Paulo Marques apela à calma e à responsabilidade dos autarcas em França


O Conselheiro das Comunidades Portuguesas em França Paulo Marques apelou ontem à calma e ao sentido de responsabilidade dos autarcas franceses e luso-franceses perante a violência em França, criticando discursos que a legitimam.

“Dizer que a violência é legítima é irresponsável”, afirmou Paulo Marques, em declarações à Lusa, acrescentando que os autarcas devem assumir um papel de apelo à calma e ao sentido de responsabilidade.

“Há alguns autarcas a dizer aos jovens que a violência é legítima e é óbvio que temos um problema”, criticou Paulo Marques, ele próprio autarca em Aulnay-sous-Bois e Presidente da Associação dos Autarcas Franceses de Origem Portuguesa.

Segundo o autarca, a tensão entre os extremos deverá persistir até às eleições presidenciais cuja primeira volta está marcada para 18 de abril de 2027.

Paulo Marques indicou que as manifestações diminuíram “muito” em toda a França, mas insistiu na necessidade de manter os apelos à calma e à responsabilidade.

O responsável, que também é Presidente da Cívica, a associação de autarcas portugueses de França, estendeu o apelo à Comunidade portuguesa e luso-francesa, defendendo que as diferenças políticas não devem “alimentar confrontos nem divisões entre a população”.

Cerca de 480 mil pessoas manifestaram-se ontem por toda a França, no quinto dia de mobilização de estudantes do ensino secundário, anunciou a intersindical de organizações estudantis.

Entre os presentes estava a ativista ambiental Greta Thunberg e o líder de esquerda radical francesa Jean-Luc Mélenchon.

4 Comments Deixe uma resposta

  1. Caro Carlos Pereira,

    Creio que estamos de acordo num ponto essencial: a degradação gratuita e sistemática do mobiliário urbano não é uma solução, e não sou eu quem a defende. Condenar esses actos, porém, não nos deve impedir de refletir sobre as razões que levam uma parte da juventude a revoltar-se.

    O que me preocupa no discurso público que se tem vindo a afirmar em França é precisamente a insistência na ordem, na autoridade e no custo das destruições, sem que se dê a mesma atenção às reivindicações sociais dos jovens, às desigualdades, à discriminação e à falta de perspetivas de futuro. Este é um discurso que encontramos frequentemente nos partidos politicos franceses. A questão não é saber se devemos tolerar a violência, mas se nos contentamos em condená-la sem procurar compreender o que a alimenta.

    Quanto ao 25 de Abril, permita-me uma observação histórica. Portugal não fez uma revolução sem violência potencial; fez uma revolução que conseguiu evitar que essa violência se transformasse numa tragédia de grandes dimensões. O desfecho não estava escrito antecipadamente. O Movimento das Forças Armadas teve um papel decisivo, mas o povo português não ficou em casa à espera das instruções dos militares. Saiu à rua, desobedeceu aos apelos para se manter afastado e ocupou o espaço público, transformando um golpe militar numa revolução popular. A presença dos cidadãos e a sua participação foram fundamentais para o sentido que o 25 de Abril adquiriu.

    A História poderia ter sido diferente. O processo revolucionário português conheceu tensões, confrontos e momentos de grande incerteza. A sua conclusão não autoriza, por isso, a apresentar a revolução como um acontecimento sem riscos, nem a esquecer o papel que a mobilização popular desempenhou na conquista da liberdade. O mesmo não aconteceu no “Verão Quente” onde se incendiaram edificios pertencentes, digamos assim, a partidos “mais progressistas”.

    Também gostaria que a juventude francesa inovasse, como sugere. Mas inovar não significa apenas encontrar novas formas de protesto. Significa igualmente construir uma sociedade em que os jovens não sintam que o seu futuro está determinado pelo bairro onde nasceram, pela condição social das suas famílias ou pela discriminação que enfrentam.

    Não confundamos, pois, duas coisas distintas: condenar a violência e silenciar as reivindicações não são a mesma coisa. Podemos exigir responsabilidade aos jovens e, simultaneamente, exigir responsabilidade aos governantes e aos representantes eleitos.

    A República não se defende apenas protegendo o mobiliário urbano, por mais legítima que seja essa preocupação. Defende-se também garantindo que os seus princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade não ficam reduzidos a palavras inscritas nos edifícios públicos.

    É essa reflexão que pretendi trazer ao debate. Agradeço o seu interesse pelo comentàrio.

    Com osmeus sinceros e cordiais cumprimentos.
    José Robalo

    • Longe de mim esquecer os problemas que causam a situação precária das escolas em França.
      Estou bem colocado para conhecer o sistema (por dentro).
      A degradação dura há anos.
      Mas que resultados tem dado a metodologia?
      à parte agravar mais a situação financeira do país e “servir” alguns partidos, não resulta absolutamente nada.
      Por isso, separa bem as duas coisas: a causa e o método.

  2. Não podemos avançar ideias sem analisar o contexto global:

    A República não pode exigir calma sem garantir justiça !!!

    A propósito das declarações de Paulo Marques, Conselheiro das Comunidades Portuguesas em França, autarca em Aulnay-sous-Bois e Presidente da Associação dos Autarcas Franceses de Origem Portuguesa, importa recordar uma verdade histórica que alguns parecem esquecer:
    a Revolução Francesa também começou na rua, quando um povo cansado da fome, das desigualdades e dos privilégios decidiu contestar uma ordem social que o condenava à injustiça.
    Não defendo que os jovens destruam tudo. Não apelo à violência, nem considero que ela seja uma solução.
    Mas recuso-me a aceitar que a condenação dos atos violentos sirva de pretexto para ignorar as razões profundas da revolta social.
    A história ensina-nos que, quando os governantes deixam de ouvir o povo, a rua acaba por se tornar o lugar onde este procura fazer ouvir a sua voz.
    Foi assim em 1789, quando a fome e as desigualdades alimentaram a revolta contra uma sociedade em que uns viviam na abundância enquanto outros nem sequer tinham pão.
    A célebre frase atribuída a Maria Antonieta :
    «Se não têm pão, que comam brioches»
    tornou-se o símbolo de uma elite incapaz de compreender a realidade daqueles que viviam na miséria.

    A História repete-se:
    Apesar das diferenças históricas, não estaremos hoje perante uma situação em que demasiados jovens sentem que a sociedade não lhes oferece um futuro digno?
    Há décadas que as políticas públicas prometem igualdade de oportunidades, integração e mobilidade social.
    Contudo, para muitos jovens, a realidade é bem diferente: dificuldades económicas, discriminação, precariedade, bairros abandonados e a sensação de que o seu destino está condicionado pelo lugar onde nasceram e pela condição social das suas famílias.
    A escola pública, que deveria ser um dos principais instrumentos de emancipação e de combate às desigualdades, não tem conseguido cumprir plenamente essa missão. Em vez de corrigir as diferenças de partida, o sistema educativo continua, demasiadas vezes, a reproduzi-las. Uma sociedade que permite que a origem social condicione o futuro dos seus filhos está a comprometer o seu próprio ideal republicano.
    A República Francesa proclama três valores fundamentais:
    Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

    Mas que significado têm estas palavras para um jovem que não acredita ter as mesmas oportunidades que os outros? Que liberdade existe quando o horizonte é a precariedade? Que igualdade existe quando as desigualdades se transmitem de geração em geração? E que fraternidade existe quando uma parte da juventude sente que a sociedade a rejeita, a estigmatiza ou simplesmente a ignora?
    A juventude francesa não é um bloco homogéneo, e nem todos os jovens que protestam partilham as mesmas razões ou os mesmos objetivos.
    Seria, contudo, politicamente irresponsável confundir a condenação da violência com a recusa de compreender o desespero social que, em determinados contextos, a alimenta.
    Aos autarcas, sejam eles de direita ou de esquerda, cabe uma responsabilidade que vai muito além de pedir calma. Cabe-lhes ouvir, compreender, dialogar e exigir dos poderes públicos respostas concretas.
    Não basta pedir responsabilidade aos jovens. É igualmente necessário exigir responsabilidade aos governantes que, há décadas, não conseguem construir uma sociedade suficientemente justa para lhes oferecer perspetivas de futuro.
    A calma não pode ser uma exigência dirigida apenas aos que sofrem. A responsabilidade deve começar também por aqueles que governam.
    Defender a República não é exigir silêncio aos cidadãos perante as injustiças:
    É garantir que os seus princípios se concretizam na vida quotidiana. É combater as desigualdades, investir na escola pública, promover a integração e devolver aos jovens a confiança num futuro que valha a pena construir.
    A verdadeira ameaça à República não reside apenas na violência que irrompe nas ruas. Reside também na indiferença perante as injustiças que se acumulam, na resignação perante as desigualdades e na incapacidade de reconhecer que uma parte da juventude já não acredita nas instituições que deveriam representá-la.
    Não precisamos de discursos que se limitem a opor a ordem à revolta. Precisamos de uma República que saiba ouvir antes de condenar, agir antes de reprimir e corrigir as injustiças antes que estas se transformem em desespero.
    Aos jovens, devemos pedir responsabilidade.
    Aos governantes, devemos exigir justiça.
    E à República, devemos exigir que honre, finalmente, a sua própria divisa:
    Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

    • Bom, não é porque a Revolução francesa teve de ser violenta que todas as revoluções tenham de o ser.
      Portugal mostrou precisamente que é possível fazer uma Revolução sem usar a violência.
      Degradar gratuitamente e sistematicamente mobiliário urbano – que os nossos impostos terão de pagar – não me parece ser a melhor forma de revolucionar. Pelo contrário, parece-me que se tornou numa moda! Numa triste moda.
      E eu gostava que os jovens inovassem…

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