Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

Andréa Zamorano é uma daquelas escritoras verdadeiramente cosmopolita, com uma tão grande capacidade de assimilar e de se adaptar às diferentes culturas com as quais vai convivendo que, a certa altura, já não existem fronteiras, nem físicas nem psicológicas.

O seu primeiro romance – «A Casa das Rosas» – é o mais claro exemplo desse seu natural hibridismo. Se este seu livro é claramente um romance latino-americano, que bebe do realismo-mágico, é, ao mesmo tempo, um romance europeu, de toque lusitano no registo, não vivesse a Andréa em Lisboa há mais de 25 anos.

«A Casa das Rosas», que foi considerado o livro do ano de 2015 pela revista Time Out Lisboa, pouco depois de ter sido publicado pela Quetzal, segue a vida de Eulália, uma jovem paulista da classe média, durante o período de transição entre a ditadura militar e o regime democrático no Brasil nos anos oitenta do século XX.

Ora, este é um romance que, aproveitando o substrato da História recente do Brasil, concilia realidade e fantasia, pois se existe, por exemplo, uma relação muito concreta entre um pai e uma filha ou os desvarios de um poderoso Deputado, também faz surgir fantasmas e animais que falam.

 

Andréa, sendo tu uma orgulhosa carioca, por que razão escolheste São Paulo como cenário do teu romance? E fala-nos um pouco do edifício que dá o título ao livro. Ele ainda existe?

Existe. A Casa das Rosas é atualmente um Centro cultural muito dinâmico na Avenida Paulista, o coração da cidade de São Paulo. Digo o coração em vários sentidos, económico, político, por ser o coração de tantas manifestações que vimos recentemente. O edifício, construído no fim do século XIX, foi tombado pelo património na década de 80. Até 1986, viveu lá a família proprietária da casa. Mas, na verdade, o meu romance não conta a história da casa, conta, sim, uma história que parte daquela casa. A casa em si é, como disse, aquele elemento que resiste, que permanece. Está situada numa avenida pejada de grandes arranha-céus. Ela é simultaneamente um elemento de resistência e de perseverança, que promove a cultura. É uma casa muito bonita, cheia de rosas, tem um jardim lindíssimo. Quando passarem por São Paulo vão vê-la.

 

A ideia que tenho de São Paulo é de que é uma cidade esmagadora, que possui uma escala algo desumana. Digo isso talvez por estar acostumado às cidades europeias. Foi também por causa dessa escala de gigantismo que escolheste São Paulo?

Foi por isso mesmo, Nuno. O Rio de Janeiro talvez não tenha essa dimensão tão impactante. São Paulo é uma coisa enorme, avassaladora, esmagadora, é uma cidade que te pode deixar sem ar. E a minha personagem está perdida nesse caos, perdida nessa pressão e na opressão de uma cidade tão grande. Então, achei que, nesse sentido, o Rio de Janeiro seria mais amigável do que São Paulo, apesar de eu amar São Paulo. Sou uma carioca um bocado esquisita. Adoro quase tudo do Rio de Janeiro. Adoro a cultura, o samba, muitas das vivências do Rio de Janeiro, mas, por outro lado, aprecio muito o cosmopolitismo de São Paulo, dessa coisa enorme, dinâmica. Gosto das suas várias «tribos», as suas várias tendências. Quando as cidades são muito grandes, elas têm essas microcidades e microvivências dentro delas, que fazem parte da sua natureza. O Rio também tem tudo isso, mas noutra dimensão.

 

Andréa, tu falas de ti própria como «um ser hibrido», meio brasileira e meio portuguesa, e isso nota-se. A verdade é que no romance existe uma mistura do português falado na Europa e no Brasil. Em que sentido é que isso influencia a tua criação e de que forma esse «teu estilo» foi recebido no Brasil onde o livro foi lançado há pouco tempo?

Olha, influencia muito. Como me tornei nessa criatura Frankenstein (risos). Aliás, faz agora 200 anos que a Mary Shelley publicou o Frankenstein. Eu sou feita com pedaços de várias coisas, mas no meu caso acho que as costuras foram mais bem feitas. É tudo mais uniforme. Bem, mas, na verdade, eu já não sei onde começa a minha parte portuguesa ou quando eu deixo de ser brasileira ou vice-versa. Isso é algo que já não existe para mim. Eu realmente me tornei num hibrido. Às vezes, penso coisas que já não fazem sentido no Brasil e que só fazem sentido em Portugal. Mas nada disso me impede de escrever. Dá mais trabalho, mas faz parte do processo, tenho de encontrar um ponto de equilíbrio para que essa minha fusão se torne uma coisa sem tropeços.

 

Mas essa tua fusão, esse teu estilo literário hibrido afeta a receção da obra? Bem, o que eu quero dizer é o seguinte. Existe, como sabes, um desequilíbrio entre a maneira como os Portugueses recebem, quase em doses maciças, a cultura brasileira, não tanto a literatura, mas sim a música, o cinema, a televisão; e, em contraste, a forma como dificilmente o Português europeu consegue penetrar naquele enorme país-continente que é o Brasil. Para concluir: este teu registo hibrido, luso-brasileiro, se preferires, não soa demasiado estranho a um Brasileiro que nunca tenha saído do Brasil?

Quando fui agora ao Brasil lançar o romance, pensei duas coisas. Primeiro, que poderiam estranhar este meu registo hibrido. E, segundo… Bom, aqui em Portugal, por muito que me tenha aportuguesado, as pessoas ainda me olham como Brasileira. Então, eu ainda tenho aquele certo exotismo do «outro», de não ser «o daqui». E, agora, quando fui ao Brasil eu pensei, «bem, agora no Brasil, eu vou perder o meu trunfo, já não serei exótica, serei igual a toda a gente, serei apenas mais uma Brasileira». Mas não foi assim. Esqueci-me que também me havia transformado para lá, não me havia transformado apenas para aqui.

 

Também te tornaste exótica para os Brasileiros?

Sim! Agora também sou exótica para os Brasileiros!

 

Bem, Andréa, chegou a tua vez de nos sugerir um livro de que tenhas gostado.

Li agora um livro maravilhoso que se chama «A Gorda» da Isabela Figueiredo e que toda a gente deveria ler. Tem um conjunto de referências incríveis e é muito engraçado. Ela tem um sentido de humor fantástico e o romance está muito bem escrito.

 

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado:

Mário dos Santos, editor de «Contos da Emigração: Homens que sofrem de sonhos»

Quarta-feira, 21 de março, 8h30

Domingo, 25 de março, 14h25

 

 

 

 

Gostou deste artigo? Vote, participe!
Votação do Leitor 3 Votos
9.2
X