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Estávamos no mês de março, e na serra ainda se via a neve lá no mais alto, o ar na rua estava ainda agreste e frio. Maria caminhava entre os pinheiros do lugar chamado Toiral, seguindo os seus passos, o seu pequeno rebanho de ovelhas. O marido já fazia quase um ano que a tinha deixado, mas também com a responsabilidade de olhar pelos haveres do casal. Sem esquecer o Joãozinho, de quatro anos, que esperava por ela em casa, junto da mãe e certamente junto da lareira onde fumegava uma panela com a sopa para o jantar da noite.

“Que Nossa Senhora me ajude”, pensava Maria da tia Júlia. Era assim que era conhecida na aldeia. Há já cinco anos que Maria e Manuel tinham casado na igreja da paróquia. A vida de casal tinha começado com grandes promessas e grandes projetos. Manuel tinha chegado do Ultramar um mês antes de se casarem, ela tinha esperado durante os dois anos que ele por lá andou. Trocaram dezenas de cartas e “aerogramas” com milhares de histórias escritas e cheia de “juras” de amor. Ela era “madrinha de Guerra” do seu Manuel.

– Voltei Maria… e graças à Virgem, que escutou as tuas preces, trouxe-me para junto de ti são e salvo.

– Sim foi verdade… eu muito pedi por ti. Mas agora, graças a Deus e à Virgem, estaremos sempre juntos para a vida inteira, não é verdade Manuel?

– Nem duvides Maria. Como previsto vamos casar e depois faremos pela vida.

Quatro anos passaram desde que Manuel tinha saído para o estrangeiro, para França, onde agora trabalhava. Todos os meses, dentro de uma carta, enviava-lhe parte do seu salário, mas a sua companheira, a Maria e o filho, estavam longe, e as saudades por vezes faziam com que as lágrimas lhe caíssem pelas faces.

A monotonia e a tristeza dos dias sem a sua família estavam a ser cada vez mais pesados. Ele ganhava bem a vida, o salário era bom, mas a ausência dos seus não tinham esse preço. Cansado e desesperado, Manuel foi falar com o vizinho José, que era também seu vizinho em Portugal.

– Ó Zé, escuta lá, tu não conheces um passador, ou não tens para aí um telefone a quem se possa ligar e falar com um desses homens?

– Tenho Manuel, mas se é para ires para Portugal não precisas de passador rapaz.

– Não, não é para mim. Queria ver se podia trazer a minha mulher para cá, pois as saudades já chegam ao “nó da Gravata”, percebes?

– Estou a ver. E o teu filho? Também o queres trazer para cá?

– Não. Esse, por agora, até arranjarmos a vida, ficaria lá com a minha sogra, a tia Júlia. Mas só por uns tempitos, pois as saudades dele também são grandes e eu gostaria de o ver crescer e de lhe ensinar a jogar à bola.

– Está bem. Vou ver se te arranjo alguma coisa. Conta comigo Manuel.

Passados uns dias, alguém que também trabalhava com ele, acercou-se dele perguntando se precisava que ele o ajudasse nalguma coisa.

– Ó Sr. Manuel você precisa de um passador? O meu irmão faz esses serviços a miúde. Para quando tem isso previsto?

– Mas espere ai… o seu irmão está em Portugal ou aqui?

– Ele está em Portugal, mas faz estes serviços e às vezes é de ida e volta. E sorriu.

– Olhe que nem sei. Só há uns dias é que ando a matutar nisto: ir ou mandar vir a minha mulher lá da terra. Percebeu?

– Sim, estou a ver. O meu irmão vai agora neste fim de semana para baixo, com uma carrada e vai estar lá uma semana e depois volta.

– Posso falar com ele? Pois tenho que ver o preço e como se passa a viagem.

– Eu digo ao meu irmão que o venha ver. Está bem assim?

– Está bem. Diga-lhe que me venha ver se faz favor.

No dia seguinte, depois do dia de trabalho, o Passador apareceu. Combinaram o preço, mas a viagem que traria a Maria para junto de Manuel só se faria um mês depois. Rapidamente enviou uma carta a contar o que se passava e o que ele desejava que ela fizesse de imediato.

“Querida Maria,

Desejo que, ao leres estas minhas letras, estejas bem de saúde. Eu fico bem graças a Deus.

Decidi de te ter junto de mim, cá em França. Fala ai com o nosso vizinho Augusto para que ele fique com as nossas ovelhas. Tu vendes tudo, mesmo a cabra. Quando eu vim, no ano passado, ele tinha-me dito que ficaria com elas todas, se eu quisesse, então agora entrega-lhas pelo preço que ele quiser. Ele é honesto, não nos vai enganar.

Diz à tua mãe que fique com o menino, o nosso Joãozinho, até ao Natal, que depois eu o irei buscar. Ela não te vai dizer que não, conhecendo o amor que ela tem pelo neto. E deixa-lhe também o resto da criação.

Um Passador vai buscar-te. Ainda não sei o dia, mas depois eu telefono para o café do tio Isidro, o posto público. Não falas a ninguém disto que aqui te escrevo. Faz-me confiança que tudo se passará bem, e depressa estaremos de novo juntos. Tenho muitas saudades vossas. Sois os meus amores.

Beijos. Amo-vos muito. Manuel”

O Sr. António – assim se chamava o passador – veio ter com a Maria na feira nova. Para que ninguém desconfiasse do que se estava a planear, como tinha explicado o Manuel pelo telefone. Tudo estava já combinado, só faltava marcar o dia e a hora. Foi coisa feita nesse dia.

– Na sexta-feira venho aqui à entrada da sua terra buscá-la. Tudo bem? Mas venho cedo, lá para as cinco horas da manhã.

Nessa manhã de maio, as estrelas brilhavam no céu noturno, estavam na companhia da lua, que agora estava a minguar. À hora combinada, o Sr. António apareceu conduzindo o seu carro, em companhia de um casal e de um homem, que tinham quase o mesmo destino que Maria, em terras de França.

Depois de carregada a mala e as saudações habituais, o carro partiu no sentido inverso, deixando para trás a aldeia adormecida e poderíamos jurar que, só a tia Júlia e o Joãozinho sabiam que Maria estava a viajar para França, ao encontro do marido.

Passadas várias horas de condução e de conversas, onde fizeram conhecimento os ocupantes do automóvel, a vila de Vilar Formoso apareceu aos viajantes, com o seu charme de vila fronteiriça, charme este que fazia aumentar as saudades.

– Bom, meus senhores e minhas senhoras. Aqui agora é que as coisas se complicam. Eu vou deixá-los ali perto do café que está junto ao hotel. Vocês entram no café e esperam que alguém venha ter com vocês. Perceberam? Façam com se já se conhecessem há muito tempo, falem de tudo e de nada. Perceberam?

Como previsto, entraram no café e encomendaram bebidas quentes, pois a manhã estava fria e com um pouco de nevoeiro.

Uma senhora entra no café e disfarça o interesse que aqueles dois casais lhe faziam. Puxou uma cadeira e foi assentar-se junto deles pedindo uma bebida também.

– Bom dia meus amigos… vocês são os amigos do Sr. António?

– Sim somos e a Senhora quem é?

– Eu venho buscá-los. Vamos passear um pouco junto à fronteira, e vamos até Espanha fazer umas compras, trouxeram pesetas ou não? Vão ser precisas!

Os cinco saíram do café e dirigiram-se para o lado da estação da CP. Caminharam pelo caminho que seguia em paralelo à linha férrea, em direção ao sol nascente que já se anunciava por entre os lençóis de nevoeiro, que persistia a cobrir as casas de Vilar Formoso. Terras de Espanha se avizinhavam e um bom cheiro a pão cozido, chegava agora até aos caminhantes.

– Se alguém aparecer, vamos ao pão a Espanha. Vocês não dizem nada. Só eu é que falo. Está bem?

Dois “Guardias Civis” vieram ao encontro dos caminhantes. E a amiga do passador António, com voz pousada e calma disse:

– Buenos dias senores! Olá, como estais?

– Olá, buenos dias. Aonde van si matinales? Perguntam os Carabineiros.

– Olá, nos otros nos vamos comprar e buscar pan. Mira e siente como es bueno.

– Muy bien, vaya com Dios. Hasta luego. Andiamos!

Apertaram o passo, pois com estas presenças já se sentiam em Espanha, a fronteira estava ultrapassada, mas tudo ainda podia acontecer. O sol subia no céu e fazia pouco a pouco desaparecer o nevoeiro matinal e cada vez se via melhor para onde caminhavam.

Entraram num café e a senhora foi buscar uns sacos, que os homens carregaram às costas. Era comida, pois agora começava a “caminhada” que os levaria ao encontro do Sr. António. Despediram-se da senhora que lhes deu as últimas instruções, de seguirem pela estrada de terra, que seguia em paralelo à estrada alcatroada, a famosa Nacional 1.

Longas horas de caminhada e alguns momentos de restauro de forças, pois como disse a mulher, tinham de caminhar cerca de quatro a cinco horas, até que o Sr. António viesse ao encontro deles com o seu automóvel.

– Já não posso mais. Temos que parar mais um pouco. Disse Maria olhando para a sua companheira de caminhada que tinha dito chamar-se Lurdes.

– Sim, tem razão. Será mais meia hora ou menos meia hora. Eu também já estou cansada. Porra prá vida!

– Já tenho os pés a arder e creio que estou a apanhar calos. Só me faltava esta!

Disse Maria quando se sentou na parede do caminho, dando um grande suspiro que escondia cansaço, mas também saudades do seu Joãozinho.

Ouviram-se as campainhas dos toiros e das vacas que pastavam entre os sobreiros não muito longe do caminho. “Tenham cuidado, não ultrapassem o arame farpado. Fiquem sempre na estrada”, tinha dito a senhora e agora compreendiam porquê. O gado bravo andava por ali. Uma hora passou e eles observavam a paisagem da lezíria espanhola que se estendia a perder de vista.

– Ai, meu Deus. Já não posso mais! Disse a senhora Lurdes zangada.

– Eu também não. Parece impossível termos que andar tanto a pé. Fogo, nunca pensei… Ele podia ter dito que era assim tão longe. Raio do homem, não tem piedade nenhuma de nós.

– Oh Augusto, não sei se irei aguentar até ao fim. Quantos quilómetros teremos que fazer? Pergunta a senhora Lurdes ao marido.

– Pelos meus cálculos, já não devemos estar muito longe. Disse o Sr. Augusto.

– Olhem para esta miséria. Já tenho os sapatos arrebentados e com um buraco na sola. E é que eu não tenho aqui mais nenhuns, estão na mala, dentro do carro. Pouca sorte a minha. Disse a Maria.

– Oh cara amiga… vamos é acabar descalças. Disse rindo a Sra. Lurdes.

Avistaram ao longe uma vila e a estrada que os levaria ate lá. Um carro preto aproximava-se deles. Era o Sr. António que o conduzia.

– Olhe lá Sr. António, não podia dizer que era assim tão longe? Já viu a caminhada que fizemos? Já vimos a andar há mais de cinco horas. Disse Maria.

– Não se queixe, pois era necessário esta caminhada. É aqui, nesta parte da estrada, que a polícia espanhola faz muitas esperas, e cada vez que agarra alguém, leva-os para Portugal de novo. E depois aqui é que são elas. Já estão nas mãos da Pevide. E depois tudo pode acontecer. Percebe o que eu quero dizer?

– Olhe para esta desgraça, arrebentei os sapatos. Ainda bem que tenho outros na mala. Faça o favor de ma tirar cá para fora. Fogo! Disse Maria.

– Olhe, sabe quanto vale cada português que a “Guardia” leva à fronteira portuguesa e entregue à nossa policia? São mil escudos… prometidos pelo Salazar. Já viu o negócio que eles faziam hoje com vocês?

– Eu pensava que valia mais que isso. É o preço de dois pares de sapatos. Disse Maria, rindo.

– Bom, vamos lá então. São quase cinco horas da tarde e vamos dar uma boa corrida, antes de jantarmos lá para depois de Valadollid.

Entraram todos no carro e de hora em hora aumentavam no contador os quilómetros percorridos. Perto das quatro da manhã, os painéis anunciavam “Francia”, S. Jean de Luz, e depois Hendaya.

Esta fronteira, passada pela madrugada não dava muitas preocupações aos passadores, pois eles sabiam que os homens franceses da “Douane” não eram muito madrugadores. Assim aconteceu. Mostraram os bilhetes de identidade e ouviram um “Bonne journée et bon voyage mesdames et messieurs”.

Passadas mais algumas horas, finalizavam a viagem. Manuel e Maria abraçavam-se com carinho e trocavam notícias.

– Como ficou o Joãozinho? E a tua mãe? Eles como vão?

– Ó Manuel, tu moras aqui, assim neste quarto pequenino, meu homem?

– Não te aflijas. Virá o tempo que te farei uma grande casa, para ti, para o nosso Joãozinho e também para a tua mãe. Tu verás. Assim Deus nos ajude e a Virgem Santa.

Um ano depois voltavam à terra que os viu nascer, buscar o Joãozinho e a tia Júlia.

 

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