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Esta semana a atriz francesa Adèle Haenel revelou as agressões sexuais de que foi vítima por parte do realizador Christophe Ruggia. Ela tinha na altura entre 12 e 15 anos. A atriz deu uma longa entrevista em direto ao Mediapart Live. Vale a pena ver porque Adèle Haenel faz algo de essencial neste caso, de forma corajosa ela levou a sua história pessoal para a dimensão pública, para a dimensão política. O objetivo é que a sua vivência sirva de exemplo, liberte a palavra de outras vítimas e que o tema sobre a violência sexual feita às crianças e mulheres seja debatida.

Poderíamos pensar que com o movimento Metoo já tudo foi dito, mas não, este movimento foi somente o início do que esperamos ser uma nova era.

Adèle disse algo de muito importante, tocou num ponto fulcral… a questão da vítima. Nas minhas conversas com mulheres vítimas de violência chega sempre o momento em que falamos desta questão. Do difícil caminho que é o de aceitar que se é vítima, porque ser vítima é visto como ser passiva e comporta noções como a culpa e a vergonha ou ainda a vulnerabilidade. Afinal um animal ferido está mais frágil em relação aos predadores, é necessário fazer-se de forte. Adèle explica bem ter passado por essa fase, a fase destruidora do silêncio que ela qualifica como uma imensa violência, a fase em que ainda não se tem consciência do seu estatuto de vítima, a fase em que se tem medo do julgamento dos outros, em que se tem medo que a nossa palavra seja posta em causa. E, finalmente… medo do momento em que vamos ouvir a famosa frase “Tu estás-te a fazer de vítima!”, “estás-te a vitimizar!”

Ora, fazer-se de vítima, significa que se está a fingir que se é vítima, vitimizar-se significa que a pessoa não é vítima de algo de exterior, mas que a culpa é da própria. Como diria a Adèle é pena a dobrar.

Ora, porque é que se faz isto? Porque é que uma vítima ainda tem de suportar estas acusações de responsabilidade da sua própria dor? Porque as vítimas são pessoas que não queremos ver, porque elas questionam toda a sociedade, a nossa própria responsabilidade em não as sabermos proteger. E quando assim é, uma das escapatórias, em vez de olhar o problema em face, é o de culpar a vítima, arranjar desculpas. Fazê-la calar. É o mesmo que se está a passar neste momento com a Deputada Joacine Katar Moreira em Portugal. Onde é acusada de utilizar a sua história pessoal, acusada de se vitimizar, acusada de ser ela a instigadora dos ataques de que é alvo.

Fazer da sua própria história um exemplo não é vitimização, é ter coragem.

Relembro aqui, já agora, o que se deve dizer quando se acolhe a palavra de uma pessoa vítima de violência: “eu acredito em ti”, “a culpa não é tua”, “quem te fez isso é que é culpado”, “não tem esse direito”, “estou aqui para te ajudar”.

Luísa Semedo é filósofa e membro do Conselho das Comunidades Portuguesas. Esta crónica na rádio Alfa, às quartas-feiras, tem difusão uns minutos antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

Linda de Suza 19/20
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