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Hugo Mezena nasceu em Penafiel em 1983, é professor de música (toca piano) e lançou o seu primeiro romance há uns meses. Tem o título de “Gente Séria” e foi publicado pela Planeta Editora.

“Gente Séria” retrata a vida rural portuguesa na passagem para os anos 90 do século passado. Benomilde – um pequeno vilarejo, fechado e ainda dominado pela autoridade do padre – está cheio de personagens tementes a Deus, personagens que carregam no lombo e na consciência os pecados cometidos. E ali, em Benomilde, esse microcosmos, o mínimo desvio pode ser considerado um pecado mortal.

Recorrendo a uma escrita limpa, sem rodriguinhos e direta ao assunto, de capítulos curtos, o Hugo entregou a narração da intriga a Miguel que, por ser criança, vê o mundo com a mais cristalina das simplicidades: quando morrem os maus vão para o inferno e os bons vão para o céu, a obediência à autoridade é natural, tal como a lei da reguada, e a confissão dos pecados é obrigatória.

Essa sua cosmogonia todavia desaba no dia em que o seu tio Carlos morre. A partir daí, Miguel, que cresce e vai estudar para o Porto, compreende que os bons podem ser maus e os maus podem ser bons. Uma autêntica revolução.

 

Hugo, tu nasceste numa região que conheço bem. E conheço bem também alguns dos seus costumes mais atávicos, muitos dos quais retratas no teu livro. Tu viveste em Penafiel até à adolescência. Achas que a tua vivência nessa realidade foi importante para a construção deste livro?

Sim, foi importante, claro. Eu nasci em Penafiel, fiz lá a escola toda e depois, ao ir para a faculdade, acabei por ir estudar para o Porto. Essa vivência fez-me perceber a existência, tal como disseste, de certos atavismos que se prolongam na forma das pessoas serem ou de estarem ou de compreenderem a realidade. Costumo dizer em relação a este livro que ele se debruça sobretudo na forma como o 25 de Abril foi essencial para que esses atavismos, essa cristalização, nas atitudes pudesse começar a desaparecer, para se conseguir mudar alguma coisa na maneira das pessoas estarem, de mudar hábitos algo antiquados. O 25 de Abril foi um espoletar essencial e indispensável, mas as coisas demoram tempo até chegarem às pessoas. Ali no final dos anos 80, início dos anos 90, um pouco por todo o país – Benomilde é apenas um exemplo fictício do que se passava em todo o lado – ainda se notava muito essa cristalização. Depois com a massificação da televisão, com o aparecimento de novos canais, com as pessoas a ouvirem muita rádio, com o desenvolvimento da rede de bibliotecas públicas nas pequenas cidades e vilas e, também como já haviam passado vários anos desde a Revolução, essas atitudes começaram a mudar. O livro tenta captar o momento em que essas atitudes estão para mudar, mas que ainda não mudaram.

 

Então, concluindo, mais de 40 anos depois da Revolução, que também foi uma revolução de mentalidades… Tu achas que esse Portugal beato, digamos assim, ainda existe?

Ainda existe, sim, de facto, mas eu acho que ainda existe em todo o lado. Enfim, eu tenho tido a possibilidade de viajar um bocado e cada vez mais volto de outros países a pensar que Portugal não é mais atrasado.

 

Deixa-me dizer-te, eu também tenho essa experiência, que em muitos aspetos Portugal é mais avançado do que a França, por exemplo.

Exatamente. Eu não queria chegar tão longe (risos). Em termos sociais, Portugal avançou imenso. Eu concordo com isso. Agora ainda há muito trabalho a fazer e o nosso país continua a ser rural. Por outro lado, o livro também refere a violência, nomeadamente aquela que se verifica na linguagem mais brusca, mais repentina, e aquela que se esconde em alguns comportamentos. Mas, sim, acho que as coisas melhoraram.

 

Tu referiste a linguagem. Eu disse há pouco que usas uma linguagem “sem rodriguinhos”, diferente daquela que é utilizada por muitos autores da nossa geração, que vão repetindo códigos algo barrocos, do tipo prosa-lírica, por exemplo. Códigos que valorizam mais a forma do que o conteúdo, que trabalham mais a frase do que a intriga. Mas tu, pelo contrário, possuis uma grande limpidez na linguagem, que transpira uma espécie de minimalismo que agarra o leitor. Bem, tudo isto para chegar aqui: e a música? Em que sentido é que a música, que existe na tua vida desde sempre, te inspira essa limpidez, esse minimalismo, que transpira da tua escrita?

Acho muito interessante tu disseres isso. Sabes, eu já escrevo assim há alguns anos, mas escrevia para mim e agora decidi publicar. A música foi muito importante. Eu, no Conservatório, fiz um percurso ligado à música clássica, à música erudita, e nunca segui o percurso mais habitual que é o de tocar em bandas. Esse percurso tinha esta característica: nas aulas de piano, os professores ensinavam o que nós não deveríamos fazer. Mesmo o movimento do dedo para carregar na tecla não tem tanto a ver com o movimento que o dedo deve fazer, mas, sim, com o movimento que o dedo não deve fazer. O tipo de exageros que nós não devemos cometer para que a peça possa soar bem. O exemplo clássico é: eu tenho uma melodia muito bonita e vou tentar fazê-la ainda mais bonita. Para mim, foi importante esta aprendizagem de perceber que nada tem a ver com o fazer a melodia mais bonita, mas sim com o facto de a apresentar crua e seca, porque isso, na verdade, provoca mais emoção em quem nos está a ouvir. E na literatura passa-se o mesmo. Eu gosto muito de ler os autores que não me estão a tentar explicar tudo e que não me estão sempre a puxar pelo braço e a dizer “olha que coisa bonita que eu estou a pôr aqui, olha que profunda que é, olha a beleza desta cena”.

 

Estás a definir aquilo a que muitos editores chamam de “palha” (risos). Essa tua abordagem pode é trazer outro tipo de problema… Tu às vezes, durante a revisão, não sentes que estás a “limpar” demasiado?

Bem, o meu processo é algo longo e isso, de facto, acontece sempre comigo. Eu faço uma primeira versão. Depois, vou sucessivamente “limpando” até que inevitavelmente chega aquele momento em que eu sinto que já “limpei” demasiado. Mas é nesse momento que estou satisfeito, pois sinto que tirei do texto tudo aquilo que ele não precisava e que a partir daí posso acrescentar tudo aquilo o que quiser até o texto ficar equilibrado.

 

Deixa-me fazer-te uma pergunta algo provocadora. Eu estava a ler o teu livro e dei por mim a pensar que talvez haja leitores que considerem que o teu livro roce ali e acolá o anticlericalismo. Admites essa possibilidade?

Sim, é possível. Ao escrever o livro, eu não pensei nisso. Mas eu fico sempre satisfeito quando há leituras variadas. E essa pode ser uma leitura. Cada leitor terá a sua. Eu tento não controlar demasiado o que vou escrevendo, eu tento que o livro consiga descolar, consiga pensar sozinho. É claro que sou eu que estou a escrever o livro e que o livro não se escreve sozinho, mas é interessante quando o autor consegue chegar a um ponto que sente que o livro está a pensar por si próprio. De maneira que eu não pensei em colocar uma determinada perspetiva sobre a Igreja, ou perspetiva mais pró-clerical ou anticlerical. Eu quis que o livro respirasse. Respondendo mais diretamente à tua pergunta: o que eu acho que acontece no livro é que a determinada altura aquela realidade muito ligada à vivência religiosa, antiquada e atávica, se torna muito constrangedora para a criança. E essa criança tenta responder a isso porque se sente muito abafada.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próxima convidada: Catarina Janeiro, autora de “Outubro negro”

Quarta-feira, 07 de novembro, 9h30

Domingo, 11 de novembro, 14h25

 

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