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O estereótipo dos portugueses como trabalhadores da construção civil ou limpeza em França está a dar lugar a uma imagem mais moderna de Portugal, com impacto nos mais de 1,5 milhões de portugueses e lusodescendentes que vivem no país.

“Havia quase um racismo, mas agora, com a imagem de Portugal estando a mudar, já não somos vistos só como filhos da porteira ou homens das obras. Já não é só o bacalhau que vem à cabeça”, disse Anna Martins, lusodescendente e presidente da associação Cap Magellan.

Se a mudança de imagem de Portugal em França tem um impacto na economia e nas trocas comerciais entre os dois países, com França a cimentar-se como o segundo segundo destino das exportações nacionais e um fluxo de turistas franceses que acorrem a terras lusas de forma crescente, há um reflexo óbvio na vida dos emigrantes e das suas famílias.

“Portugal não era bem visto, e os portugueses, de maneira geral, não eram bem vistos, pelo menos no meu bairro, por serem associados a alguns estereótipos que são difíceis de combater e essa foi uma das razões pelas quais me impliquei tanto no associativismo. Isto foi mudando e o que foi ajudando foi Portugal ter uma boa imagem”, explicou Anna Martins.

Esta jovem de 24 anos, filha de uma porteira e de um trabalhador da construção civil, vive no 16.º bairro de Paris, um dos mais ricos da capital e também um dos bairros onde vivem mais portugueses. Anna Martins considera que, antes, ser português em França ou ter origens portuguesas era “um ponto negativo” e que a mudança aconteceu sobretudo devido ao fluxo de parisienses que passaram a visitar Portugal, da passagem de país em resgate para país atrativo economicamente e também à vitória da seleção lusa no campeonato europeu de futebol de 2016.

Uma mudança que não surpreendeu a comunidade que conhece bem o seu país de origem.

“Portugal aqui e Portugal lá é muito diferente. Portugal aqui ficou um pouco parado nos anos 70. O que mudou hoje é que Portugal já não é só um país lindo para os franceses, é um país tendência na tecnologia, na comunicação, no design. Já não somos os atrasados”, disse Sandra Gonçalves, diretora-geral da empresa Canelas, sediada nos arredores da capital francesa.

Esta lusodescendente admite mesmo: “Agora fico mais feliz de dizer que sou portuguesa”.

Os pais de Sandra, Antónia e Carlos Gonçalves, estão há mais de 40 anos em França e há mais de 25 à frente da Canelas, uma das maiores empresas de fabricação de padaria e pastelaria portuguesa em Paris, que também organiza eventos com típica gastronomia nacional, tendo ainda um restaurante nos arredores da capital. Este é um dos setores em que a moda de Portugal em França ainda não chegou completamente.

“O nosso negócio continua a ser a comunidade portuguesa, mas estamos a fazer um esforço para abrir. É muito mais difícil atingir certas partes do mercado. As pessoas encomendam facilmente comida italiana ou tailandesa, mas comida portuguesa ainda não entrou nos hábitos, porque há muitos preconceitos em relação à comida portuguesa como, por exemplo, ser gordurosa”, indicou Sandra.

Esse esforço foi recentemente reconhecido pela Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), que distinguiu a Canelas como Taste Portugal, um selo de qualidade que reúne restaurantes nacionais fora de fronteiras, integrando-a na Rede de Restaurantes Portugueses no Mundo.

A família está consciente da sua responsabilidade como embaixadora da gastronomia nacional, mas avisa que a comunidade “não pode fazer tudo sozinha” e que é preciso mais investimento do Governo português.

No entanto, António Gonçalves, que chegou a França nos anos 1970, já está contente com a evolução do país. “Hoje fala-se de Portugal como um país normal e antigamente era a mulher vestida de preto, com o xaile na cabeça”, concluiu a empresária.

 

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