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Em “Les Disloquées”, o seu primeiro romance, Joëlle Nascimento oferece-nos uma intriga alicerçada numa abordagem diferente e inovadora da emigração portuguesa em França. Feminina e contemporânea – visto girar em torno de Milène e Edite, mulheres profundamente modernas – a história é tomada por um salutar vazio masculino. Joëlle Nascimento, considerando que tanto a Literatura como a História da Emigração já está carregada de presença masculina, resolveu então colocar os homens em suspenso e dar voz às mulheres.

É portanto graças a Milène e a Edite que este romance se insere na temática da procura da identidade e da transmissão cultural.

Milène é uma advogada de 40 anos que viveu em Portugal até aos 11, idade com a qual veio para França onde, sem reservas, se deixou assimilar pela sociedade e cultura francesas. Já Edite, 20 anos, é uma jornalista portuguesa cuja mãe nasceu em França. Talvez por isso, ela tenha resolvido vir a França fazer uma reportagem sobre mulheres lusodescendentes. É nesse momento que as duas mulheres se conhecem e se tornam amigas, uma amizade que as levará a fazer as pazes com o seu passado, abordando as dificuldades e os desafios da parentalidade no seio das famílias multiculturais.

Um romance que funciona como um vaivém entre a França e Portugal, entre as duas culturas, que abarca diferentes gerações e que tenta combater certos clichés, que ainda persistem na sociedade francesa, sobre Portugal e os Portugueses. Estereótipos que para os Portugueses que cresceram no pós-25 de Abril não passam, no mínimo, de puros anacronismos, mas que provam a resiliência dos estereótipos, por mais disparatados que sejam.

 

No lançamento deste livro, avançaste com uma questão que eu achei muito interessante e que funciona no fundo como premissa da obra. Vou portanto pedir-te que respondas à tua própria pergunta: poderá uma mulher amputada da sua cultura e da sua língua de origem ser uma mãe completa?

É uma questão que é muito complicada. Na verdade, é muito difícil ser mãe sem saber exatamente quem nós somos. As mulheres que emigraram estão muitas vezes abstraídas da cultura de origem e nem sequer tiveram tempo de a conhecer. E ao chegarem a outro país, elas têm de continuar a viver e a construir a sua família. Por isso mesmo, quando se envereda pelos caminhos da emigração, os pais e os filhos veem-se muitas vezes separados. Acontece que por vezes é a família mais alargada que toma conta das crianças e não os pais. Existem inúmeros casos na emigração portuguesa de pais e filhos que foram separados. É por isso que acho que, mesmo nas mães de segunda geração, é difícil ser mãe sem saber de onde vimos.

 

Outro elemento muito tocante neste teu livro é este vazio masculino que atravessa a obra e que é também muito diferente da tradicional abordagem à temática da emigração que, quase sempre, secundariza o papel da mulher. Estás de acordo?

Sim, fi-lo voluntariamente.

 

Foi voluntário, claro… Isso terá a ver, calculo eu, com o teu ativismo feminista. Esta ausência de personagens masculinos é uma tentativa de equilibrar a balança?

Eu pretendi dar outra imagem da experiência da emigração. Optei por dar voz às mulheres. É verdade que na Literatura, na sociedade de uma maneira geral, não se dá ainda voz às mulheres. Eu quis enfatizar não apenas a voz das mulheres, mas também a das crianças. Normalmente, quando se fala da emigração, refere-se a emigração dos pais, mas as crianças também emigraram e emigram. Eles não se limitam a seguir os pais. O sentimento de abandono, de perda da cultura são emoções igualmente vividas pelas crianças. E eu quis dar voz tanto às mulheres como às crianças nesta história da emigração portuguesa em França.

 

Tu própria, Joëlle, vieste para França aos 11 anos.

Sim, é verdade.

 

Foi por isso que, ao ler o teu livro e ao seguir as peripécias de Milène, não pude deixar de pensar na tua própria biografia. Posso dizer que a Milène é uma espécie de alter ego?

A bem dizer, ambas as personagens, a Milène e a Edite, são alter ego. É verdade que a minha história pessoal se aproxima mais da história da Milène. A Edite é um “fantasma”, é uma maneira de me perguntar: “o que se teria passado se eu tivesse ficado em Portugal, se eu não tivesse seguido a minha mãe para França? Como seria a minha vida?” Vê-se bem que não existe escolha ótima, que em ambos os casos a situação é complicada. E a questão da identidade está no centro.

 

Então, se percebi bem, tu, no fundo, projetaste essa especulação de como seria a tua vida se tivesses ficado em Portugal, na personagem da Edite. É isso?

É isso mesmo!

 

Que interessante. Não tinha pensado nisso. Outra coisa que se nota no teu livro é que não fugiste à questão dos estereótipos que afetam os imigrantes na sua globalidade. Não só em França, mas também em Portugal, ou em outro qualquer país, os imigrantes sofrem com os clichés que tendem a menorizá-los. Sofreste com isso durante a juventude ou foi algo que nunca te afetou?

Pode afetar de maneira diferente, mas afeta toda a gente. Por exemplo, quando eu dizia o meu nome, e isso aconteceu a todos, que me chamava Joëlle Nascimento, as pessoas perguntavam sempre “ah, mas de que origem é?”. E quando eu respondia que era portuguesa, elas replicavam “ah, mas não se nota”. E nessa pequena frase, “não se nota”, mesmo que as pessoas o digam de maneira simpática, se pensarmos bem, é muito, é muito…

 

É desagradável, é muito desagradável.

Para mim, sim, é desagradável. Então os Portugueses como é que devem ser? Eu ficava muito espantada de constatar como é que alguns Franceses, que conviveram tantos anos com Portugueses, conheciam tão pouco de Portugal, tão pouco da cultura, das artes portuguesas. É verdade que o trabalho que faço na rádio vai também nesse sentido de promoção cultural e é por isso que no meu romance existem muitas referências culturais, música, pintura… Portugal não é só desporto, bacalhau e pastéis de nata…

 

E os pastéis de nata são um fenómeno bastante recente.

Sim, ainda por cima. Portugal tem uma História, não é só praia e sol.

 

Mas notas uma mudança? Talvez os Franceses da nossa geração e os mais jovens já tenham um conhecimento menos deturpado do que é Portugal.

Julgo que começam a ter um conhecimento mais profundo. O turismo entre a França e Portugal está muito desenvolvido. Os Franceses que visitam Portugal começam a conhecer certas coisas. Há poucas semanas, eu estava no Porto e ouvi um grupo de Franceses sentados num restaurante a dizer “vamos pedir uma sangria”, pensando que a sangria é uma bebida portuguesa. Ainda há muito trabalho a fazer. Portugal ainda é um apêndice de Espanha.

 

Bom, para terminar, tens previstas apresentações do romance na região de Paris?

Estou a organizar um pequeno evento no centro de Paris onde possa apresentar o livro enquanto comemos uns petiscos simpáticos, portugueses. E depois outras apresentações em livrarias. A seu tempo anunciarei tudo.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado: João da Silva, autor de “Quantas vidas temos?”

Quarta-feira, 22 de maio, 9h30

Domingo, 26 de maio, 14h25

 

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