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Opinião

 

Portugal está a atravessar um período de reconfiguração do cenário político-partidário, que está hoje mais fragmentado e em que se anteveem mudanças tanto à esquerda como à direita do PS, que se mantém como um referencial de estabilidade e responsabilidade.

Enquanto o PS se apresenta como um partido pacificado, focado nas eleições legislativas antecipadas de 30 de janeiro, virado para o futuro e para as suas responsabilidades com o país e com a União Europeia, os partidos à direita passam por convulsões internas e à esquerda enfrentam o risco de perda de influência no Parlamento e no país por, insensatamente, terem rejeitado o Orçamento de Estado para 2022, que era reconhecidamente o mais robusto dos últimos seis anos, com uma forte dimensão social e progressos assinaláveis a nível dos salários, pensões e rendimento disponível.

Basta recordar propostas como o aumento extraordinário de 10 euros nas pensões até 1097 euros, na gratuitidade progressiva das creches, o aumento assinalável do abono de família, o aumento sem precedentes de 40 euros do salário mínimo, no alívio do IRS ou no fim do pagamento especial por conta, tão importante para a tesouraria das empresas.

O Governo e o PS fizeram tudo para que o Orçamento fosse aprovado, indo ao encontro das propostas apresentadas pelos partidos de esquerda, aceitando até negociar questões que nada tinham a ver com o orçamento, como em relação ao Código do Trabalho ou ao Estatuto do SNS, e pretendia continuar o diálogo na especialidade após aprovação na generalidade, para se aproximar ainda mais do BE, PCP e Verdes. Mas a sua atitude inflexível de quererem tudo sem fazer quaisquer esforços de aproximação deitou por terra qualquer possibilidade de acordo.

Agora, ao que parece, estão arrependidos e dizem que havia outras alternativas às eleições antecipadas. Mas não há, até porque o próprio Presidente da República disse que sem orçamento aprovado a Assembleia da República seria dissolvida.

Mas se à esquerda do PS os partidos agora carregam o fardo de terem rejeitado um orçamento que era tão importante para os Portugueses e que a grande maioria queria aprovado, como se depreende pelos inquéritos de opinião, à direita, os recém-chegados Iniciativa Liberal e o Chega vêm já a sua oportunidade para crescer, paradoxalmente, com a preciosa ajuda dos partidos à esquerda do PS.

Ficará para sempre o mistério de o BE e o PCP terem provocado eleições, sabendo claramente que há o risco de serem ultrapassados pelo partido extremista de Ventura, com os seus abomináveis propósitos fraturantes e provocatórios, com a perigosa disseminação do ódio à ideologia de esquerda e às minorias e a permanente manipulação da realidade.

E se o CDS, um partido que acompanhou o percurso da democracia portuguesa, corre o risco de extinção com as suas lutas fratricidas, o PSD neste aspeto também não está muito melhor. Rui Rio e Paulo Rangel entraram numa disputa surreal pela liderança a pouco mais de dois meses das eleições. É normal que a política em democracia passe por transformações e que os partidos procurem os seus mecanismos de afirmação e sobrevivência. Mas é importante manter presente que a vida política deve dar o exemplo, para que não caia na lei da selva. E isso exige sentido do bem comum, princípios, ética e valores, que nunca poderão deixar de estar no centro da ação política e da vida em sociedade.

 

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