Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

No mês passado surgiu a muito bem-vinda reedição de “Vera Cruz”, um dos bons romances históricos publicados em Portugal nestas duas décadas de século XXI, sendo o seu autor, João Morgado, um dos grandes cultores desse género. “Vera Cruz” acompanha então a vida de um dos principais personagens da História de Portugal e também da História do Brasil: Pedro Álvares Cabral.

João Morgado consegue neste romance fazer algo de muito difícil: associar o virtuosismo da escrita ao dinamismo da narrativa. Um estilo enérgico e repleto de expressões da época, o que lhe confere uma grande autenticidade, ao mesmo tempo que a ação corre sem descanso, cruzando ficção com verdade histórica de uma maneira pouco vista em Portugal. Uma “ficção controlada”, como o João refere na sua “Nota Final”, que desvenda a vida de Cabral, o homem que, para uns, “achou” o Brasil por acaso e, para outros, o “descobriu” intencionalmente. Uma vida riquíssima que passou pelo sempre complicado interior raiano português e por Lisboa, então a cidade mais rica e cosmopolita da Europa, e que salta de continente em continente, passando de Ceuta e Tânger para Calecute e Cochim. Um romance cheio de detalhes impressionantes onde a imaginação do autor se une ao seu profundo conhecimento histórico.

 

João, utilizei uma expressão sua: a “ficção controlada”. O que quer dizer com ela?

No romance histórico há muitos estilos. Há autores que pegam em personagens fictícios e desenvolvem um romance de época. Há outros que pegam em figuras históricas, mas tratam-nas livremente. Eu opto pelo clássico que é pegar num personagem histórico e ser muito fiel àquilo que foi o seu percurso. O que eu procuro é fazer um enquadramento histórico, explicar a sua ação para que as pessoas o entendam melhor e, sobretudo, uma coisa que é importante na literatura: dar-lhe uma personalidade, porque os livros de História trazem os acontecimentos, os lugares, as datas, mas no romance nós temos a possibilidade de apresentar estes heróis como homens, com as suas venturas e com os seus pecados e, com isso, perceber melhor a sua ação. Sendo portanto uma viagem muito mais rica à História. Falo em “ficção controlada” porque eu faço realmente um estudo do personagem e sou muito fiel aos acontecimentos, às datas, aos lugares, não acrescento nada que possa adulterar a História tal como nós a conhecemos e entendemos. Posso é muitas vezes dar-lhe um cunho pessoal na maneira como escrevo ou dar-lhe uma correlação diferente dos factos. Por exemplo, sobre a “descoberta” do Brasil existem várias teorias. Uma diz que os barcos andaram perdidos numa tempestade e encontraram terra. Outra diz que houve uma intencionalidade em “achar” aquelas terras. Eu, no “Vera Cruz” apresento uma terceira teoria sobre a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. Mas essa terceira teoria não é fantasia. Eu parti de dados históricos que recolhi e que reorganizei para apresentar ao leitor.

 

E qual é essa terceira teoria?

(Risos) Assim tira um pouco a piada de ler o livro.

 

Pronto, spoilers é que não. Quem nos ouve e nos lê tem mesmo de ler o livro para descobrir a terceira teoria.

Mas posso dizer que há ali uma intencionalidade muito forte em achar aquelas terras. A carta de Pêro Vaz de Caminha diz-nos que a 22 de abril “houvemos achamento de terra”. A verdade é que nós “achamos” as coisas que andamos à procura. Nós perdemos as chaves do carro, andamos à procura e dizemos: “achei!” Ou seja “achamos” aquilo que sabemos que existe mas que não sabemos onde é que está. Outra questão é quem enviou Pedro Álvares Cabral? Terá sido ou não o rei? É em relação a isto que o livro sugere outros caminhos ao leitor.

 

Disse há pouco que, claro, os personagens têm de ser construídos, que lhes tem de ser dada densidade psicológica e emocional. Tendo isso em conta, quais são então as principais virtudes e os principais defeitos deste seu Pedro Álvares Cabral?

O Pedro Álvares Cabral, sempre digo, é o herói português mais conhecido e menos conhecido da História portuguesa. Toda a gente sabe que o Cabral chegou ao Brasil em 1500, mas tirando isso ninguém sabe mais nada, ou seja o que ele fez antes e depois. Eu portanto resolvi fazer uma investigação muito grande sobre a sua vida e ele revelou-se um personagem fantástico. Para já, ele não era nenhum navegador como nós julgamos. Ele foi um homem que saiu de Belmonte, no interior do reino, foi estudar para Lisboa com catorze anos. Estudou o que havia para estudar na época com os grandes sábios da corte e depois, como qualquer nobre, armou-se cavaleiro nos combates, no caso dele, em Marrocos, onde esteve oito anos. Ele percebe, portanto, mais de areias do deserto do que de água salgada do mar. Cabral não era um navegador. Quando ele assume o comando da armada, assume-o como um representante do rei, um embaixador, não como um capitão do barco. Aliás o seu próprio barco tinha outro capitão. O cargo de Cabral é político. Quais são então as suas grandes qualidades? Primeiro, ele tinha uma formação diferente da dos outros. Era um humanista, um religioso, um líder de homens, provou-o em combate. Tinha uma figura imponente, era um homem muito alto para a época. Essas qualidades fizeram dele um bom embaixador. Quais eram os seus aspetos mais negativos? Bom, ele em Marrocos apanhou umas febres e, de vez em quando, elas lá regressavam e ele quase que mudava de personalidade, tornando-se uma pessoa muito mais dura, mais feroz. Havia como que uma bipolaridade que às vezes vinha ao de cima. Mas, no cômputo geral, Cabral era um humanista, e ele provou isso na forma como por exemplo tratou os indígenas no Brasil, com todo o respeito e sem levantar uma arma contra eles durante os dez dias que esteve no Brasil. Já o Colombo quando chega à América diz que encontrou animais selvagens e sem inteligência. O Cabral, por outro lado, teve uma postura completamente diferente. Chegou lá e tratou-os como sendo representantes de um outro povo, com todo o respeito e não permitiu que trouxessem índios do Brasil para Portugal para serem mostrados na corte como animais exóticos.

 

Esse é um grande contraste com a personalidade histórica do Vasco da Gama que, na realidade, se encontra bastante longe da figura idealizada que nos é ensinada na escola.

Depois do “Vera Cruz”, eu escrevi outro livro, “Índias”, esse só dedicado ao Vasco da Gama, realmente uma figura oposta. Nós muitas vezes estudamos as coisas separadas e esquecemo-nos que Cabral e Vasco da Gama são contemporâneos, lutaram na mesma época para serem a pessoa mais importante do reino. Eles foram rivais. Numa primeira fase, Vasco da Gama vai à Índia e regressa como um verdadeiro herói, mas depois quando o rei envia uma nova armada à Índia escolhe o Pedro Álvares Cabral. Ora foi aqui que eu comecei a investigar. Então porque é que sendo o Gama o grande herói não foi ele reconduzido na armada. Por que razão foi o Cabral? Foi então por aqui que eu comecei a investigar estes dois personagens. Na verdade, eles são muito diferentes. Vasco da Gama, sim, é um marinheiro, um navegador, um homem que tem os estudos do mar, mas não outros, e portanto tem uma atitude completamente diferente. A primeira viagem à Índia não lhe correu tão bem como as pessoas dizem. E a História de Portugal raramente conta que ele voltou à Índia uma segunda vez, porque essa segunda viagem ainda hoje é considerada a época do terror na Índia.

 

Então o Cabral era um verdadeiro humanista e o Gama tudo menos isso.

Tudo menos isso. É quase profano dizer isso em Portugal, mas a verdade é que ele tem um percurso muito complicado.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próxima convidada: Ana Milhazes, autora de “Vida Lixo Zero”

Quarta-feira, 04 de março, 9h30

Domingo, 08 de março, 14h25

 

Cultura
X