Opinião: Um cemitério, uma reencarnação e um filme


Naquele lugar, cercado por longos muros, um ar modorrento, agitado por uma brisa, fazia qualquer um desejar o mais temível dos invernos siberianos. Aquele vento ainda era responsável por espalhar no ar as contínuas lamúrias que brotavam do local. A essas lamúrias se juntaram os lamentos de Antoine Delcourt, levado para ali contra a sua vontade por Étienne Delorme.

– Ainda não sei por que aceitei o seu convite para vir aqui. Nunca, em meus 60 anos, pisei em um cemitério. A minha serenidade, modéstia à parte, digna das boas pessoas, em mais alguns momentos se dissipará e passarei a expressar um pavor diante de tantos túmulos.

– Calma, eu não diria que o correio celestial esteja prestes a chegar com a carta do universo, convidando-o a deixar a vida terrena. Mas você deve acostumar-se à ideia de que um local parecido com esse será a sua morada eterna. Atormente-se por outras angústias, meu caro. E, depois, esse cemitério não é tão feio assim.

– Não existe cemitério bonito para mim. Nem mesmo a cantada beleza de um ‘Père Lachaise’, em Paris, ou de um ‘Recoleta’, em Buenos Aires, me faria mudar de ideia. O sol que brilha aqui reduz as cores do disco de Newton a uma só, a roxa, uma cor pela qual não tenho a menor simpatia e que manda meu conforto passear a léguas desse horrível lugar.

– Que fique claro que a beleza à qual me refiro deve-se às lápides. Bem, de certa forma, essa beleza acaba desaparecendo, uma vez que os aqui enterrados representam a indecência humana em sua pior configuração. A ideia de criar um cemitério especial para os que, quando vivos, fizeram maldades, não poderia ser melhor.

– Eu conheço muito bem a estirpe desses tais defuntos; espero que suas excomungadas almas estejam no poço de Tártaro, purgando as imundícies e maldades que perpetraram. Ainda que alguns deles, antes de darem seus suspiros finais, tenham deixado de lado as mentiras em que viviam.

– Isso, com certeza, não os salvou do julgamento do lá de cima. Afinal, as suas verdades não eram águas de nenhum translúcido rio; representavam o pior dos esgotos.

– Mas o que o levou a trazer-me aqui?

– Quero lhe encomendar um trabalho. Para ser mais exato, quero que faça um filme sobre o que irei lhe falar neste momento – disse Étienne, apontando para as covas.

– Um filme? Sobre esses mortos?

– Sobre o que fizeram quando estavam vivos. A ideia seria reencarná-los, deixando, entretanto, que soubessem quem foram na vida passada. Afinal, você é um cineasta e acho que poderá fazer um bom trabalho com esse farto material. Então, vamos lá. Comecemos com essa aqui. Sugiro que a faça voltar como uma lésbica e que sofra na carne todo o preconceito e toda a perseguição pregados por ela em seu posto administrativo. Já para esse, gostaria que viesse como uma árvore que estivesse sendo queimada, ou talvez cortada pela motosserra. Ah, não esqueça de sangrar o corte. Agora, com relação a todos esses outros, que venham como cães, maltratados pelos seus donos pelo excesso de lambidas que lhes dão. Bem…

– Isso é tudo?

– Ah, claro que não, faltaram os protagonistas do filme. Para eles, figuras especiais que, guardadas as devidas proporções, poderiam ser comparadas a Leopoldo II da Bélgica, tenho também algumas indicações.

– Leopoldo II?

– Sim, esses aqui nasceram com a mesma coleção de defeitos de Leopoldo II e, tal qual o monarca belga, conseguiram enganar muita gente. Penso que poderiam renascer como crianças numa cidade devastada pela guerra, dessas que os poderosos decidem começar sem jamais conhecer suas consequências. Imagine-os sozinhos, entre as ruínas da própria casa, chamando pela mãe. A princípio, ela ainda responderia. Depois, apenas o silêncio.

– Ufa, Étienne! Você não está fácil.

– E por que estaria? O mal que causaram a tantos inocentes justifica o meu pedido. Além disso, já estão mortos. Voltariam à vida por algumas horas, apenas.

– E isso lhe parece pouco?

– Tenho outra sugestão. Um deles renasceria como uma mulher que, depois de perder os filhos num bombardeio, percorreria as ruas à procura deles. A noite chegaria sem que os encontrasse. E ela também não veria o amanhecer – disse Étienne.

– Que horror, você está sendo cruel.

– Cruel? Crueldade é mandar destruir hospitais, matar crianças e chamar os mortos de danos colaterais. É ordenar massacres e, ao cair da noite, voltar para casa, beijar os filhos e dormir tranquilamente. Eu proponho apenas uma troca de lugares. Afinal, todos morremos um dia, não é assim? Só que alguns se arrogam o direito de escolher também a hora da morte dos outros.

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Marco Guimarães

Escritor e jornalista brasileiro

Crônica que deu origem à peça teatral “O Cemitério do Futuro”, do mesmo autor.

Blog do autor AQUI.

Marco Guimarães

Marco Guimarães

Écrivain et journaliste.
Cofondateur et Vice-Président de l’Union européenne des écrivains de langue portugaise (UEELP)

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