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Em Lisboa a pensar em Paris a pensar em Lisboa é a condição do emigrante, do expatriado, do viajante regular entre dois amores que cultiva: o amor sereno e largo da cidade que o fez homem et l’amour fou da cidade que, desde sempre, de longe e de perto, o seduziu e seduzirá.

Em Lisboa, nas mil esplanadas (conquista dos recentes anos fastos do turismo) mas a pensar nas mil e uma esplanadas de Paris. Em Lisboa, visitando os discretos, secretos e por vezes irrepetíveis museus da cidade, mas a pensar nos faustosos e universais (mas também nos secretos) museus de Paris. Em Lisboa, deambulando pelas colinas traçadas de ruelas e escadinhas, atulhadas de carros mal-estacionados, forradas de azulejos e calçadas brancas, entrevendo uma torre, uma cúpula, vendo abrir um jardim incerto sobre a varanda de um miradouro, sobre o casario acumulado até ao rio que é um mar e a pensar na clareza de Paris, nas grandes avenidas que pedem uma arquitetura clara, que pedem cúpulas douradas, que pedem jardins geométricos e onde o rio é mais um boulevard ligando tudo.

Em Lisboa, assistindo à pacífica e monótona comemoração do Primeiro de Maio na Alameda D. Afonso Henriques: duas dúzias de polícias circulam pelo parque, bandeiras vermelhas mas também azuis e amarelas (o conceito era mais decorativo que político), o avançar regrado dos manifestantes até aos seus lugares de regulado distanciamento formando, no final, um imenso xadrez de gente que seguiu sem erros a convencionada coreografia da cerimónia e se dispersam depois em boa ordem para os cafés abertos em redor ou para as bocas de Metro, que, pacificamente também, continuou o seu circular subterrâneo. E ver em Paris, de novo e sempre, o duro afrontamento entre os manifestantes e a polícia: bastonadas, fogos, prisões…

Hoje, as ruas de Paris estarão limpas de destroços. E a linda e rica cidade de Paris (definindo a cada um o seu bairro, os seus circuitos e os seus papéis sociais e culturais) poderá retomar, nas próximas semanas, o ritmo e a vida que a fez ser a fatal sedutora que é.

Em Lisboa, na Alameda, desmonta-se o palco onde os sindicalistas falaram para a multidão. A grande Fonte Monumental que o Estado Novo construiu volta a enquadrar as cenas do ano inteiro: jovens brasileiros que ocupam quartos alugados das ruas traseiras enchem os cafés do lado Norte do relvado, paquistaneses voltam a jogar criquete junto as escadarias, equipas mistas jogam furiosamente futebol nos relvados, alguns estrangeiros ensaiam estender-se ao sol, gente dos bairros pobres das Olaias desce até aqui ocupando os bancos do jardim, velhos reformados jogam à bisca lambida, algumas barracas de doces juntam crianças e pais ruidosos, fãs da cultura hip-hop põem a música aos gritos na esplanada superior da fonte… Os bons burgueses que restam nos prédios de boa arquitetura salazarista que definem a Alameda olham incomodados tudo isto das suas varandas; e passam depois pelo meio de tudo isto sem perceberem que é tudo isto (toda essa realidade mista) que mantém o mágico equilíbrio social da linda e pobre cidade de Lisboa.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão às 02h30, 05h45, 06h45, 10h30, 13h15, 16h15 e 20h00.

 

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