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Susana Amaro Velho formou-se em jornalismo e, aos 30 anos, escreveu o seu romance de estreia, «As últimas linhas destas mãos», publicado pela Coolbooks no ano passado.

O enredo, denso e pausado, decorre numa atmosfera nostálgica e melancólica e é o fruto de um amor impossível e reprimido ao longo de três décadas, perdurando, porém, nas cartas secretas escritas por Alice, uma das personagens.

Durante esses 30 anos, Alice construiu uma vida de fachada e manteve um casamento de conveniência. Após a sua morte, um suicídio, é à sua filha Teresa que cabe o legado destas cartas escondidas e, graças a elas, Teresa verá a sua existência transformada.

 

Susana, quando li o teu livro, que tem aquele tipo de estrutura que eu gosto, com várias perspetivas, com avanços e recuos, devo admitir que fiquei espantado. É raro encontrar tanta densidade emocional numa escritora tão jovem. De onde te vem essa capacidade de introspeção? Começaste a escrever muito cedo, não foi?

Talvez venha do facto de ter começado a escrever cedo. Eu tenho um defeito, ou virtude, depende da perspetiva… eu sou muito observadora e quando lido com as pessoas gosto sempre de perceber o que é que lhes vai na cabeça, de tentar decifrar as pessoas à minha volta. E a escrita desse livro começou precisamente porque tinha uma pessoa muito próxima que se suicidou, a mãe de uma amiga de infância. Eu andei a matutar naquilo imenso tempo. O que é que levava uma pessoa a fazer aquilo? O que é que passa pela cabeça de uma mãe que deixa uma filha? Portanto, foi um bocadinho por isso. Eu gosto de dissecar as pessoas e os lugares e transpor isso para palavras. Talvez seja por isso que sou muito detalhada.

 

 

É mais do que o detalhe. Tu consegues dar grande densidade aos personagens e isso é muito difícil. Em relação a uma das tuas personagens, a Alice. Pode dizer-se que ela morreu de amor, destroçada e deprimida. Tu achas que a falta de amor pode matar?

Eu acho que sim. Eu tenho essa convicção. Nós na vida temos que ter sempre um propósito. E o maior propósito da vida é o amor. O amor familiar, a relação pessoal com outro. Uma pessoa que sinta uma grande carência de afeto, de tal forma que não consegue agir, viver a sua vida, não consegue ter uma rotina. Não consegue amar os filhos. Tudo isso porque tem ali aquele nó por desatar. Por tudo isso é possível morrer de amor, sim. É fundamental que exista amor na vida das pessoas. E sem ele…

 

E sem ele podemos morrer…

Sim, exatamente. Não há estrutura. Há quem compense com o campo profissional. Existem formas de colmatar. Mas não é a mesma coisa. O amor é tudo. E eu sou uma apaixonada.

 

Nota-se na maneira como falas. Outra coisa que se nota no teu livro. Bem, não seremos nós a revelar o desenlace do romance, mas pergunto-te na mesma: foi-te difícil, como autora, preservar o mistério sobre o verdadeiro destinatário das cartas?

O meu principal propósito ao escrever este livro não foi que tivesse uma componente de suspense ou um final inesperado. Eu, de algum modo, tentei criar esse mistério, mas o meu objetivo era levar as pessoas a pensar o quão ténue é a linha que separa o amor do ódio. O perdão da mágoa. O que eu queria era que as pessoas refletissem e percebessem, ao longo do desenrolar da obra e das cartas, que realmente nós nunca conhecemos verdadeiramente os outros ou o que está à nossa volta. E, por isso, temos de fazer esse exercício de tentar ler o outro para aprendermos a perdoar. O que tanta falta faz à nossa sociedade.

 

Tu também geres um blogue, o «Whatsuwants», onde partilhas pequenos fragmentos da tua vida. Sentes que o blogue complementa o outro tipo de escrita, mais densa e morosa, como a de um romance, por exemplo?

Eu acho que sim. De algum modo aquele blogue surgiu pela minha necessidade de criação constante. Como não faço disto a minha vida profissional, eu tenho sempre essa tendência para ir escrevendo algumas coisas. Sempre me agarrei a diários e a folhas para ir descrevendo o que vai acontecendo na minha vida. O blogue é muito pessoal, de facto. Tem a minha opinião sobre o que vai acontecendo no dia a dia e na minha vida. Agora, falo da minha experiência de mãe com o meu bebé recentemente nascido. Falo do impacto da gravidez na minha vida. E tudo isto faz com que eu tenha vontade de escrever mais. As opiniões das pessoas também são muito positivas e elas incentivam-me a fazer mais. O blogue, sim, é um ótimo complemento que me ajuda nesta vontade que eu tenho de estar sempre a mexer com as palavras.

 

Então tens outros projetos em mente?

Tenho já um outro livro que estou a começar. Já tenho a estrutura montada e a ideia definida. Aproveitei os meses de baixa, tive de ficar em casa, para começar a alinhavar algumas coisas. Agora tive de fazer uma pausa forçada, mas sempre que posso lá vou trabalhando.

 

É um novo romance?

Será um romance histórico que abarca a ditadura do regime salazarista. Retratará, embora esteja tudo ainda numa fase muito embrionária, a história de duas primas que cresceram nessa fase. Tenho tido a ajuda da minha avó que me tem contado algumas histórias sobre a época e eu acho que é muito giro. Gostaria de fazer alguma coisa neste sentido: juventude, adolescência, idade adulta, abarcando sempre a nossa História. Quero fazer algo diferente. É esse o meu desafio.

 

Bem, Susana, chegou a tua vez de nos sugerir um livro de que tenhas gostado.

Eu estou a ler o «Duas mulheres, dois destinos» da Lesley Pearse. É o seu último romance. Sou uma grande fã sua, tenho todas as obras dela, tanto em português como em inglês. Ela consegue sempre através de uma heroína envolver-nos muito nas histórias, que acabam sempre por nos ensinar um bocadinho sobre a vida. E como eu sou uma apaixonada pela segunda guerra mundial, estou a adorar este livro.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próximo convidado:

Valério Romão, autor de «De la famille»

Quarta-feira, 04 de abril, 8h30

Domingo, 08 de abril, 14h25

 

 

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