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“Eu até tive ideia de meter o ‘Chico’, mas depois, com um colega que me convenceu, vim a salto, vim a monte, até França”.

 

Na década de sessenta, a indústria têxtil em Portugal estava numa grande expansão e eram muitos os trabalhadores que desde a idade dos 15 anos, logo após a escola primária, inseriam-se nestas fábricas onde diversas profissões produziam milhares de peças de roupa para o consumo nacional e para o estrangeiro.

Alberto, após alguns anos neste ramo profissional, tomou a decisão de se oferecer para a Força Aérea como voluntário. Tinha festejado os seus dezoito anos. O mínimo eram cinco anos da sua vida, que teria que passar ao serviço da Pátria “amada”. O desejo de viajar e de ver outras terras não o fez mudar de ideias e acabou por assentar praça, na base aérea de Alverca de Ribatejo onde frequentou a escola de Cabos.

Em 1963, partiu para a Guiné e chegou à cidade de Bissau, onde esteve em serviço militar até ao ano de 65.

– Gostei daqueles tempos ali passados… e guardei boas lembranças, não só como militar, mas também com as amizades feitas com os nativos desta terra.

Ao regressar à metrópole, à cidade de Lisboa, travou conhecimento e amizade com o seu Comandante, que lhe promete ajuda e orientação durante a sua estadia na Força Aérea.

– Oh rapaz, se queres ficar por aqui, pela Força Aérea, tens cá lugar. Só tens é que te casares.

– Meu comandante, tenho ai uma namorada, mas não é para casar. Deus me livre.

– Bem, tu é que sabes, ainda tens dois anos a fazer no teu contrato, mas se tu não queres meter o “Chico”, eu arranjo maneira de passares à disponibilidade.

– Seria boa ideia meu Comandante. A minha “Madrinha de Guerra” está a ficar cada vez mais convencida, pois ela pensa que até daria para casarmos mas eu não quero. Longe disso meu Comandante.

– Pois é, essas mulheres logo que começam a dar uns “jeitos” ao pessoal já pensam que haverá futuro. Então livra-te lá desse compromisso com a rapariga, que eu cá te faço a papelada. Conta comigo!

– É melhor levarmos a sua ideia para a frente, meu Comandante. Meter o “Chico” não seria má ideia, mas ter que me casar, não… não, eu ainda estou muito novo. Ficar-lhe-ia muito grato meu Comandante, disse-lhe Alberto.

A cidade de Lisboa, nos anos 60, via passearem pelas suas ruas e avenidas, centenas e até milhares de soldados que, ou estavam em trânsito ou à espera de embarcarem para as colónias, e por ali “matavam” o tempo livre ou as “licenças”.

Aberto era um deles, e estando à espera que o Comandante desse por finalizada a sua passagem à disponibilidade, antes do tempo, frequentava também certos núcleos onde os Paraquedistas se juntavam e onde já se faziam planos de vida.

Estávamos no mês de abril de 1966, tinham festejado a Páscoa e Alberto fez conhecimento com um colega Paraquedista que também estava à espera de ser libertado das obrigações militares para depois rumar na vida livre. Estado civil que era muito importante pois condicionado pela “guerra e o terrorismo nas colónias”.

– Alberto, queres vir comigo para França?

– Tu estás a pensar ir para França? E conseguias levar-me?

– Eu não, mas o comboio de certeza que te leva. Não te vou levar às costas rapaz, descansa que não!

– Mas então como é que podemos prever isso. Eu daqui a pouco estou na “peluda”. O meu Comandante está a tratar-me disso.

– Eu também… é mais dia, menos dia. Mas já te digo, vamos à aventura, ao “calhas”. Já fizemos o serviço militar os dois, só não temos passaporte. Mas ninguém nos vai levar presos.

– Pois então tens aqui homem para te acompanhar. Vamos lá tratar disso. Como é para os bilhetes?

– Isso é fácil, compramos o bilhete para Vilar Formoso e depois compramos lá para França. E vai de andar. Vamos a “salto” e se for preciso pelo monte.

– Assim que estivermos desmobilizados, arrancamos. Podes contar comigo caro amigo.

– Então é só esperarmos que chegue o dia da “peluda”? E depois lá vamos conhecer a França.

 

Uma semana depois, na nota de serviço, Alberto viu o seu nome aparecer na lista dos desmobilizados a partir do fim do mês de maio.

Logo nesse mesmo dia, deu a notícia ao amigo Paraquedista e aproveitou da sua licença da noite para se despedir da “Madrinha de Guerra”, deixando a promessa que os seus caminhos se tornariam a encontrar, mas que ele agora iria procurar outra vida e outro trabalho.

O bilhete foi comprado na estação de Santa Apolónia, com direção a Vilar Formoso. Entregou toda a roupa militar, mas guardou, comprando, o seu “kiko” como recordação da sua estadia na Guiné. Avisou a família por telefone da sua eminente partida para França e tudo estava reunido para dar início, com o amigo, a viagem de “imigrante”.

Já se avistavam as terras serranas da serra da Estrela e nomes como Mangualde, Celorico e Guarda assinalavam que a fronteira estava cada vez mais perto e daí o começo das dificuldades com a polícia de Estado, a famosa Pide.

– Alberto, agora nada de medos, só tens que fazer o que eu te disser. Está bem? Eu falei com o meu tio que é um habituado nestas vidas. Ele explicou-me tudo.

– Está bem, diz lá então como queres que a gente faça.

– A partir da Guarda para a frente, a polícia à “paisana” vai pedir os passaportes àqueles que os têm, e os revisores vão começar a ver os bilhetes. Temos que nos esconder seja lá onde for.

– Mas a carruagem está cheia, quase não se pode passar, onde nos metemos?

– Eu vou meter-me ali na retrete até eles passarem e tu, vê lá, se podes agarrar-te à porta do lado de fora. É só o tempo de eles passarem e depois entras de novo para dentro.

Na carruagem havia um pequeno cubículo onde os revisores punham os seus afazeres. O espaço era apertado para um só homem, mas entraram lá os dois amigos, depois de terem dado uma nota de quinhentos escudos ao revisor.

No momento da passagem dos polícias ainda houve uma tentativa de abrirem a porta, mas ficou sem efeito pois estava segura pelos ocupantes do lado interior. A viagem continuou, e foi assim que passaram a estação de Vilar Formoso, e já o comboio percorria terras de Espanha quando o revisor lhes veio dar o aviso que poderiam entrar num compartimento onde havia pouca gente e ali passarem a noite mais descansados.

– Vocês estão a fugir a polícia? Não têm documentos? Perguntou um ocupante.

– É isso mesmo, não lhe podemos esconder nada. Vocês têm que nos ajudar, pois se eles voltam para entregarem os passaportes têm que nos esconder. Se não vão prender-nos.

– Onde é que você se quer meter? Disse uma senhora mal encarada que seguia no compartimento.

Com sorte ou sem ela, passou-se a noite, e foi já de manhã, perto de Hendaye, que a polícia portuguesa e espanhola veio entregar os passaportes. Todos eles não eram muito zelosos, pois foi do início da carruagem que eles chamavam os nomes inscritos nos passaportes. E assim só lá iam buscar o documento quem era chamado, os outros escondiam-se por onde podiam, e assim o Alberto passou despercebido mais uma vez.

Ao chegarem ao cais de desembarque, havia uma rede de dois metros de altura que separava o lado francês e o lado espanhol. Um grande corredor que se terminava por umas escadas e no cima das escadas, os polícias faziam de novo barreira e controlavam os documentos. Alberto e o amigo olharam um para o outro, e tiveram a mesma ideia.

– Salta tu primeiro, depois passo-te os sacos. E a seguir salto eu.

– Será melhor, pois lá nas escadas os gajos vão-nos deitar as unhas. Filhos da P…

– Vê lá tu bem como é que o Salazar e o “Caudillho” se puseram de acordo, para que, mesmo já em Espanha, a nossa polícia nos possa prender. Ai os pevides!

– Ainda bem que tu sabias destas vidas. Eu digo-te muito obrigado pois eu não iria conseguir sozinho. Podes crer.

O treinos e toda a ginástica destes dois jovens, praticada durante o tempo que foram militares, deu-lhes a facilidade de porem o seus projetos em ação. Pois foi num “esfregar de olho” que Alberto e o amigo Paraquedista se encontraram em França, saltando a rede que separava os dois cais de embarque dos caminhos de ferro franceses e espanhóis e assim iam caminhando na direção da liberdade, da nova vida… a vida de emigrante.

Alberto ainda viajou até Paris com o amigo, mas depois separaram-se. Despediu-se do amigo, pois ele seguiu para Thionville, para casa de uma irmã. Passaram-se anos, e depois foi morar para Nancy onde trabalhou na siderurgia durante alguns anos.

Mais tarde, na sua epopeia de emigrante, casou com uma francesa 1969 e como a esposa tinha família em Lyon, acabou por aí viver e acabar a carreira profissional na construção civil.

 

Opinião

 

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