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Mathieu Dosse foi o vencedor do prémio Gulbenkian-Books 2018 para a melhor tradução para francês de uma obra em língua portuguesa graças ao livro «Mon Oncle Jaguar & autres histoires» da autoria do grande escritor brasileiro João Guimarães Rosa, nascido em Minas Gerais em 1908 e falecido em 1967.

Esta tradução, publicada pela Editions Chandeigne, já havia ganhado o prémio para melhor tradução atribuído pela cidade de Arles em 2016.

A obra, publicada postumamente em 1969 com o título «Estas Estórias», é uma coletânea de nove contos, entre os quais se encontra o conto «Meu tio o Iauaretê», um texto maior da literatura de Guimarães Rosa e que dá o título à tradução francesa. Este conto, que usa uma palavra de origem tupi, Iauaretê, que significa «verdadeira onça», retrata a metamorfose, a bestialização, de um caçador indígena em jaguar.

A literatura produzida por João Guimarães Rosa ambienta-se quase sempre no Sertão brasileiro e destaca-se sobretudo pelas inovações linguísticas, quase sempre neologismos influenciados pelos falares regionais brasileiros e pelos arcaísmos da língua portuguesa.

 

Mathieu, o teu nome não tem nada de lusófono, mas a realidade é outra. Tu nasceste em São Paulo, viveste muitos anos no Brasil… Fala-nos um pouco do teu passado.

Eu nasci no Brasil de pai francês e mãe brasileira. Vivi lá até aos meus dez anos, estudando francês no Liceu Molière no Rio de Janeiro. Vim então depois morar na França e estou aqui até hoje. Eu já tinha duas línguas, o português e o francês, desde criança…

 

És um bilingue nativo.

É, é.

 

E foi durante os estudos universitários que te interessaste mais pela obra de João Guimarães Rosa…

Olha, na verdade, eu conheci o Guimarães Rosa antes da universidade. Eu me lembro quando estava no Rio, só para dar uma ideia de como esse livro, o «Grande Sertão: Veredas», que é um livro extraordinário, me chegou às mãos… Eu vi esse livro na estante de casa e reparei que tinha um boi na capa. Aí eu falei «não! O que é que é isso?! Isso é literatura regionalista. Já tem tantos bois na literatura brasileira. Não, não vou ler esse livro!». (risos) Aí, eu li a primeira página e a verdade é que não percebi nada. Então, fechei o livro e deixei de lado. E foi pouco tempo depois que alguém me falou: «mas esse livro é extraordinário. Dá alguns minutos para esse livro». Aí, eu peguei esse livro de novo e entrei no livro de uma forma extraordinária e me apaixonei por ele. É um livro de 600 páginas, enorme, e eu devo tê-lo lido em duas semanas. E foi depois, já aqui em França, que descobri que poucos conheciam esse escritor e que as traduções não eram tão boas quanto deveriam ser. Aí, comecei a estudar e a traduzir o Guimarães Rosa.

 

Explica-nos o que representa o Guimarães Rosa para a literatura feita em português.

A importância dele no Brasil é muito grande. Guimarães Rosa é o grande escritor brasileiro. Tem também a Clarice Lispector. São eles os dois polos da literatura brasileira do século XX. E esse «Grande Sertão: Veredas», publicado em 1956, é um livro essencial, é o grande livro da literatura brasileira.

 

E influenciou outros escritores?

Guimarães Rosa não tem muitos descendentes. É uma escritura tão original, tão própria…

 

Achas então que não podemos enquadrar o João Guimarães Rosa no grupo dos autores latino-americanos que trabalharam o realismo-mágico?

Eu acho que não. Os elementos fantásticos na obra de Guimarães Rosa são muito poucos… não que não estejam presentes, eles existem, mas sempre numa alternância entre o que é e o que não é. O Riobaldo, que é o grande narrador do «Grande Sertão: Veredas», é um jagunço, um bandido, e conta a história dele na primeira pessoa. E ele diz uma frase que é muito típica do Guimarães Rosa. Ele diz assim: «tudo é e não é». Quer dizer que tudo pode ser uma coisa e ser outra. Então, por exemplo, nesse livro a primeira pergunta dele é: «será que o diabo existe?». E essa é uma grande angústia para esse homem do Sertão brasileiro em finais do século XIX. E mais tarde no livro, ele decide fazer um pacto com o diabo. Ele vai na encruzilhada das Veredas e aí, no meio da noite, chama o diabo, mas o diabo não aparece.

 

E o que acontece ao Riobaldo?

Ele, quando sai dali, sai um homem diferente, muito mais forte, mais dominador. Ele vai pegar o comando dos jagunços. Mas a questão é: existiu ou não um pacto com o diabo? Então, o tal elemento fantástico está muito escondido. Além disso, o Guimarães Rosa não apanhou essa grande explosão da literatura latino-americana dos anos 60 e 70. Além de ter morrido em 1967, o facto de não ter sido muito traduzido também poder ter contribuído para não se ter enquadrado.

 

É salientando essa dificuldade de que falaste agora que vamos falar do teu trabalho, cujo instrumento é a linguagem, ou as linguagens. O Guimarães Rosa, que era um homem viajado, um diplomata, disse numa entrevista algo que me parece fazer sentido no contexto do teu trabalho e até no mundo de quem nos escuta, que é, à partida, um mundo, pelo menos, bilingue, franco-português… Ele disse o seguinte: «eu acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional». Concordas com isto?

Eu concordo. Entre os nossos auditores, já todo o mundo teve a experiência da língua estrangeira que ajuda a ter uma perceção mais nítida da outra língua, a nativa. O Guimarães Rosa conhecia, a diversos níveis, 16 línguas.

 

Algumas dessas línguas até algo obscuras…

Sim, sim. Ele estudou não só o latim e o grego, mas também o lituano, por exemplo, e muitas outras. E na obra dele tudo isso é muito escondido. Não se parece, por exemplo, com James Joyce. Você lê os livros do Guimarães Rosa e nem se dá conta desse seu grande conhecimento linguístico. Não é isso que surpreende o leitor. Mas essa ideia que ele tinha de que as línguas se podem influenciar umas às outras é muito presente na obra.

 

Falemos um pouco da penetração das literaturas lusófonas em França. Achas que a curiosidade e o interesse dos leitores franceses pelas nossas literaturas tem aumentado?

Os grandes escritores de língua portuguesa que são agora lidos na França são os escritores portugueses. O Fernando Pessoa, claro, é lido, mesmo muito lido, mas também o José Saramago e o António Lobo Antunes, que é um dos grandes nomes da literatura mundial, enfim europeia. Eu não tenho os dados. Mas nós temos a Livraria Portuguesa e Brasileira em Paris que funciona e que tem muitos livros. Creio que existe um grande interesse pela literatura portuguesa, mais do que pela brasileira até.

 

Entrevista realizada no quadro do programa «O livro da semana» na rádio Alfa, apoiado pela Biblioteca Gulbenkian Paris

Próxima convidada: Isabel Rio Novo, autora de «A febre das almas sensíveis»

Quarta-feira, 16 de maio, 8h30

Domingo, 20 de maio, 14h25

 

 

 

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