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Não, não vou falar-vos de novo do novo confinamento e das novas e complexas regras a cumprir nos Departamentos a que se aplicam. Mas a verdade é que esta crónica se deve ao novo confinamento.

Uma regra bem-vinda permitiu que as livrarias continuassem, desta vez, abertas. Já se sabe que encontramos sempre o que não procuramos numa livraria. E entre o que desejava comprar e o que comprei desse modo aleatório peguei num livro de Matthieu Garrigou-Lagrange, que conheço dos programas de literatura que apresenta na rádio France Culture. Comecei pela curiosidade sobre o autor, depois sobre o título (“Le Brutaliste”) que, associado à ilustração da capa (um Minotauro), logo me pareceu irónico; finalmente, fiquei duplamente interessado pelo tema, revelado na contracapa: o cenário é Lisboa e o herói (chamemos-lhe assim) é o arquiteto das Torres das Amoreiras, da Zona Jota, das Olaias, do edifício do ex-BNU…

Brutalismo é um movimento da história da arquitetura moderna, mas imediatamente se percebe que não é essa a razão do epíteto que o autor cola ao representante mais extremado do pós-modernismo em Portugal.

Sedutor é ver a cidade tratada por um estrangeiro: raros (e de menor importância) são os erros de grafia ou de interpretação que podem ser assinalados; e numerosos são os momentos de entendimento do contexto histórico, urbanístico, sociológico da cidade e dos seus personagens. Interessante também é a frontalidade jornalística da abordagem do incómodo escândalo sexual que fundamenta o livro, marcante da história da cidade, do país e da história individual do Brutaliste. Uma abordagem que Garrigou-Lagrange baseia em 4 entrevistas diretas com o arquiteto e outros protagonistas do tempo. Apenas o seu nome nunca é referido, mantendo-se Le Brutaliste como o modo de tratamento que lhe é dado quer pelo narrador quer pelas personagens da ficção que se segue. Porque o livro está dividido em duas partes: uma, em estilo reportagem; outra, em versão romanceada.

Sobre o fundo real, o autor constrói a história de um amor entre dois jovens universitários. É um amor que se percebe destinado a falhar (assombrado pela perturbação do visionamento coletivo da célebre cassete roubada, pela liberdade sexual dela, pela homossexualidade, não assumida ou não entendida ainda, dele). Deslocando-se entre o Bairro Alto, os seus pequenos apartamentos urbanos ou suburbanos, os desinteressantes empregos part-time que lhes sustentam os estudos) esses jovens não podem já viver a euforia desregrada dos privilegiados dos anos 80, vivem os seus escombros – mesmo que as Torres (onde os seus precários empregos se cruzam) continuem, então como hoje, a dominar a cidade com os seus imensos volumes, com as suas cores exaltadas, com os seus vidros negros espelhados.

Boas escolhas culturais e até para a semana.

 

Esta crónica é difundida todas as semanas, à segunda-feira, na rádio Alfa, com difusão às 02h30, 05h45, 06h45, 10h30, 13h15, 16h15 e 20h00.

 

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