Nuno Gomes Garcia conversa com Leandro Garcia: “Padre António Vieira tentou justificar a escravidão do africano”

Leandro Garcia é professor de teoria Literária da Universidade Federal de Minas Gerais, diretor do Acervo dos Escritores Mineiros e especialista em epistolografia. É também autor de um livro recente que trata a correspondência entre Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima, dois mestres da Literatura Modernista brasileira e lusófona.

Leandro Garcia também estudou a obra de um dos grandes clássicos do século XVII e, se quisermos, um dos alicerces fundamentais da língua portuguesa e das literaturas feitas na nossa língua comum. Falo de padre António Vieira.

O padre António Vieira, que viveu entre 1608 e 1697, é uma referência da cultura barroca, mas também da política e da formação das identidades lusófonas, não fosse ele um fruto do Império português e do colonialismo. A ideia, real e/ou mítica, que ainda hoje fazemos dele dá azo a lutas entre diferentes fações ideológicas. Lembro-me por exemplo das recentes manifestações em Lisboa, a propósito da recente estátua erguida em sua homenagem, e que opôs neofascistas a antirracistas.

Mais de 320 anos após a sua morte, a figura do padre António Vieira continua, portanto, a despertar paixões em ambos os lados do Atlântico.

 

Leandro, há uns tempos estiveste em Cabo Verde a dar umas palestras sobre o padre António Vieira. Ele passou uma temporada no arquipélago, em 1652, antes de partir para o Maranhão. Fala-nos da sua importância para a Literatura brasileira.

O padre Vieira aqui no Brasil é muito cultuado, especialmente pela escrita dos seus Sermões. É impossível estudar Literatura barroca no Brasil sem falar no padre Vieira. Agora, na sua introdução você falou muito bem. Ele é um personagem que desperta ódios e paixões. No Brasil, na atualidade, muitos grupos, ligados aos estudos culturais, refutam a obra do padre Vieira e o acusam inclusive de racismo. Segundo esses grupos, o padre António Vieira, em alguns dos Sermões, tentou justificar a escravidão do africano, despertando a ideia de que a escravidão era algo de necessário para a expiação dos pecados.

 

Sim, lembro-me que nos “Sermões do Rosário” pregados aos escravos brasileiros, o padre António Vieira dizia que a escravidão dos negros não era um castigo, mas sim um privilégio, uma forma de expiarem o pecado em que viviam devido à sua gentilidade, ao seu paganismo. Chega mesmo a comparar a vida dos escravos à Paixão de Cristo. A fome, os açoites, a tortura, tudo isso foi aceite por Cristo para que o seu martírio fosse um exemplo para a humanidade. Essa paciência, essa resignação, também os escravos as deveriam demonstrar se almejassem a Salvação.

É exatamente isso. Vários discursos do padre Vieira justificam o uso da violência, porque a violência seria uma forma de expiação dos pecados e uma via rápida e certeira para o Reino de Deus. Então, por isso mesmo, ele, hoje em dia, desperta a raiva de alguns grupos, mas em compensação outros grupos, defensores da obra do Vieira e da sua pessoa, sempre dizem que devemos pensar no tempo dele, no século XVII, principalmente porque as conceções de escravidão e de liberdade da época do Vieira não têm nada a ver com as nossas conceções contemporâneas de escravidão e de liberdade.

 

Leandro, em Portugal, quando estudamos a obra do padre António Vieira, ficamos quase sempre pelo panegirico, pelo elogio… assim algo desmiolado, para ser franco, sem qualquer espírito crítico. Que ele era um grande orador, certamente que sim, um humanista, tenho dúvidas, um antiesclavagista, tenho ainda mais dúvidas… O António Vieira, na verdade, é bastante contraditório nos seus textos, por um lado, defende os ameríndios, mas, por outro, faz os possíveis para legitimar a escravidão dos negros. A que se deve essa legitimação da escravatura do africano?

Sim, isso aconteceu, está certíssimo. Na época, havia uma problemática teológica, nos séculos XV, XVI e XVII, em relação aos negros, à população africana. Acreditava-se que a população africana era descendente de Cam, o famoso filho maldito de Noé. Então aquela população africana estava mais exposta, digamos assim, a um pecado histórico, um pecado até antropológico devido a essa ascendência. Daí a escravidão dessa população ser justificada por alguns como uma forma de expiar os pecados, de os conduzir à Salvação. Ao contrário, os indígenas americanos, particularmente no Brasil, estavam fora dessa ascendência maldita com origem em Cam. Automaticamente, os índios estavam numa espécie de novo Paraíso que era a natureza brasileira e americana. Havia então essa justificativa teológica para se aceitar a escravidão africana e não apoiar a escravidão indígena.

 

Havia portanto uma tentativa de “desafricanizar” o africano?

Exatamente. Na verdade, era uma contradição moral e ideológica. Porém, uma coerência teológica para a época.

 

Leandro, hoje, seguindo um pouco a tradição da tese lusotropicalista do Freyre, existe uma certa elite portuguesa (parece-me que no Brasil também existe essa franja, mais ligada à direita e à ultradireita bolsonarista) que refere que o colonialismo português foi diferente dos outros. Mais brando e menos violento. Essa tal elite diz que os Portugueses, ao contrário das outras potências europeias, eram, por exemplo, mais tolerantes, abertos e que até se miscigenavam com os outros povos, esquecendo que essa miscigenação assentava quase sempre no sexo forçado e na violação da mulher dominada. Não te parece tudo isto a negação da própria verdade histórica?

É uma total negação da verdade histórica. Você está certo quando refere a ultradireita brasileira e a prova disso é a eleição do atual Presidente Bolsonaro. Essa ultradireita, na minha opinião, tem um projeto que é o de “desistorização”. Ou seja, pretendem “desistorizar”, apagar as verdades históricas e minimizar os erros, especialmente minimizar o processo colonial. Nós temos vários historiadores respeitados no mundo inteiro cujas obras atestam a violência do colonialismo. E não importa se foi português ou espanhol, houve uma grande violência antropológica.

 

Sim, está mais do que provado que, por exemplo, de todas as potências europeias, foram os Portugueses que transportaram mais escravos negros para a América durante os séculos XVI, XVII e XVIII. Fala-se em 12 milhões no total. Foi uma sangria do continente africano e da qual os países africanos ainda sofrem as consequências.

O valor aproximado é esse. Entre 11 e 12 milhões de Africanos desceram nos portos brasileiros e foram escravizados. Quando se decretou o fim da escravatura no Brasil em 1888, existiam cerca de 20 mil pessoas escravizadas. Porém ao longo dos séculos foram cerca de 12 milhões.

 

Vamos colocar de lado o padre António Vieira e vamos falar um pouco do teu mais recente livro sobre a correspondência entre Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima. Explica-nos quem eram estes dois importantes modernistas brasileiros.

Nós consideramos Mário de Andrade o principal modernista brasileiro. O nosso Modernismo no Brasil começou no ano de 1922 com a famosa Semana de Arte Moderna, cujo artificie foi Mário de Andrade, juntamente com outros escritores. Ele é o autor de um romance, o “Manucaíma”, que nós consideramos o divisor de águas da nossa modernidade. Já o Alceu Amoroso Lima foi o principal crítico literário desse período do nosso Modernismo, nos anos 20, 30, 40. A importância deles é grande. O Mário produzindo uma Literatura Modernista diferenciada e o Alceu compreendendo essa Literatura à luz da crítica literária que ele empreendeu. Então eles trocaram uma correspondência ao longo de 25 anos e essa correspondência inédita é a que sai agora publicada neste meu livro.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado:

Quarta-feira, 27 de fevereiro, 9h30

Domingo, 03 de março, 14h25

 

 

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