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Não sei se notaram, mas vivemos num mundo cada vez virtual. Um mundo em que cada vez acontece mais ficarmos sentadinhos no sofá da sala, em frente da televisão e a comentar esse mesmo mundo através do telemóvel.

E como o mundo está hoje à distância de um clique, pensamos saber tudo, lemos a opinião de outros com quem concordamos umas vezes e discordamos outras, e há sempre gente a dizer ‘mata-se’ e vamos nós e acrescentamos “esfola-se”.

O mundo tornou-se cada vez mais agressivo, violento e… por vezes falta-nos alguma pitada de realismo, falta-nos discurso com os pés bem assentes na terra.

 

E porque razão vos digo isto hoje?

É por causa do Consulado Geral de Portugal em Paris.

O LusoJornal publicou esta semana uma entrevista ao Cônsul Geral de Portugal em Paris onde abordou o atraso enorme nas marcações para quem quer fazer ou renovar um Cartão do Cidadão.

Resumindo, quem em setembro tentou fazer marcação, já só teve vaga para janeiro. São quatro meses de espera! E o próprio Cônsul Geral Carlos Oliveira diz que nunca houve tanta “pressão” como agora para o Cartão do Cidadão.

Bom, esta situação pode ser um bom pretexto para malhar nos serviços consulares. Há gente que está mesmo à espera disso: encontrar pretexto para malhar em alguém.

Mas vamos lá nós ter uma pitadinha de realismo.

O Consulado – aliás todos os Consulados em França – estiveram encerrados ao público durante cerca de 2 meses. Isso afetou, claro, o funcionamento dos Consulados, mas afetou todo o serviço administrativo, de França e de Portugal.

Aliás, se virmos bem, afetou a vida de todos nós, sem exceção.

Então, bater no Consulado agora, não deixa de ser bater no ceguinho.

O serviço por marcações, inicialmente muito contestado, está agora a dar um bom contributo para a gestão do fluxo. As pessoas vão lá à hora marcada e são atendidas à hora marcada.

Se não houvesse serviço de marcação, o Consulado já estaria novamente fechado. Já imaginaram centenas de pessoas concentradas em frente do Consulado à espera de entrar? Não haveria regra sanitária nenhuma que suportasse tal situação.

É que, atualmente, são atendidos no Consulado cerca de 600 a 700 utentes por dia, segundo o Cônsul Geral. É muita gente!

Mas a razão da minha crónica nem é bem isto.

Queria destacar a dose de realismo do Cônsul Geral Carlos Oliveira.

Claro que faltam funcionários no Consulado Geral de Portugal em Paris – este que é considerado o maior Consulado de Portugal no mundo. Faltam funcionários porque aqueles que saem, sobretudo porque se reformam, não têm sido substituídos.

E Carlos Oliveira veio dizer que necessitam de funcionários técnicos – isto é, gente de base, que faça o atendimento.

Eu não sei se perceberam bem isto no texto que o LusoJornal publicou. Mas para mim, foi uma das mensagens mais importantes que eu ouvi nos últimos tempos.

Porque muitas vezes estranhei que, cada vez que um Consulado diz que lhe faltam funcionários, Lisboa tem a mania de enviar “quadros superiores”. Lembram-se daquela história da empresa que tem mais chefes do que trabalhadores?… Pois muitas vezes Lisboa manda – e não apenas para Paris – Cônsules Adjuntos, Adidos disto e daquilo, Postos de chefia, enquanto o Cônsul Geral Carlos Oliveira é claro no pedido: “aqui faltam funcionários para a linha da frente, para o atendimento ao público”!

Este realismo do Cônsul Geral merece ser destacado. Assim fosse ouvido em Lisboa!

Mas esta é apenas a minha opinião!

 

Esta crónica do jornalista Carlos Pereira, Diretor do LusoJornal, é difundida todas as semanas, à quinta-feira, na rádio Alfa, com difusão antes das 7h00, 9h00, 11h00, 15h00, 17h00 e 19h00.

 

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