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Consideremos a Língua (no caso a nossa língua portuguesa) – cujo Dia Mundial se comemorou a semana passada – como uma realidade tão vasta que, em si, pode conter todas as manifestações de uma cultura que a tem como materna: a gastronomia ou música erudita, o artesanato ou a ciência, a filosofia ou a arte.

Julião Sarmento, artista visual português (que fez desde pintura a desenho, de escultura a instalações, de vídeos a performances), faleceu a semana passada, aos 72 anos e, com ele, desapareceu um dos mais enérgicos, criativos e generosos falantes do Português. Sarmento falava, pelo menos, cinco línguas fluentemente e saltitava entre elas com o mesmo à-vontade com que se movia no complexo mundo da arte contemporânea. Ainda assim, tinha como língua-mãe o português e era nessa língua que se exprima a maior parte do tempo – porque sempre viveu em Portugal e felizmente nunca necessitou, por razões políticas ou económicas, viver no estrangeiro, ser emigrante artístico, para jogar e vencer a sua vida.

Nas obras de Julião Sarmento encontramos ou supomos ver, sempre, imagens de mulheres. O masculino sempre foi pensado em função da representação do feminino e a representação do feminino pensada em função do desejo masculino. A obra de Sarmento alimenta-se dessa vertigem erótica, de uma inesgotável energia individual, de tudo o que sendo culturalmente relevante lhe interessava (a história da arte e a literatura, o cinema e a filosofia).

Tudo isso era dado de forma cifrada e fragmentar deixando ao espetador a liberdade de reconstruir um todo que fosse seu. Sarmento desencadeava assim um permanente processo de insatisfação, de fragmentação, de desmultiplicação dos corpos e das ações registadas, uma busca de impossível identificação com um Outro, testemunho do tempo inquieto da humanidade atual.

Julião Sarmento integrou-se num mercado de ideias e de bens que, no final do século XX, passaram a circular a velocidades nunca imaginadas. Mas esse esforço gigantesco de internacionalização foi construído a partir de Portugal e individualmente – por ele (ou pelo meio artístico das décadas de 1980 e seguintes que, generosamente, ajudou a construir abrindo a muitos colegas e galeristas ou críticos os seus contactos internacionais). Apenas residual, intermitente ou incoerentemente as políticas culturais do Estado democrático ou do mecenato privado o apoiaram.

França é, talvez, dos grandes países europeus, aquele em que Sarmento menos penetrou. Ainda assim teve várias coletivas e individuais em duas galerias de Paris, integrou outras exposições em museus e centros arte. No desaparecido espaço parisiense da Gulbenkian, em 2017, teve uma individual e há o projeto de outra exposição a ser negociado no âmbito da Temporada Portugal-França 2022 (tendo como curadora Catherine David do Centro Pompidou).

Mas Sarmento não é apenas o artista que descrevemos. Dentro do que definimos como a sua enorme generosidade, deixou a sua importante coleção de arte internacional para ser exibida em Lisboa, à beira Tejo. Um projeto que ajudará a cidade a construir uma internacionalização culturalmente sustentada.

Recordar a obra de Sarmento é sem dúvida um modo superior de comemorar a importância do Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão às 02h30, 05h45, 06h45, 10h30, 13h15, 16h15 e 20h00.

 

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