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Manuela Gonzaga – autora de mais de uma dezena de livros, que vão desde a literatura infantojuvenil à biografia, passando pelo romance – nasceu no Porto e passou uma boa parte da sua juventude em Angola e Moçambique. Estudou História da Expansão Europeia, é ativista política e acaba de ver lançada mais uma das suas obras em França.

Editada em Portugal com o título «Doida não e não», a obra já vai na sua oitava edição e chega agora, através da editora «Le Poisson Volant», às livrarias francesas com o título «Lucide Folie».

Portugal, 1918. É tornado público o escândalo do século em Lisboa: o adultério de Maria Adelaide da Cunha! Uma mulher da alta sociedade, de 48 anos, casada, herdeira da fortuna do fundador do «Diário de Notícias», resolve abandonar a família (o marido e um filho de 26 anos de idade) e fugir com Manuel Claro, o seu antigo motorista, 22 anos mais novo.

Descobertos a viver em Santa Comba Dão, os adúlteros são castigados. Manuel Claro passa quatro anos na Cadeia da Relação no Porto, condenado por adultério, e Maria Adelaide, considerada louca, é sujeita às mais atrozes torturas médicas no Hospital Conde Ferreira, das quais foram cúmplices Egas Moniz e Júlio de Matos, médicos que ficaram na História, o primeiro até por ter vencido o Prémio Nobel da Medicina.

«Lucide Folie» é um retrato fiel e cru sobre a discriminação da condição feminina no começo do século XX.

 

Manuela, ao ler o livro, fica-se com a sensação de que existem duas Marias Adelaide. A primeira, até aos 48 anos de idade, vive num palácio luxuoso, é riquíssima, e passa a vida a dar festas. Já a segunda Maria Adelaide, aquela que se apaixona pelo chauffeur, resolve viver, em nome do amor, uma pobreza que desconhecia e, por causa disso, é internada num manicómio. A decisão de tudo abandonar por estar apaixonada é muito rara à época. De onde lhe veio a coragem?

Eu penso que ela teria um casamento de fachada. Ela queixa-se muito da frieza do marido, mas, até por uma questão de educação, só as pessoas muito chegadas estariam ao corrente do teor desse relacionamento. Aos olhos de toda a gente era um casal perfeito. Eles davam festas magníficas no palácio, por onde passava toda a gente, inclusivamente Egas Moniz. Ela era uma ótima declamadora, até dos poemas do marido, que era poeta, além de administrador do «Diário de Notícias». Em cartas que eu compilei, ela falava no fadário das festas, das viagens… A cultura dela era francamente bilingue. Em Portugal, naquela altura, o francês era a segunda língua das elites. A Adelaide ia muito a França de férias, ver bons espetáculos de teatro…

 

Era costume na elite da época virem cá…

Sim, era costume, era… Toda essa francofonia era muito vivida na alta sociedade. A Maria Adelaide, durante a Grande Guerra, fica muito preocupada com a possibilidade de ver o filho mobilizado para o conflito e é então que se aproxima do motorista. Uma aproximação que é muito inocente, porque a diferença de idades é tão grande que estariam à vontade entre eles nesse aspeto. Ela poderia partilhar com ele a maneira como era tratada pelo marido. Ele era um observador e sabia o que se passava. Também há outras afinidades. O Manuel era uma pessoa diferenciada. Era culto, lia muito e estava ligado a movimentos anarcossindicalistas. Bem, ele é despedido e eles encontram-se depois por acaso na rua. Voltam a estreitar relações e nessa altura então nasce mesmo uma história de amor, em que eles se encontram num quartinho alugado na Baixa de Lisboa. Eu tenho essas moradas, porque está tudo nos relatórios da polícia. O Manuel caiu à cama doente, a morrer com a gripe espanhola. Ou seja, isto é completamente romântico. A Maria Adelaide passa a sair todos os dias de casa, pobremente vestida, o que chocava as pessoas, porque, na verdade, ia ter com o amante ao quartinho na rua de São Nicolau tratar dele. E arrancou-o das garras da morte. Tudo isto tornou a paixão num sentimento muito mais forte. Foi amor. Mas ela não quis viver aquela história como muita gente da alta sociedade vivia: estar com o amante, mas continuar com a sua vida em família. Para ela era impossível viver um amor daqueles e manter uma fachada.

 

Ela foi acusada de «crime de amor»?

Essa é a maneira irónica como ela responde aos alienistas, os psiquiatras da época. É a Maria Adelaide que utiliza a expressão. Porque, na verdade, é isso mesmo. Uma senhora, com aquela idade, que se apaixona, só pode ser doida. Uma senhora naquela idade deveria estar a caminho da menopausa. A menopausa torna as mulheres loucas. É muito engraçado. Eu sou historiadora e andei a enquadrar o estudo desta biografia à luz da ciência. Desde Hipócrates que a mulher é considerada uma eterna doente. A menstruação é doença. A menopausa é doença e as mulheres ficam loucas, não é? Depois ter filhos, com todo aquele aparato, é uma doença. E tudo isso torna a mulher no sexo fraco. É com base em tudo isso que os médicos declaram que a Maria Adelaide enlouqueceu. É muito engraçado ler os relatórios médicos. Bem, chegam então à conclusão de que o Manuel abusou dela. Ele usou uma senhora naquelas circunstâncias e ela acabou num hospício. Entretanto, com a ajuda dele, ela consegue fugir, mas são apanhados e é aí que o Manuel é preso, sendo acusado de a ter mantido em cárcere privado. Já a família mantém-na em cárcere público, num hospital alienista que é sinistro.

 

Apesar de vivermos, hoje, numa sociedade onde a equidade de género atingiu níveis nunca antes vistos, a mulher, mesmo na Europa Ocidental, ainda é bastante discriminada. Nos nossos dias, como é que fica a reputação de uma mulher que abandone os filhos? E a reputação de um homem que faça o mesmo? São coisas comparáveis?

Ela não abandonou um bebé. O filho tinha 26 anos e também passava a vida nas festas. O que é mais chocante para aquela gente é o facto de ela ser rica e preferir viver com um pobre. Isso ninguém entende, é como dar uma bofetada no estatuto social a que ela pertence. Depois, abandona um palácio para viver numa casa muito modesta. Abandona as peles, os luxos, as joias… O marido não a deixou levar nada. E ela não se importa de viver na pobreza, o que lhes permite dizer que ela só pode mesmo estar louca. Hoje em dia, o que acontece, e que é muito preocupante, é a violência de género que vitima as mulheres. Quando elas os deixam, eles vão atrás delas com ácidos, caçadeiras, ameaças… A mulher também tem de tomar consciência de si própria enquanto pessoa. Existem comportamentos inaceitáveis que se perpetuam de mãe para filha. Mesmo hoje, miúdas universitárias consideram natural a violência de género no namoro, acham normal ter um namorado agressor.

 

A Manuela é uma das caras do PAN – Partido Pessoas-Animais- Natureza. Normalmente, os escritores têm receio quando se tornam politicamente interventivos. Existem muitos que pensam assim, é verdade. É possível conciliar o papel de escritor com o papel de ativista político?

Eu fui candidata presidencial pelo PAN às últimas eleições. Depois, eu retirei-me dos cargos políticos porque nós já temos um Deputado no Parlamento. Eu sou uma militante de base. Eu abracei o PAN porque é um Partido de causas – a causa animal, a causa ambiental -, mas, neste momento, estou mais envolvida noutras causas, que não vou referir aqui, e o PAN está a seguir o seu caminho. Eu sou uma ativista. Eu acho que ainda não conhecia esse nome e já o era. Penso que isso é visível na minha escrita. Nas biografias que escolho para tratar. Pode parecer uma escolha aleatória, mas os personagens vêm ter comigo. A minha próxima biografia, por exemplo, é sobre o António Variações. São todas pessoas que eu encaro como faróis. Ou seja, são precisos modelos sociais que os mais jovens não têm e não cultuam. Os meios audiovisuais apenas fornecem utopias vazias de conteúdo, de uma pobreza atroz, e que são apresentadas como pessoas interessantes e acumuladores de riqueza. Ora, uma pessoa muito rica que não fez nada para ser muito rica e que se limita a mostrar carteiras de luxo, viagens e outras coisas algo fúteis, que não mostre nada de interessante, é uma pessoa que se limita a acumular, é o mesmo que levar para casa todo o lixo que se encontra na rua.

 

Depreendo dessas palavras então que não há nada de incompatível entre ser escritor e, ao mesmo tempo, militante ou ativista.

Sim, claro que não há nada de incompatível. Nós não somos pessoas estanques. Agora, é capaz de não ajudar muito…

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próxima convidada: Cristina Torrão, autora de «Memórias de Dona Teresa»

Quarta-feira, 06 de junho, 8h30

Domingo, 10 de junho, 14h25

 

 

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