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Portugal, Cova da Beira, Silvares: anos 60 do século XX

Opinião

 

Na sequência de artigo sobre “Um português da Cova da Beira na 1ª Grande Guerra” em França, no LusoJornal de 4 de abril de 2021 (José Barroca Agostinho), e a sua “Oficina forja” com a descrição da oficina de grande importância em Silvares e aldeias num raio de uma dezena de quilómetros (14 de julho de 2021), tentado a recriar a vida na grande aldeia do seu tempo, como segue, de memória e alguns testemunhos orais.

Silvares depois de meados do século XX, Ambiente e Vida, anos 50 e 60.

 

Por essa época, aldeia de vários milhares de residentes, Silvares dispunha então de escolas primárias masculina e feminina, lecionando ali cinco professores naturais da terra, do médico Dr. Jaime Crespo Pignatelli, de duas farmácias e estação de correios, com meia dúzia de comércios de retalho de grande dimensão, e bastantes mais pequenas, largas dezenas de retrosarias, mercearias e tabernas; de cinco fornos a lenha de mato onde eram cozidas a broa de milho, pão centeio ou cevada que alimentavam a maioria da população, a par de moderna padaria e duas fábricas de azeite com energia elétrica, e três lagares hidráulicos em ribeira; para a produção de farinha, com cinco moinhos existentes; no inverno, o rio era atravessado para o Ourondo, por barca movida por barqueiros com o apoio de longas varas, num trabalho quando de grandes caudais, chamariz de muita gente a assistir; o Regedor, como autoridade local na povoação, tendo disposto de um juiz de paz, banda filarmónica, e com cinco capelas, a de São Sebastião ostentado sobre a portada a gravação MDCCLXXXII (1782); uma fonte das origens, a fonte Preguiça, um farto chafariz de duas bicas de água no adro desde 1911 recolhida junto da estrada Silvares-Barroca no cimo da encosta a poente, e uma fundição; alguns artífices, como sapateiro, alfaiate, barbeiros e latoeiros, que asseguravam os serviços a uma população dos largos milhares de habitantes de Silvares e arredores.

Da vida em Silvares, então muito populosa, relevam-se algumas características dos anos 60 do século XX.

O recrutamento de jovens para a guerra do Ultramar a partir de 1961 e o elevado fluxo de homens para a emigração com destino América ou Europa, aqui para França e Alemanha.

Com alguns grandes proprietários de terrenos na aldeia e arredores, médios e pequenos proprietários agrícolas, parte dos quais exploravam a terra com animais de tração – cavalos e mulas – e com de juntas de bois que além de trabalho na terra, puxando cargas pesadas em carros de carga entre os terrenos e a aldeia; com muitos populares homens e mulheres, a trabalhar para os proprietários de terras como mão de obra, de sol a sol, na rega do lodeiros de milho no verão também durante a noite, paga em géneros ou pelo escasso dinheiro do tempo.

Fundamental no suporte da economia local, quatro dezenas de juntas de bois, além dos cavalos e mulas dos particulares.

No sector do comércio, bastantes lojas de produtos diversos – tecidos e materiais de uso doméstico e petróleo – com numerosas lojas e tabernas vendendo alguma mercearia no dia a dia, as tabernas frequentadas pelos homens com tempos livres aos domingos.

As minas da Panasqueira, com uma extensão industrial no Cabeço do Pião, Rio ou Lavagem, a três quilómetros de Silvares, na margem esquerda do rio (Lavaria), dava ali ocupação a numerosos operários; trabalhadores que para ali se deslocavam no dia a dia, a pé ou de bicicleta; de bicicleta, operários de mais longe, como Lavacolhos, que pelo final de tarde, regressavam descendo a estrada em terra batida, a boa velocidade, geralmente com pequena bolsa ou bornal pendurados dos parcos artigos de alimentação.

A vida do povo de Silvares, com uma economia agro-pastoril familiar, decorria ao ritmo das estações do ano: além das culturas de inverno de produtos vegetais, trabalhos de sementeira na primavera e colheitas no verão, que dotavam as famílias de produtos de consumo para o ano – azeitonas para o azeite e alimentação, milho, centeio, batata, uvas para o vinho – compondo a alimentação com a criação do porco e galinhas, ali se destacando alguns grandes proprietários agrícolas; bastantes rebanhos de cabras, guardados em pequenas construções de xisto (cortes) nas redondezas do povoado, facilmente alimentadas no mato dos pinhais, contribuíam para a produção de leite e queijo, além do fornecimento da carne; alguns dos residentes, com colmeias da abelhas, procediam à produção de mel; nos pinhais, era recolhida a resina dos pinheiros, de valor comercial.

Com o comércio e capacidades técnicas existentes, acabava por servir as populações da aldeia, Ourondo e outras mais afastadas.

A Igreja de presença dominante, com pároco residente e grupos de padres nos dias festivos, levava a maioria dos residentes à missa dominical e a celebrações da cultura religiosa, como o Natal, a Páscoa, casamentos e batizados, e funerais quando na morte dos falecidos com os sinos da igreja a fazerem soar lentamente as badaladas avisando a população da morte de alguém com o toque de finados.

Com a descrição da oficina forja acima referida, onde surgem três nomes de residentes (professoras Salette e filha Irene, e uma natural de nome Catarina ou Ti Catrina e com a memória de Abílio Laceiras a residir em Paris, referem-se alguns dos residentes com papéis significativos em Silvares, entre as personalidades do tempo – regedor, padre, médico, professores, comerciantes e artífices ainda na memória dos mais velhos.

Ao longo da estrada ou perto, as lojas – tabernas existentes, perto das três dezenas, desde o Cabecinho (Abílio Ladeira) até ao Fundo Lugar perto da ponte sobre a ribeira de Moinhos (José Gabriel), esta em alguns anos sujeita a inundações do rio Zêzere.

Pese o risco de registo parcial, seguem nomes ainda na memória dos vivos em Silvares, particularmente do ilustre comendador Abílio Laceiras, natural de Silvares e residente em Paris com sua mulher Irene e filhos. José Valentim com loja no Adro, Barroca Gil com loja na estrada Adro-Cabecinho, Joaquina Barata da loja na rua da Caleja, o regedor Alfredo Alentejano, o farmacêutico Vale Mesquita, os abonados grandes proprietários de terras António Fabião (pai do médico Pignatelli) e José Caldas Ribeiro, o latoeiro Fernando Monteiro de tão grande utilidade na economia local; entre os mais velhos dos residentes, no ano da graça 2022, José Barroca Gaspar, filho de combatente da 1ª Grande Guerra, em Moçambique, e memória viva dos seus conterrâneos.

 

Post Scriptum: em antiga edição Livros do Brasil, no pequeno livro de Carlo Coccioli, O Vale de Deus, um cantor ambulante chega no final de uma tarde de verão à povoação onde decorrera a feira todo o dia e parou diante da Loja para cantar. Ao calar-se diz aos locais “e agora desafio-vos a descrever a vossa terra”, o Vale de Deus.

Sem resposta entre os locais, o cantor faz uma descrição breve que os mesmos acabam por entender, ser afinal muito simples.

A descrição de vida nos vales e colinas de Silvares, vai muito mais extensa do que a do Vale de Deus a ocupar uma simples página no livro citado.

Menor capacidade descritiva do autor desta memória, da grande Aldeia de Silvares anos 50/60 do século XX.

Com ajuda de Abílio Laceiras, um ‘irmão’ mais velho, emigrante em França (Paris) e de memória prodigiosa, capaz de me referir a existência de 46 juntas de bois (!), uma fundição, ou um serviço de registo civil! Antigo enfermeiro paraquedista em Angola, atleta exímio na Lisboa do professor Moniz Pereira, emigrante em Paris, sindicalista e humanista no apoio e ajudas aos nossos emigrantes desde cedo.

 

José B. Monteiro

 

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