Louis-Philippe Branco

Opinião: Maio de 68 queria mudar o mundo. Nós só queremos ter futuro


Sou neto de portugueses que chegaram a França nos anos 60, de malas modestas e esperanças enormes. Vieram trabalhar, construir uma vida e dar aos filhos aquilo que Portugal lhes negara: oportunidades. Conheceram uma França que, em Maio de 1968, viu os estudantes sair à rua para contestar a autoridade, as hierarquias e uma sociedade que já não correspondia às aspirações da juventude.

Quase seis décadas depois, somos nós que ocupamos as ruas de Paris. Mas há uma diferença amarga: os estudantes de Maio de 68 queriam transformar o mundo; nós manifestamo-nos porque receamos não encontrar lugar nele.

As manifestações que atravessam atualmente os liceus e as universidades francesas não nasceram de um capricho juvenil, nem de uma súbita vontade de contestação. São o resultado de anos de políticas de contenção orçamental, reformas sucessivas e decisões governamentais que foram fragilizando um dos pilares fundamentais da República: a escola pública.

Durante anos, sucessivos governos procuraram reduzir a despesa pública, suprimindo postos, reorganizando serviços e impondo uma lógica contabilística a um sistema educativo que necessita, acima de tudo, de investimento humano. Não significa que todos os orçamentos tenham diminuído nominalmente. Significa que os recursos nem sempre acompanharam as necessidades reais, a inflação ou o aumento da população universitária.

Hoje, as consequências estão diante de nós: turmas sobrelotadas, professores ausentes durante semanas sem substituição, profissionais exaustos, falta de psicólogos, enfermeiros escolares e pessoal especializado para acompanhar alunos com dificuldades ou necessidades educativas específicas. Há estabelecimentos degradados, horários incomportáveis e desigualdades territoriais que condicionam profundamente o percurso escolar de milhares de jovens.

Os números também explicam a nossa indignação. A despesa média por estudante do ensino superior tem vindo a diminuir, em termos reais, desde 2014. E o projeto de orçamento para 2027, apesar de anunciar um aumento global das verbas para a Educação Nacional, prevê a supressão de 1.588 postos de professores titulares. O Governo justifica a medida com a diminuição do número de alunos. Mas como explicar esta racionalização quando continuam a faltar professores nas salas de aula?

A promessa recente de mobilizar três mil professores substitutos constitui uma resposta de emergência. Não resolve, porém, o problema de fundo: a desvalorização de uma profissão que tem dificuldade em atrair novos candidatos e em conservar os seus profissionais.

Nas universidades, a precariedade alastra. Estudar em Paris significa enfrentar rendas incomportáveis, dificuldades de alojamento, despesas crescentes e a perspectiva de entrar num mercado de trabalho cada vez mais incerto. O Parcoursup, sistema de acesso ao ensino superior, tornou-se também um símbolo da angústia de uma geração que vê o seu futuro condicionado por desigualdades sociais que a escola deveria combater.

Compreendo que França enfrenta dificuldades financeiras e que os recursos públicos não são ilimitados. Mas pergunto-me que economia se consegue verdadeiramente quando se começa por comprometer a educação daqueles que terão de sustentar o país amanhã.

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Os meus avós emigraram para que os filhos não fossem condenados ao futuro que lhes tinha sido imposto. Os meus pais cresceram com a convicção de que estudar era uma forma de ascensão social. Eu, aos 22 anos, começo a perguntar-me se um diploma ainda será suficiente para construir uma vida digna.

Não defendo a violência, nem considero que destruir mobiliário urbano contribua para resolver os nossos problemas. Mas inquieta-me uma sociedade que parece indignar-se mais depressa com um caixote do lixo incendiado do que com anos de desinvestimento na educação, com o desespero dos professores e com uma geração inteira a perder a confiança no futuro.

Não se pode exigir responsabilidade aos jovens enquanto se lhes deixa como herança a fatura de sucessivas decisões políticas. Também não se pode pedir que respeitem uma República que promete igualdade de oportunidades, mas que nem sempre lhes garante os meios para a alcançar.

Em maio de 68, os jovens gritavam que era proibido proibir.

Em outubro de 2026, pedimos professores, condições para estudar e a possibilidade de viver dignamente do nosso trabalho.

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Os meus avós atravessaram fronteiras para nos oferecer um futuro.

Nós atravessamos Paris para exigir que não nos seja retirado.

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Louis-Philippe Branco

Lusodescendente de 22 anos

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