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“Père Pays, Mère Patrie”, de José Carlos Avellar – “O cinema como retrato de um país ao abandono”

Cultura

 

 

José Carlos Avellar (1936-2016) foi um dos mais respeitados críticos de cinema do Brasil e a sua obra póstuma, “Pai País, Mãe Pátria”, escrita pouco antes da sua morte e publicada no Brasil em 2016, acaba de ser traduzida para francês e publicada pela L’Harmattan.

Em “Père Pays, Mère Patrie” (tradução de Sylvir Debs), um longo ensaio sobre a representação da família no cinema brasileiro recente (1994/2012), José Carlos Avellar parte de um ponto de vista comparativo para analisar as atuais tensões do cinema brasileiro. O novo cinema brasileiro que surge após os anos 1990 abandona a ideia de que o individuo representa a comunidade e as suas esperanças e parte para a análise das feridas identitárias que agitam a sociedade brasileira, focando-se nas relações familiares que funcionam como espelho da realidade sociopolítica do país.

O esvaziamento do Estado – ou mesmo a sua inexistência em certos territórios, nomeadamente nas favelas mais pobres sempre mergulhadas na violência perpetrada por traficantes de droga e milícias – é representado pelo aumento exponencial de personagens sem pai, crianças ora órfãs, ora abandonadas. As mães, essas, biológicas ou adotivas, tornam-se figuras centrais, muitas vezes incapazes de colmatar essa dupla ausência: de pai e Estado.

Um dos filmes tratados neste livro, e paradigma fílmico dessa dupla ausência, é “Central do Brasil”, realizado, em 1998, por Waler Salles e que recebeu no ano seguinte o Urso de Ouro para melhor filme em Berlim. Em “Central do Brasil”, a personagem Dora (Fernanda Montenegro) adota e protege Josué, um rapaz pobre abandonado pelo pai que vê a mãe morrer à sua frente, atropelada por um autocarro. Uma história de grande precariedade e violência, física e emocional, que define o novo cinema brasileiro analisado em “Père Pays, Mère Patrie”.

O leitor poderá ter a impressão que todos filmes produzidos no período em questão são, na verdade, uma única e perpétua película. Um longo filme onde as personagens abandonadas pela família e esquecidas pelo Estado procuram, com urgência, um lugar de pertença, tal qual órfãos à procura de um pai ou um apátrida ansiando por um país.

José Carlos Avellar consegue nestes 28 capítulos, com habilidade e partindo de cenas e diálogos de alguns dos principais filmes produzidos no Brasil no pós-1990, dissecar como as personagens integram em si, enquanto indivíduos, os dramas do coletivo de um país em constante ebulição e incapaz de utilizar as suas imensas riquezas na construção de uma sociedade menos desigual e mais justa.

 

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