Uma senha ser-lhe-á enviada por correio electrónico.

Opinião: Diários da vida breve

Jean-Kenta Gauthier, Courtesy Daniel Blaufuks et Jean-Kenta Gauthier Jean-Kenta Gauthier, courtoisie de Daniel Blaufuks et Jean-Kenta Gauthier
Donativos LusoJornal

 

Os diários prolongam-nos e constroem a nossa memória junto dos outros e de nós mesmos. Neste mês, em Paris, dois fotógrafos portugueses apresentam obras recentes em exposições indispensáveis que, nestes tempos de vazios inesperados, nos dão pistas para lutarmos contra o silêncio e o esquecimento.

Há quem faça Diários por disciplina – assim assegurando a sua ligação ao mundo – e há quem os faça por indisciplina – assim assegurando a sua liberdade interior e face aos outros. Nenhuma das duas soluções salva os seus autores da sua própria imagem e da sua sombra mas assegura-lhes um corpo.

Jorge Molder (depois da sua última individual “Observations dans le noir” na galeria Bernard Bouche, na rue Vieille do Temple) apresenta agora as suas fotos em diálogo com as de John Murphy. Molder usa, de modo obsessivo, a sua própria imagem. Não como autorretrato mas como meio de expressão dos seus pensamentos: de desespero, de medo, de frustração, de ira, de perplexidade, de resistência, de ironia. Não podemos falar de Diário, mas de uma espécie de Memórias ficcionadas, que seguem o fluxo indisciplinado do seu pensamento sobre o mundo e sobre si mesmo.

Daniel Blaufuks (que é também presença regular em Paris através da galeria Jean-Kenta Gauthier) tem uma individual (no novo espaço situado no 15ème, Rue de la Procession, perpendicular à Vaugirard). Desde maio de 2018 que Blaufuks mantém um disciplinado registo diarístico. A tarefa é gigantesca e vai do simples registo do dia através de uma só imagem (quase sempre comentada) a construções visuais mais complexas.

O artista usa a polaroid como meio de obter o resultado imediato do seu registo e tem com cenário obsessivo uma das janelas da sua casa (espaço onde uma mesa larga lhe serve de local de trabalho, refeições, convívio…). Porém, em cada frequente deslocação, serve-se do cenário que cada novo lugar lhe suscita. Usa também recortes de jornais e outros materiais com que vai compondo colagens legendadas de modo poético, reflexões existenciais, afirmações estatísticas…

A exposição apresenta, como o título indica (“The Days Are Numbered, May”), todos os dias do mês de maio último. E ficamos assim a saber o que lhe chamou a atenção. Alguns exemplos: a morte de Julião Sarmento, os bombardeamentos e as mortes em Gaza, a discussão nacional em torno do Painéis de S. Vicente de Fora ou, no amarelo gritante dos girassóis, o anúncio do Verão que se aproxima.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão às 02h30, 05h45, 06h45, 10h30, 13h15, 16h15 e 20h00.

 

Opinião
X