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Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador da Bahia em 1979. Estudou Geografia, doutorou-se em Estudos Étnicos e Africanos e em 2018 venceu o Prémio Leya com “Torto Arado”, o seu primeiro romance. Antes, em 2017, já havia sido finalista do Prémio Jabuti com o livro de contos “A oração do carrasco”.

O título do romance, “Torto Arado”, indica-nos imediatamente o lugar para onde nos transporta: o mundo rural brasileiro. Um mundo de pobreza e brutalidade que ainda carrega em si certos atavismos que pesam como um enorme fardo sobre a sociedade daquele país-continente. A miséria, os resquícios da escravatura, o racismo omnipresente, a violência com que a elite, quase sempre branca de pele e saudosa da ditadura militar, despreza os mais humildes, quase sempre negros ou mestiços, atacando e destruindo todo o projeto político que vise construir uma sociedade menos desigual. É essa desigualdade, esse extraordinário fosso entre uma elite riquíssima e uma massa popular nos limites da sobrevivência que trata “Torto Arado”. Um livro que pode ser considerado, embora os rótulos sejam por natureza limitativos, um “romance político” que vem no seguimento da tradição brasileira do “romance rural”.

“Torto Arado” conta então a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores de uma fazenda no Sertão que são descendentes de pessoas escravizadas. Um dia, as meninas, levadas pela curiosidade, abrem uma misteriosa mala que a avó guarda debaixo da cama. A consequência desse atrevimento será um acidente que lhes mudará a vida.

 

Itamar, cresceste em Salvador, que é uma grande cidade, e sempre foste um urbano sem grandes ligações ao campo. Como te surgiu então este interesse em retratar o mundo rural neste livro?

Nuno, durante a adolescência, embora eu tenha nascido na cidade e tenha tido pouco contacto com o campo, li os grandes romances brasileiros que tratam a relação do Homem com o campo: Guimarães Rosa, Jorge Amado, José Lins do Rego, João Cabral de Melo Neto… e fiquei muito impressionado com aquela realidade. Uma realidade muito semelhante a uma saga e isso se perpetua até aos nossos dias. Comecei a escrever este livro há muito tempo, mas eu não tinha maturidade para dar continuidade. Tinha oitenta páginas escritas e era bem diferente do que é hoje e essas páginas se perderam. E, por essas coincidências da vida, eu me formei em Geografia e fui trabalhar com trabalhadores do campo. É esse o meu trabalho nos últimos treze anos. Então pude adentrar esse universo, essa realidade que é muito particular e muito diferente da nossa e pude aprender esses modos de vida e traduzi-los em factos e histórias que vão permear o romance.

 

Neste livro, retratas também, além da pobreza rural, as desigualdades, a misoginia, a violência exercida contra as mulheres… Acredito sinceramente que o tenhas feito porque consideras a Arte, neste caso a Literatura, também como uma forma de expressão política. A mim, parece-me que a maioria dos escritores atuais, talvez por receio de serem incompreendidos ou sofrerem represálias, se esconde atrás de uma certa neutralidade ideológica ou política, como se o mundo fosse algo eternamente tépido. A tua posição parece ser a oposta a esta. Porquê?

Eu acredito que nós, por essência, somos seres políticos. Eu gosto muito de citar Hannah Arendt quando ela fala da condição humana e traz os pilares da vida ativa, o trabalho, a obra, a ação e o discurso. A ação e o discurso só ocorrem entre os Homens, só se dão entre os Homens. A ação e o discurso são a Política. Eu acredito que toda a Arte é Política, até aquela que não se pretende Política. Quando se opta pela neutralidade, você está também fazendo uma opção política, a de não adentrar questões de forma aprofundada. E ao falar sobre o universo rural brasileiro a gente inevitavelmente está falando de política, de desigualdade social… Isso para mim era inevitável. Falando da nossa sociedade patriarcal, o quanto ela é violenta, o quanto ela perdura e persiste, o quanto o nosso status colonial nunca foi superado. As elites deste país continuam promovendo todo o tipo de exploração possível e é essa exploração que vai surgir neste romance.

 

Falemos então dessa “elite”. Aqui na Europa olha-se para Jair Bolsonaro com grande desconfiança. Até a extrema-direita europeia mais reacionária se refere a ele em termos pouco abonatórios. Tu és um crítico da evolução política brasileira que desembocou nesta “bolsonarização” do Brasil. Consideras que esta tomada do poder… e atenção isto que vou dizer nem sequer é uma opinião, é uma mera constatação, é um facto… esta tomada do poder pelas forças mais reacionárias e obscurantistas da sociedade brasileira pode levar a um retrocesso civilizacional difícil de ultrapassar no futuro? Será um caminho sem retorno?

Eu vejo com muita paciência. Ainda não sei exatamente o que está acontecendo com o Brasil. Há uns dias saiu uma pesquisa qualitativa do Governo e houve uma queda abrupta no apoio que Bolsonaro teve nas eleições. Então eu preciso ainda de tempo para entender o que está acontecendo com o país. Mas Bolsonaro não é um fenómeno novo. Isso para a gente, para o Brasil, é uma coisa que já existe há muito tempo e nunca foi superada. A gente não fez uma revisão da nossa História, do período da ditadura militar, não houve julgamento nem condenação daqueles que praticaram atrocidades durante a ditadura. Nunca revisitamos a nossa História e eu creio que isso desembocou nesse fenómeno de ascensão da extrema-direita. Então acho que nos falta uma certa maturidade política, educação… esse fenómeno persiste no Brasil. Bolsonaro representa aquilo que o Brasil em parte sempre foi: um país racista, um país misógino, um país cheio de preconceitos… Então “Torto Arado” trata um pouco isso. Aliás, trata muito isso quando expõe as feridas que ainda permanecem abertas no Brasil. As feridas do racismo, da exploração do trabalho, da estrutura patriarcal e fundiária que relega a sociedade para uma situação de extrema desigualdade. Eu preciso de mais tempo para compreender o que está acontecendo com o país. Embora seja assustador a extrema-direita chegar ao poder, eu vejo que esse caminho vem sendo pavimentado há muito tempo. Sempre existiu uma elite inconformada com os direitos para os mais necessitados, com as políticas contra a desigualdade. E essa elite conseguiu pavimentar o caminho e levar parte da população para esse projeto. Mas eu sou uma pessoa profundamente otimista. Julgo que apesar de tudo que está acontecendo, nós vamos tirar uma grande lição e espero que seja uma lição que torne este país um lugar melhor para se viver. Que a gente possa de facto confrontar os nossos fantasmas, os nossos traumas e projetar uma sociedade melhor para o futuro.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: António Barbosa Topa, autor de “Devagar nas asas do vento”

Quarta-feira, 03 de abril, 9h30

Domingo, 07 de abril, 14h25

 

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