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O 25 de Abril representa para mim a Liberdade. Foi como se fora um alicate que cortara uma corrente que amarrava todo Portugal. Amarrava Portugal à pobreza que obrigava os seus filhos, sem eira nem beira, a partirem à procura de pão. Uma corrente que amarrava todos os Portugueses ao analfabetismo, à ignorância, ao servilismo. Uma corrente que atava às nossas mãos sangrentas, metralhadoras para matar irmãos africanos que tinham direito à independência. Uma corrente que encaixava no aloquete que fechava as portas dos partidos políticos, as portas dos sindicatos, as portas da imprensa livre, as portas que davam direito à educação, à saúde, à Liberdade.

Andava por estas Europas e frequentava o mundo espanhol contestatário e português contestatário. Ouvi na rádio, não havia telemóveis nem internet, não sabia se era sonho ou realidade. As festas, a vinda de Capitães de Abril, o Zeca Afonso, o Fanhais e o José Mário Branco avivavam a nossa alma e acreditávamos num Portugal melhor. Começámos a bater às portas dos Portugueses para abrirmos aulas de português e cantávamos: “Uma gaivota voava, voava… Somos livres, somos livres”.

Hoje, apesar da democracia instalada no nosso país, não posso estar completamente contente, a pobreza, a corrupção, o êxodo dos jovens, não são mais do que manchas negras numa praça que espera os cravos plantados por jardineiros honestos e competentes.

 

João Heitor

Livreiro

 

Testemunho recolhido para o LusoJornal, no quadro da Exposição sobre os 40 anos do 25 de Abril, do fotógrafo Mário Cantarinha, publicado na edição em papel do LusoJornal de abril de 2015.

 

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