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“Um muro no meio do caminho” é o mais recente romance de Julieta Monginho. Escritora e magistrada do Ministério Público, começou a sua carreira literária em 1996 com o romance “Juízo Perfeito”, culminando em 2008 com a atribuição do Grande Prémio de Romance e Novela ao seu sexto livro, “A Terceira Mãe”.

“Um muro no meio do caminho”, publicado há alguns meses pela Porto Editora, parte da reflexão da autora sobre um dos mais dramáticos problemas dos nossos dias: os milhares de refugiados que ora ficam bloqueados às portas da fortaleza Europa, ora morrem afogados nas águas do Mediterrâneo.

Esta reflexão de Julieta Monginho todavia não é um mero exercício intelectual que parte da subjetividade do seu olhar distante sobre o fenómeno. Não. Este “Um muro no meio do caminho” parte da sua experiência pessoal.

Em 2016, Julieta Monginho, cidadã preocupada com o andamento do nosso tempo, decidiu partir para a ilha de Chios, na Grécia, e contribuir com o seu trabalho voluntário para ajudar aqueles que, tal como fizeram milhões de europeus no passado, fogem da guerra e da miséria em busca de uma vida melhor.

Um romance que cumpre aquele que deveria ser o grande objetivo da literatura: pensar o nosso tempo e provocar no leitor a inquietação necessária para interrogar o mundo.

 

Julieta, nós vivemos num mundo que, graças à evolução científica e tecnológica, se apequenou. Ora esse encurtar de distâncias contudo não fez com que o cidadão ocidental, que em regra tem uma vida de paz e abundância, tenha aumentado o seu grau de empatia para com aqueles que fogem da guerra e da miséria, mesmo que veja o seu sofrimento todos os dias exposto nas televisões. Essa aproximação espacial, por um lado, versus um distanciamento emocional, por outro, é um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Dito isto. O que é que levou a Julieta a escapar a essa indiferença generalizada e a partir para a Grécia como voluntária?

Foi um impulso cidadão. É uma questão que me vem preocupando há alguns anos. Também do ponto de vista profissional estou preparada para olhar o olhar do Outro e as suas emoções. Tudo isso conflui em mim essa vontade de estar com o Outro e de ser um pouco mais Outro em mim e vice-versa. É importante esbater essas barreiras entre mim e o Outro. É isso que é aliciante na escrita e na vida. Como temos assistido nestes últimos tempos, estas deslocações forçadas de pessoas, para quem as distâncias são mais longas do que eram em tempos. Disse há pouco, e com muita razão, que o mundo é mais pequeno. E é-o porque estamos ligados, ou poderemos estar ligados a toda a gente instantaneamente, mas sempre de uma maneira muito superficial. Para conhecermos o Outro, para podermos perceber o que o Outro é em nós e o que nos pede, nós precisamos de relações mais profundas. Foi esse encontro que eu pretendi fazer quando me desloquei à Grécia.

 

E aquelas vidas que retrata no livro são reais ou inteiramente ficcionadas?

No final do livro, eu deixei uma nota que nenhuma vida é transcrita da realidade para o livro. Mas claro que algumas figuras são transfiguradas, digamos assim, de pessoas que efetivamente lá conheci. Outras vieram povoar esse universo através da minha invenção, da imaginação da escritora, porque se conjugavam num universo próprio que é o do livro. O livro não é o universo dos campos de refugiados. O livro é o universo dos campos de refugiados que eu lá conheci, mas transfigurados pelo meu olhar, pela minha imaginação e mesmo por outras vivências que não são exatamente aquelas. Algumas das figuras são muito inspiradas em pessoas que lá conheci.

 

Sim, os personagens são transfigurados, mas ao ler o livro fiquei com a impressão que uma tal de J., uma personagem importante, é a própria Julieta. Estou certo ou errado?

Está muito certo. Aliás, eu assumo isso inteiramente. J. é uma entre muitos e J. sou eu, efetivamente. Tenho um capítulo só para ela precisamente por uma questão de lealdade para com o leitor porque eu não entendo a literatura como um recado para o mundo ou para os leitores. A literatura é tudo o que quisermos ver sobre a condição humana, mas quando há personagens a falar elas têm as suas vidas próprias e temos de respeitá-las. O próprio escritor tem de as respeitar. Se eu, Julieta Monginho, quiser expressar as minhas ideias, escreverei ensaios ou farei uma outra coisa qualquer. E, no caso deste livro, eu assumi essa personagem, que é uma personagem com opiniões, que são as minhas. Digamos portanto que é um capítulo muito autónomo relativamente ao universo diegético… empreguei este palavrão…

 

Está a referir-se ao universo da narrativa…

Exatamente.

 

Há uns tempos li uma entrevista que deu a um jornal português e na qual tocou num tema que aqui em França faz, fez e, creio, continuará a fazer correr rios de tinta: a questão do hijab islâmico. Uns querem proibir as mulheres de usá-lo e outros, pelo contrário, querem obrigá-las a usá-lo. Dê-nos a sua opinião. Não considera que tanto uma como outra posição, no que ambas têm de impositivo, desrespeitam o essencial, que é a liberdade da mulher?

Eu penso que sim. Como mulher e como pensadora, constrange-me muito pensar que as mulheres estão constantemente a ouvir mandamentos. Faz assim, veste-te assim. É certo que o hijab não é uma peça qualquer, não é como dizer usa uma minissaia ou não uses uma minissaia, embora esteja relacionado. O hijab é visto como um símbolo de uma determinada cultura e essa cultura também tem os seus problemas. Não vamos falar deles aqui neste espaço tão curto. Eu também compreendo aqueles que não gostam de ver aquilo que consideram ser o símbolo de uma cultura que diminui o papel da mulher, e não gostam de as ver usar esse símbolo. Mas, por outro lado, depois de conhecer algumas pessoas que, tendo sido formadas na mesma cultura, umas usam hijab e outras não, estou plenamente convencida que, sendo certo que o hijab pode chocar algumas pessoas, a liberdade de uso se deve sobrepor. Porque muitas vezes para as mulheres que o usam não é um símbolo de nada. É apenas um adereço que, algumas das raparigas com quem contactei, usavam com quem por aqui usa um brinco, uma pulseira. Em todo lado, na internet, mostram os modelos que favorecem mais, os que favorecem menos. É como um adereço normal. Essa subversão da cultura de submissão da mulher feita pelas próprias é muito interessante.

 

Existe um argumento que é muito usado em França contra quem pretende proibir o hijab e que consiste em dizer isto: proibir o hijab seria apenas trocar uma prisão de tecido por uma prisão de tijolo. Querendo isto, claro, alertar para o facto de que as mulheres proibidas de usarem o hijab na rua, seriam forçadas pelas famílias a ficar em casa.

Confesso que a realidade francesa é tão diferente da realidade portuguesa que não são comparáveis. Esta convivência diária em Portugal é muito residual e a minha convivência foi muito curta para poder falar sobre o impacto que essa entrada… não direi massiva porque não é massiva, mas, enfim, com um número já grande de pessoas que vêm desafiar-nos no comodismo da nossa própria cultura… mas claro que essa convivência poderá ter aí um impacto maior e não posso esquecer de maneira nenhuma que em território francês o fundamentalismo islâmico cometeu horrores e que essa ferida terá de certeza absoluta atingido o coração das pessoas, tal como atingiu o nosso e o de toda a Europa. O que eu de todo rejeito é a equivalência entre fundamentalismo islâmico e a chegada de refugiados, de pessoas que vêm em condições terríveis e que têm direito ao seu asilo. É verdade que a cultura que trazem poderá ter aspetos que são chocantes, mas a questão do hijab não me choca em nada. Claro que me parece evidente que um refugiado ou um imigrante que queira estabelecer a sua vida num país com uma cultura muito diferente da sua, também se tem de adaptar a algumas regras, sobretudo às básicas, aquelas que fazem parte de um acervo cultural e civilizacional. Portanto, nós devemos, na minha perspetiva, respeitar a cultura das outras pessoas desde que ela não contenda com valores absolutamente, direi, sagrados, não do ponto de vista religioso, mas do ponto de vista ético dos povos da cultura ocidental, digamos assim, do estado de direito democrático. Existem algumas práticas da cultura islâmica, felizmente residuais, mas que existem, como a mutilação genital feminina. Por exemplo, seria absolutamente impossível, em nome da aceitação de uma cultura, aceitar-se um crime como a excisão. O relativismo cultural não é o meu campo. Eu defendo que se deve aceitar alguns aspetos que não contendem com esse acervo essencial de direitos, liberdades e garantias das pessoas.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próxima convidada: Elisabete Soares, da livraria “La Petite Portugaise” de Bruxelas

Quarta-feira, 28 de novembro, 9h30

Domingo, 02 de dezembro, 14h25

 

 

 

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