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Opinião

 

Mesmo residindo no estrangeiro, vou poder votar nestas Legislativas e vai ser nestes dias, por correspondência. Unicamente para eleger dois Deputados, dois! Para toda a Europa! Com um impacto muito limitado, por conseguinte, mas por isso mesmo revoltante, tendo em conta o número considerável de Portugueses, como eu, que vivem no estrangeiro em comparação com os Portugueses que vivem no território nacional.

Mas vou votar, mesmo assim, e tentar contribuir, mesmo que seja modestamente, para que esta situação mude e haja futuramente mais Deputados para nos representar também, nós Portugueses, radicados no estrangeiro.

Quanto à minha escolha, o partido para o qual eu vou votar, vou ter em conta, entre outras coisas, aquilo que um jovem compatriota de 22 anos, recém-licenciado da Universidade de Aveiro em estudos empresariais com quem tive a oportunidade de falar precisamente ontem, me disse: “Passamos frio em Portugal, é verdade, nas escolas como também em nossas casas. Não temos de maneira nenhuma o conforto, em termos de aquecimento, como têm os Franceses. E o mais triste de que me lembro era quando alguns de nós, perto de Leiria, numa zona de Portugal que não é a mais fria, até levavam mantas quando íamos à escola. Não tínhamos evidentemente as melhores condições para estudar! E tudo isto ainda no séc. XXI!”

Chamou-me muito à atenção esse testemunho!

Eu que fiz toda a escolaridade em França, no século passado, e que continuei depois a trabalhar em várias escolas deste país, posso dizer felizmente que nunca passei frio em escola ou universidade francesa nenhuma. E em minha casa também não, a não ser um pouco mesmo assim quando em casa dos meus pais, também em França, ainda não havia aquecimento central e nos aquecíamos – mas há 50 anos atrás! – como muitos portugueses, por mais incrível que pareça, ainda hoje se aquecem em Portugal: no pior dos casos com apenas umas mantas, simples lareiras abertas ou aquecedores de fraca qualidade que pouco aquecem e nada ou pouco ajudam a viver em boas condições.

Como é possível, por conseguinte, ainda nos dias de hoje, esta situação, sobretudo depois de anos e anos durante os quais se gastou muito também em Portugal, mas também em coisas fúteis e até desnecessárias? É tempo então de tomar algumas decisões, mas decisões importantes e agora mais do que nunca urgentes como aquelas que tratam verdadeiramente das questões básicas de saúde e do bem-estar de todos: desde as crianças e os jovens até evidentemente os mais idosos que também merecem todo o nosso respeito.

 

N.B. Sou professora do ensino secundário em França e vim para França quando tinha 4 anos. O jovem de 22 anos com quem falei e me deu o parecer dele sobre a situação atual de Portugal, é um dos Assistentes de língua portuguesa contratados pelo Instituto Camões que, todos os anos, fazem parte de um programa de intercâmbio de assistentes de língua entre a França e Portugal.

Não é a primeira vez que os Assistentes portugueses com quem trabalho me dizem que as escolas em França são mais bem aquecidas e que em Portugal quando andavam na escola passaram frio.

Foi por exemplo também o caso, há cinco anos mais ou menos, de uma jovem licenciada da Universidade Nova de Lisboa que tinha sido aluna no Pinhal Novo, no distrito de Setúbal.

Eu, pessoalmente, nasci no concelho de Miranda do Douro, uma das zonas de Portugal onde faz mais frio no inverno e mais calor no verão. E sei que na minha terra natal, ainda há também muita gente que vive em condições precárias, com pequenos salários ou pensões miseráveis. Uns até passam frio, o que parece incompreensível e até anormal numa das zonas do país que produz enormes quantidades de energia elétrica graças às três grandes barragens de Miranda, Picote e Bemposta.

E como esses Mirandeses e Trasmontanos que passam frio mesmo assim nessas terras do planalto mirandês, há finalmente muitas e muitas outras pessoas, milhares e mesmo centenas de milhares, em todo o território português.

Uma situação que tem de mudar urgentemente!

 

Ana Maria Fernandes

 

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