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Professora na Universidade de Copenhaga, Ana Vera doutorou-se em Estudos Ibéricos na Universidade de Lyon e investiga as relações entre os cinemas, as culturas e as sociedades no seio do espaço lusófono. Fruto deste trabalho foi publicado o livro “Le Cinéma Portugais: Histoire, Culture et Société”, um estudo que analisa a evolução do cinema português entre os anos de 1963 a 2015.

Seguindo o exemplo dos seus colegas hispanistas, para quem o cinema é um objeto de estudo importante que reforça e aprofunda o conhecimento da História e da Cultura de Espanha e da América Latina, Ana Vera procura, através da análise fílmica e narrativa, uma leitura do cinema português na sua relação com os acontecimentos maiores que afetaram Portugal ao longo dos últimos cinquenta anos.

A obra, que se estrutura em três eixos essenciais – a uma contextualização política e sociocultural segue-se, na segunda parte, uma reflexão sobre o imaginário político-cultural no contexto do processo de democratização e de abertura do país à Europa, e termina-se com a terceira parte dedicada à análise da relação que o cinema mantém com a sociedade portuguesa contemporânea e pós-colonial marcada pela crise financeira e social – esta obra não procura, e passo a citar a autora, “reivindicar a superioridade cultural do cinema português quando comparado com outras pequenas cinematografias nacionais, trata-se, sim, de assinalar na cinematografia portuguesa os traços, as temáticas, as interrogações e as incertezas que ela convoca relativamente ao país”.

 

Ana, ao ler o seu livro descobri que existe um enquadramento teórico chamado “Cinema das Pequenas Nações” e ao qual o cinema português pertencerá. Pode explicar-nos porquê?

Eu integrei o cinema português neste, como o Nuno dizia, enquadramento teórico do “Cinema das Pequenas Nações” que foi, curiosamente, desenvolvido por uma colega da Universidade de Copenhaga, dinamarquesa. Este conceito é largo. É, digamos, um quadro de referência para percebermos o cinema português. Eu acho que o cinema português faz parte daquilo que esta colega identifica como sendo os “pequenos cinemas nacionais”. Isto é cinemas que apontam para esta ideia de resistência a uma certa homogeneidade cultural, um cinema que aproveita alguns obstáculos, sobretudo financeiros, para explorar uma certa criatividade, que propõe imaginários alternativos.

 

Levando em consideração o passado colonial de Portugal, aliado ao facto de o português ser uma língua global, que tem como falantes nativos mais de 200 milhões de pessoas, será correto incluir o cinema português no mesmo quadro teórico onde estão países sem essas características? Cinema de países como a Eslovénia por exemplo?

De facto é a única categoria apontada pela Hjort à qual o cinema português escapa. Normalmente estas “pequenas cinematografias nacionais” não inclui países que foram colonizadores. Mas isso não é suficiente para que Portugal não faça parte desse quadro teórico do “cinema das pequenas nações”. Esta, claro, não é uma categoria hermética, permite alguma mobilidade.

 

Em França, apesar de tudo, o cinema português vai aparecendo nas salas e, pela minha experiência, parece-me até que o cinema português é, por aqui, mais relevante do que a literatura, apesar de nas universidades onde se ensina a cultura portuguesa ter o foco ainda muito centrado na literatura em detrimento do cinema. O que me parece ser um pequeno paradoxo. Consegue perceber porquê?

Isso tem que ver com a tradição dos Estudos Portugueses que não conseguiram acompanhar aquilo que foi sendo desenvolvido, sobretudo nos anos 80, com a emergência dos Estudos Culturais, estudos esses que começaram a prestar mais atenção a outras formas de produção cultural de diferentes áreas geográficas. O meu objetivo foi de certa maneira preencher essa lacuna e propor um estudo, no quadro dos Estudos Portugueses, sobre o cinema português porque, de facto, achei que não existia. Isto apesar de, como o Nuno dizia, o cinema português estar muito presente em França. Nas salas de cinema, em festivais, nas grandes revistas de cinema.

 

Ana, este seu livro marca claramente, deixa bem patente um momento histórico do século XX português que é o 25 de Abril. Por isso lhe pergunto quais serão as diferenças mais relevantes entre o cinema português pré-revolucionário e pós-revolucionário? O que é que o 25 de Abril trouxe de novo ao cinema português?

Do ponto de vista da história do cinema, a revolução no contexto cinematográfico nasce logo com o Cinema Novo nos anos 60. Do ponto de vista estético é aí que nasce a revolução no cinema português. É por isso que eu começo o livro em 1963. Ao nível das referências, das narrativas cinematográficas, houve uma maior liberdade, uma diversificação de temas. Talvez seja essa a diferença mais relevante. A Revolução do 25 de Abril em si não foi um marco cinematográfico embora tenha sido foi um marco histórico e social.

 

Vamos então falar de um outro marco, este mais recente, que foi a Grande Recessão de 2011/2015. Em que medida é que ela afetou o cinema português?

Afetou desde logo financeiramente, claro. Houve uma penúria do financiamento ao cinema português que, como sabemos, vive muito do apoio do Estado. Mas houve também um impacto do ponto de vista temático. Muito rapidamente. No livro, eu falo do caso da trilogia do Miguel Gomes, “As mil e uma noites”, que, para mim, é um filme fantástico. Não apenas o Miguel Gomes mas também outros cineastas prestaram atenção àquilo que se estava a passar e tentaram representar o impacto dessa crise a nível social em Portugal. Filmes como o “São Jorge” do Marco Martins, a Teresa Villaverde com o filme “Colo”. Existem muitos outros filmes em que a crise aparece como pano de fundo.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: Sébastien Rozeaux, autor de “Préhistoire de la Lusophonie”

Quarta-feira, 05 de fevereiro, 9h30

Domingo, 09 de fevereiro, 14h25

 

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