas, frutos do mar… E também algumas proteínas que eu não conhecia. Hoje em dia, eu sou vegetariano, mas eu lembro que na França era possível encontrar carne de cavalo no supermercado. Aqui no Brasil isso não tem, não existe.

 

E o que te levou, por exemplo, a abordar a gastronomia medieval europeia?

Eu adoro estudar o mundo medieval e especialmente a gastronomia. A culinária francesa e europeia de hoje tem a sua base na gastronomia medieval. Então não teria como falar de alimentação europeia dos dias de hoje sem tocar nesse assunto. Inclusive essa alimentação medieval influencia, não só a Europa, mas também as Américas. No Brasil, a gente é influenciada por essa alimentação medieval, além de sermos influenciados pela alimentação indígena.

 

Alexandre, é inevitável falarmos das transformações sociopolíticas no Brasil. Aqui, na Europa, já ouvi líderes da extrema-direita a criticarem Jair Bolsonaro, facto que me surpreendeu bastante, devo dizer. A Marine Le Pen, por exemplo, afirmou que Bolsonaro, e estou a citar, “diz coisas extremamente desagradáveis que são intransponíveis em França”. Ou seja, as ideias de Bolsonaro são também refutadas pelos neofascistas europeus. Como é que vês o futuro do Brasil com este novo Presidente?

Eu também ouvi essa declaração da Marine Le Pen e fiquei assustadíssimo. E falei “Olha, até ela que é extrema, extrema-direita se assustou com esse cara”. E ele é assustador, mesmo. Ele assusta todo o mundo. O discurso dele, as pessoas ao redor dele, é tudo horroroso, um retrocesso.

 

Quem é que vai sofrer mais com o Bolsonaro no poder? As minorias? As classes mais pobres? As classes médias?

Eu acho que com Bolsonaro só se vai dar bem quem tiver muito dinheiro. Ele vai governar para a classe média-alta, os ricos… Isto se ele não vender o Brasil para os Estados Unidos. Ele vai esquecer as minorias, a cultura… Ele sempre deixou isso claro nos seus discursos. No meu livro “O Incêndio”, que eu lancei no ano passado, a questão é essa. Eu falo das minorias sexuais, mas falo também de órgãos públicos culturais. O livro aborda uma biblioteca que está caindo aos pedaços numa cidade do interior do Brasil. E a Prefeitura para não a restaurar, para não levantar aquilo, resolve incendiá-la, insistindo que esse incêndio aconteceu por acaso.

 

Então julgas que os quase cinquenta milhões de brasileiros que saíram da pobreza extrema durante os Governos PT, apesar da corrupção generalizada da esquerda à direita, podem voltar a mergulhar na miséria? Acreditas nesse retrocesso?

Eu acho que sim. Pelas notícias que a imprensa tem lançado por estes dias, o governo já está cortando. Ontem, ouvi algumas notícias de que os livros didáticos não serão mais necessários. A celebração das minorias, do sexo feminino, tudo será atacado. São notícias assustadoras umas atrás das outras. Todos os dias, nós temos acordado com notícias assustadoras nos jornais.

 

Aquela vã esperança que alguns tinham, dizendo “o Bolsonaro quando for eleito vai moderar o discurso”…

Não sei, pode ser que mude ainda. Eu duvido. Ele tem esse discurso há vinte anos, desde que começou como político.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: Sandro William Junqueira, autor de “Quando as Girafas baixam o Pescoço”

Quarta-feira, 30 de janeiro, 9h30

Domingo, 03 de fevereiro, 14h25

 

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