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If é uma pequena ilha em frente de Marselha. Primeiro era uma ilha deserta, na prática era um rochedo, mas o rei François 1er mandou aí construir uma fortaleza para defender a cidade de Marselha de eventuais ataques marítimos.

O «Château d’If» ficou conhecido sobretudo por ser o cenário escolhido pelo escritor francês Alexandre Dumas para o livro «O Conde de Monte Cristo».

Mas, para quem não conheça, a Ilha de If e a sua fortaleza estão diretamente relacionados com Portugal e com… o «rinoceronte português».

Aliás, quem visitar a fortaleza, depara com um grande painel com a ilustração de um rinoceronte e onde se lê «rhinocéros portugais».

Em 1513, Portugal estava em plena epopeia das Descobertas marítimas. Vasco da Gama já tinha conseguido dobrar o Cabo Bojador e descoberto o caminho marítimo para a Índia e Pedro Álvares Cabral já tinha sido «levado pelos ventos» até descobrir as Terras de Santa Cruz, hoje Brasil.

Não admira pois que nesse ano de 1513, um rinoceronte da Ásia tenha sido oferecido ao rei D. Manuel I, o Magnífico, pelo rei de Guzarat, na Índia.

Nunca na Europa tinha sido visto um animal assim. Aliás, a notícia correu de país em país e foi comentada nas Cortes europeias. Em Portugal a euforia foi enorme e todos queriam ver o novo animal que tinha chegado das Índias.

O rei de Portugal não hesitou, e decidiu oferecer o rinoceronte ao Papa Leão X.

O rinoceronte já estava habituado a andar de barco. Tinha vindo da Índia numa nau e por isso, nem deve ter estranhado novo embarque, em Lisboa, desta vez com destino a Roma e ao Vaticano. Aliás era bem tratado, por indicações expressas de D. Manuel I. E o Papa tinha sido informado que o animal iria chegar.

Mas o barco que transportava o animal teve de fazer uma escala técnica em Marselha e como o problema ía demorar algum tempo até ser reparado, o Capitão decidiu – com a autorização das autoridades francesas – descarregar o animal no tal rochedo de If, em frente de Marselha, então deserto.

É escusado dizer que o animal não passou despercebido. Diz-se que eram às milhares as pessoas que queriam aventurar-se de barco até ao ilhote, para tentar aproximar-se do bicho estranho dos Portugueses.

Até François 1er, o rei francês que saiu vitorioso da Batalha de Marignan, decidiu passar por Marselha antes de recolher a Paris, para ver o Rinoceronte português. A Batalha de Marignan, nos arredores de Milão, na Itália, teve lugar nos dias 13 e 14 de setembro. Foi uma batalha tremenda que teria feito cerca de 16 mil mortos e em que o jovem rei francês combateu em pessoa.

Foi nesta altura, quando François 1er foi à ilha de If, que o célebre artista Albrecht Dürer realizou uma gravura sobre madeira do rinoceronte, que ainda hoje faz parte do espólio da Biblioteca Nacional francesa, em Paris. E o bicho ficou conhecido para sempre como o «rhinocéros portugais».

François 1er ficou encantado com o estranho animal, mas também ficou encantado com a localização estratégica do rochedo em frente de Marselha. Ao ponto de decidir, ali mesmo, construir uma fortaleza para guardar a cidade.

Hoje também é conhecido como o Castelo do Conde de Monte Cristo porque o escritor francês Alexandre Dumas inspirou-se da fortaleza para escrever o romance «O Conde de Monte Cristo».

Aliás, no livro de Alexandre Dumas há uma personagem «portuguesa». Trata-se do Abade de Faria, que existiu realmente. Era um abade português com ascendência goesa que viveu em Marselha antes de vir para Paris. Alexandre Dumas inspirou-se deste abade estranho que até fazia hipnose, para criar uma das personagens do seu romance. Mas esta é uma outra história…

Quanto ao rinoceronte, depois do barco ter sido reparado, voltou a embarcar em direção de Roma, mas uma violenta tempestade no golfo de Gènes lançou o navio contra os recifes e o animal, depois de ter feito uma viagem incrível desde as Índias e já depois de ser amplamente conhecido, morreu afogado no mar Mediterrâneo.

Mas para que esta história tenha um final feliz, sabe-se que o rinoceronte foi repescado junto à costa, foi embalsamado e foi, mesmo assim, oferecido ao Papa, que agradeceu o gesto do rei de Portugal.

Se o leitor for a Marselha, apanhe um dos barcos que o leva ao «Château d’If», talvez lá encontre a ilustração do rinoceronte português e fique pelo menos com a certeza de que, sem a passagem do animal das Índias por ali, o forte talvez nem tivesse sido construído.

 

 

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