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A coletânea de poesia da autoria de António Barbosa Topa – “Devagar, nas asas do vento” (ou “Partir sur les ailes du vent” na sua versão francesa) – acaba de ser lançada em edição bilingue pela Oxalá, uma editora com sede na Alemanha e orientada para a promoção dos autores da Diáspora.

Traduzida por Dominique Stoenesco e com ilustrações de Margarida Nogueira, a obra evoca a nostalgia do seu autor (nascido na freguesia portuense de Cedofeita em 1948) pela cidade do Porto, o Douro e o Atlântico, mas relembra igualmente a descoberta daquela admirável terra nova parisiense vista através dos olhos de um jovem português fugido ao fascismo e à Guerra Colonial.

Num estilo coloquial, despido de qualquer “intelectualismo” formal ou linguístico e solto de lirismos sentimentalões, António Barbosa Topa escreve na primeira pessoa e quase sempre em verso livre e curto. O primeiro poema leva-nos para a foz do Douro, o Cabedelo, a Arrábida e o Atlântico. Elementos adornados pelas gaivotas no ar, os peixes na água e os pescadores nas margens. A melancolia positiva do poeta, o otimismo de viver e a alegria de contemplar a mais simples das belezas deixa o leitor desarmado, sonhando ele também com a doce vida portuense debaixo de um pôr do sol dourado.

António Barbosa Topa foi também um resistente. Em Portugal, na juventude, conheceu a vida das “ilhas” (bairros operários depauperados e pobres) portuenses – Changai, Bairro da Avenida, Chaimite, Quatro Olhos…) – e experimentou a pobreza sem esperança que passava de pais para filhos, o ciclo de perpétua miséria tão acarinhado pelos ideólogos fascistas do Estado Novo.

Em Portugal, durante os anos 60, António Barbosa Topa resistiu contra a opressão e o obscurantismo. Participou em ações de desobediência civil contra a Guerra Colonial e fez parte da Comissão da Juventude do 1º Congresso da Oposição Democrática de Aveiro. Em 1969, fugiu para Paris, escapando clandestinamente a uma guerra que talvez o matasse ou, pior, o obrigasse a matar outros homens que, tal como ele, apenas almejavam a liberdade.

Os poemas que dedica à capital francesa refletem essa descoberta da liberdade desconhecida. O Sena que se mistura com o Douro num imaginário que transporta a ponte Mirabeau para a Afurada, Orly para Campanhã e faz correr o boulevard Saint Michel pela Ribeira abaixo. António Barbosa Topa tornou-se então num ser ubíquo que, como muitos homens e mulheres da sua geração, são simultaneamente daqui e de lá. E isso é uma das mais marcantes características da sua poesia. Ele, contudo, “Mesmo se também” ame “o longe, não” quer “morrer aqui longe do Porto”.

Em França, António Barbosa Topa foi animador cultural, responsável do setor de apoio ao movimento associativo português na Delegação de Paris da Secretaria de Estado da Emigração, professor numa prisão e é agora intérprete.

O que António Barbosa Topa deixará como legado, além da resistência ao chumbo decadente do fascismo, é a sua poesia meio portuense, meio parisiense e toda, inteira, do mundo. Versos belíssimos na sua simplicidade que refletem a duplicidade típica das gentes da Diáspora: homens e mulheres que atingiram um estado tão elevado que se tornaram muito mais do que meros portugueses ou simples franceses. Homens e mulheres que são, afinal, o tudo e o todo.

 

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